A censura pode tornar os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.
Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.
A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.


Não sei se o dito Alencar gostou da mudança.
Alencar já estava há muito a fazer tijolo.
Eu sei. Mas acho que os mortos – por interpostas pessoas – têm sempre uma palavra a dizer sobre o que escrevem e o que fazem aos seus escritos.
O livro em causa fez parte do programa de ensino do oitavo ano. O meu companheiro, que lá viveu, leu-o aos 13 anos.
Talvez mal comparado, mas Alencar é uma espécie de Júlio Dinis dos brasileiros. Esteve muito em voga no final do século XIX.
Nunca li nada de Alencar. Pode ser que ainda vá a tempo, mas há prioridades. Antes terá que ser o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Só conheço algumas passagens; uma delícia.
O bom de não ter lido muito, é o manancial de escolha pela frente.
Mais vale correr que o tempo vai à nossa frente e nunca mais o vamos apanhar.
Aproveitamos a viagem para ler também Jorge Amado, português cantado embalado por ondas atlânticas de águas de côco e brisas frescas de tardes tropicais no doce balanço de uma rede de baloiço, à sombra soalheira de frondosas palmeiras.
E a cheirar a jacarandá.
Muito bom
Raios, que estou a ficar doente!
Primeiro alembrei-me da Manela Guedes … ai Nosso Senhor Jesus, ca susto carago!
Depois alembrei-me das beixas que a Anita fez quando conversava com a Meireles e senti-me febril.
Smoreira