Aproveito a tarde soalheira mas fresca para um longo passeio a pé entre Campo de Ourique e o Saldanha. Os lisboetas andam pouco a pé: cruzo-me quase só com turistas.
De caminho, passo por ruas inteiras que são um autêntico pesadelo estético, com as fachadas dos prédios sistematicamente desfiguradas por marquises, essa triste instituição nacional – e lisboeta em particular. O que levará os nossos compatriotas a fechar as varandas neste país felizmente tão bafejado pelo sol?
No Largo do Rato, passo pela histórica Papelaria Fernandes, que ainda ali marca presença apesar das notícias sobre a sua iminente falência. Mas logo a seguir, já na rua Alexandre Herculano, verifico que a charcutaria Brasil deixou de existir: era um dos melhores estabelecimentos do género na capital, tinha clientes famosos (uma vez vi lá Mário Soares), mas nem isso a fez resistir à crise. “Foi vendida”, informa-me o empregado de um café vizinho, onde não se vislumbra um só cliente. No lugar da inconfundível charcutaria há agora obras que se destinam a um estabelecimento de características bem diferentes.
Na rua Braancamp, a poucos metros do prédio onde vive José Sócrates, uma moto passa por mim e logo se imobiliza a poucos metros, num semáforo. Ouço o condutor: “Tás bom, Pedro?” É o ministro da Solidariedade e da Segurança Social, Luís Pedro Mota Soares. Sentado na sua vespa, com a maior simplicidade do mundo. Este é, de facto, um Governo diferente do que estávamos habituados…
Perto das Picoas, na rua Sousa Martins, também o restaurante Sucre – um dos meus preferidos – deixou de existir, dando lugar a um pronto-a-comer qualquer. Os restaurantes alfacinhas sofreram uma quebra de 30 por cento na clientela desde que a crise se instalou em força. A muitos, sem crédito bancário disponível nem clientes, só resta fechar as portas.
No Saldanha, entro numa das minhas livrarias favoritas. Há uma nova edição portuguesa do melhor romance da I Guerra Mundial. A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque. Tenho um exemplar velhinho, que pertenceu ao meu avô paterno, antigo combatente em La Lys. Hesito: comprarei esta versão actualizada? Mas logo nas primeiras páginas a editora me informa que o texto “está conforme” as novas regras estabelecidas no (des)Acordo Ortográfico. Desfeito o dilema: reponho de imediato o livro na estante.
Folheio duas outras obras: A Volta do Gato Preto, o diário que Erico Veríssimo escreveu durante a sua permanência nos Estados Unidos, nos anos da II Guerra Mundial. Nunca li este livro, ainda por cima de um género literário que tanto me seduz. Mas reparo no preço: 28 euros. Excessivo. Pelo mesmo motivo, não trago uma biografia de George Gershwin, do brasileiro José Olympio, que também gostaria muito de ler: igualmente 28 euros. O aumento do IVA afugenta cada vez mais os leitores. Vejo por mim.
Mas não saio de mãos a abanar: trago El Hombre que amaba a los perros, do cubano Leonardo Padura. Por apenas 12 euros. Dizem-me que há já uma tradução portuguesa. Mas é seguramente mais cara e assim tenho o prazer acrescido de ler Padura no original.
No pórtico da obra, uma citação de Gregorio Marañón: “La vida es más ancha que la história.” É bem verdade.



Isso de ver um ministro de mota ou um outro ministro pedir para não o tratarem por ministro, está a deixar muitos analistas e comentadores à rasca. É um Governo diferente. Dá preferência aos dossiers e não à propaganda governamental, à politica espectáculo. Quando começar a rentrée (este ano haverá?) vou prestar atenção a certos debates nas tvs .
Vou já reservar bilhete para a 1ª.fila
Mota Soares foi um excelente deputado e não falta quem augure que será um bom ministro. Para já, introduziu uma nota de louvável frescura nos pomposos hábitos políticos portugueses, deslocando-se de ‘vespa’ em Lisboa. Aliás – sinal da crise? – vejo cada vez mais pessoas de moto e de bicicleta na capital. Aplaudo, claro.
Estou chocada. A Charcutaria Brasil já não existe? Lembro-me dela desde miúda! E a da Av. da Igreja também terá acabado?
Em tempos devo ter lido tudo de Erich Maria Remarque, há coisa de um mês comprei Uma Noite Em Lisboa para substituir o exemplar com que um antigo namorado me ficou. Graças a Deus ainda era uma edição antiga, foi comprada na loja da editora, a que tantas vezes ia, no tempo do Liceu.
Saio daqui um bocadinho triste, acho que percebe.
É verdade, Teresa. Também eu fiquei chocado: nem queria acreditar. Felizmente a Rivoli, na avenida da Igreja, continua de portas abertas e recomenda-se. Sou cliente habitual.
Também eu bati com o nariz na porta da charcutaria Brasil, há bem pouco tempo. Era das melhores de Lisboa. Tinha sempre excelentes queijos e batata-palha caseira no Natal. Uma pena.
É um retrato do que vai sucedendo um pouco por toda a cidade de Lisboa: o comércio tradicional encerra, mesmo aquele que julgaríamos eterno.
O que eu chamava “o Porquinho”! 🙁
É uma pena. E um sinal dos tempos. Várias vezes me abasteci ali. Era um dos estabelecimentos do género mais prestigiados de Lisboa.
Verdade, Isabel, o porquinho era o símbolo inconfundível da Brasil. Deve ter sido escolhido porque havia sempre bom leitão da Bairrada. 🙂
Excelente, o leitão. Posso confirmar.
Também posso. E por falar nisso, que saudades de leitão da Bairrada! Pena ser tão longe, fazíamos lá o próximo jantar… 🙂
É só dizerem… Mas tb pode ser na Figueira, há vários: desde o Caçarola, em cima do casino; ao Carrossel, na Gala; ao Peleiro, em Paião. Etc….
As saudades que eu tenho de comer raia no Carrossel…
Vamos nessa: marquem a data que eu trato do resto. Em Agosto é que não, tem filas insuportáveis. Mas já Setembro ou Outubro são boas alturas.
De qualquer maneira o próximo será no Funchal, certo…?
Eu estava convencida de que era uma cadeia porque há, ou havia, outros porquinhos também muito bons, como o da Infante Santo, esquina com a Santana à Lapa.
Não sabia do leitão, mas também íamos lá buscar batata palha no Natal 😉
Uma amiga minha comprava lá ananás dos Açores… que os grunhos dos estrangeiros, que só conhecem abacaxi embora lhe chamem ananás, nem sabem que existe!
Isabel, é capaz de ter razão… o Carrocel, na Infante Santo, pode bem ser da mesma cadeia. É (ou era?) também uma óptima charcutaria.
Esse só conheço de passar à porta… A charcutaria Brasil tinha também uma das melhores garrafeiras de Lisboa.
Pedro, já tive o prazer de comunicar, no meu sítio, o gosto em ler O Homem que Gostava de Cães, em português graças a uma excelente tradução. Maravilhoso. Só me custou mais 6 euros…
“Só”, Zé Luís? Isso confirma que fiz bem em levar a edição em castelhano, editada em Barcelona. Mais barata do que a impressa cá.
Pois, é que o trabalho de tradução e de revisão também deve ser pago. E numa edição que não é de best seller, seguramente (se for um tradutor bom, profissional) é uma fatia razoável dos custos de edição. É claro – quem souber ler no original, melhor. Mas não acho uma diferença chocante, para as tiragens que nós temos.
Sónia, infelizmente o preço de capa não reflecte o que as editoras costumam pagar a tradutores e revisores – que é muito pouco. Os livros em Portugal são mais caros porque há a noção (errada entre editores e livreiros) de que os ‘paperbacks’ não vendem e as pessoas só se deixam atrair por edições mais requintadas, de capa dura e preço de fabrico obviamente mais elevado. Este livro de Padura que acabo de comprar é um (bom) ‘paperback’, nada habitual para os nossos padrões.
Pedro,
Sabe do que é que tenho mais saudades de Portugal (já disse isto tantas vezes!!)?
Da luz natural.
Porque é que que a cortam com essas m#$%^??
Quando vivi longe de Portugal, também aquilo de que mais sentia saudades – além da família – era do céu azul e da luz única existente em tantas zonas do País, designadamente em Lisboa.
Já não é mau que essa editora coloque o aviso. Para não assustar clientes, muitas não o fazem. Comprar livros está a ficar complicado.
Devia haver uma ASAE só para os livros, José António. Esta editora, pelo menos, teve o cuidado de avisar o cliente incauto.
Só espero que do cemitério não conste a Mexicana… Há anos que o meu itinerário deixou de passar pela praça de Roma, mas aquelas bolachas finíssimas de amêndoa (‘florentinas’ ou coisa assim) eram uma absoluta perdição. Se agora as ‘pilhasse’… é garantido que teriam um efeito associado de madalenas de Proust.
Renascido está o tradicional café Império, ali bem perto. Com a tradicional qualidade do bife e uma ementa cuidada. Nem tudo são más notícias.
Sério? Não sabia. E o bife continua bom, com molho de manteiga queimada? Isso é uma grande notícia.
Pedro, para tanta riqueza (do livro) nenhum dinheiro é demasiado e nem todos podem ir a Barcelona buscar um… quer dizer, poder podem, buscar é que será mais difícil. E não gosto de ler livros noutras línguas, sendo o Português tão belo quando bem escrito. E a versão em Português é riquíssima.
Atenção, Zé Luís: o livro é que viajou de Barcelona para cá – e mesmo assim chega mais barato, o que diz muito sobre o exagero dos preços praticados em Portugal. Não conheço a versão portuguesa, admito que seja excelente. E nada tenho contra as traduções – uma actividade muito meritória e culturalmente relevante, apesar de pessimamente remunerada entre nós. Neste caso, porém, fico-me pela versão original: gosto de boa prosa castelhana, é um prazer mergulhar neste idioma.
Típica prosa de menino. Numa prova cega não enganas. Eheheh!
Are you talking to me?
Falas da algumas coisas tristes (o fim da Charcutaria Brasil, que conheci a partir de 1986, quando entrei para a faculdade e fui morar para próximo do Largo do rato, ou a parvoíce do acordo ortográfico…), mas este é um texto que se lê com um imenso prazer.
Obrigado pela simpatia, caro António. Foi mesmo com tristeza que olhei para o lugar e reparei que já lá não estava a charcutaria. Fechou de vez sem sequer ser notícia, o que também é um triste sinal dos tempos.
1- é sempre bom passear em lisboa em Agosto sem carros
2- o sr Ministro está bom? não se espetou pois não?
3- os livros em Portugal são muito caros. É uma barbaridade e ainda por cima quando a maioria dos livros portugueses são escritos por pessoas não especializadas, vulgo autores
1. Eu gosto de dar grandes passeios em Lisboa – e não só. Ando quilómetros todos os dias.
2. O ministro arrancou em velocidade moderada. Sou suspeito por ser há vários anos amigo dele. E foi um dos melhores deputados da bancada do CDS, como os próprios adversários políticos reconhecem.
3. Totalmente de acordo.
Obrigada por este pedaço de prosa. Mesmo para quem não conhece Lisboa com esse pormenor, é um prazer lê-lo.
As marquises, sim, as marquises…
Obrigado eu, Cristina. De facto as marquises são… como direi?… abomináveis.