Um dia na piscina


José Meireles Graça,

Na selecta piscina pública junto ao mar, chegara a hora do almoço e a família Alves, que viera no Fiat 1100 familiar, e nós no autocarro de dois andares, escolheu um canto no areal estreito, à sombra do balneário, para almoçar.

Surdiram lancheiras e sacos de plástico. O meu, modesto, tinha duas sandes de mortadela e uma garrafa de água. Mas antecipava com gosto a abundância de bolinhos de bacalhau, rissóis, carnes sortidas, sumóis, frutas – a mãe Celeste, planturosamente fornida de carnes e de seio farto, tinha justa fama de ser uma cozinheira de mão cheia e, tirando o meu amigo Carlos, o filho mais velho, em que se notava uma magreza toda intelectual, os irmãos exibiam na redondez das formas a abundância do passadio na casa familiar, à Constituição.

Nós, os amigos, sentámo-nos em volta, o mais próximo possível da Clara, amiga da filha mais velha e vamp do grupo – loura, seios ainda incompletos,  prometendo com negaças e joguinhos álacres de sedução o que ainda, que se soubesse, não dera a ninguém; e a Filipa, sempre alegre, já mulher nas formas e amiga de todos no seu desprendimento amável, circulava por ali, adjuvante da mãe na condução dos trabalhos de mastigação.

Íamos ali passar dias com frequência, mas os pais só ao fim de semana; e o engenheiro Alves, que trabalhava num banco, não era pessoa de frescuras, de modo que o ambiente era bem mais composto do que o habitual.

Jesualdo era a mais recente aquisição, e tão chato que lhe chamávamos o “Cola” – impossível não estragar namoros desajeitados, ou brincadeiras pouco inocentes, o Cola não despegava e fazia de um tudo para agradar.

ꟷ Ó senhor engenheiro, esta sandes de carne está uma delícia.

ꟷ Come, rapaz, que te saiba bem.

ꟷ A seguir, senhor engenheiro, vou provar os rissóis. Parece que os rissóis da D. Celeste são de se lhe tirar o chapéu. O senhor engenheiro prefere os de carne ou de camarão?

ꟷ São ambos bons, rapaz, prova os dois.

…

ꟷ Ó senhor engenheiro, eu agora bebia uma aguazinha, mas uma cerveja também não ia mal. Mas se calhar não é o melhor, por causa do banho. Acho que vou ficar pela água.

ꟷ Ó rapaz, come e bebe o que te apeteça e puta que te pariu.

6 comentários em “Um dia na piscina”

  1. Mais ou menos na mesma época, numa praia algarvia ouço;
    Nathalie viens ici vite.
    O sotaque e virolência do chamamento despertou-me a atenção porque quem falou estava perto.
    Como a moçoila não obedeceu, de seguida saiu em alto e bom som;
    Vais levar um chapadão na tromba!

    1. Obrigado mas não é exactamente novo (muito de longe em longe dá-me para contar histórias) nem significa que me vá afastar do palavreado habitual sobre os casos da semana ou do mês. Mas – mais uma vez – obrigado.

  2. Gosto desta faceta. Li o texto como leio o Aquilino: sempre de dicionário à mão para confirmar a justeza do vocábulo escolhido.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *