Um caso de censura


Pedro Correia,

 

A censura pode tornar os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.

Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.

A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.

10 comentários em “Um caso de censura”

      1. Eu sei. Mas acho que os mortos – por interpostas pessoas – têm sempre uma palavra a dizer sobre o que escrevem e o que fazem aos seus escritos.

      1. Nunca li nada de Alencar. Pode ser que ainda vá a tempo, mas há prioridades. Antes terá que ser o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Só conheço algumas passagens; uma delícia.

        O bom de não ter lido muito, é o manancial de escolha pela frente.

        1. Mais vale correr que o tempo vai à nossa frente e nunca mais o vamos apanhar.
          Aproveitamos a viagem para ler também Jorge Amado, português cantado embalado por ondas atlânticas de águas de côco e brisas frescas de tardes tropicais no doce balanço de uma rede de baloiço, à sombra soalheira de frondosas palmeiras.

  1. Raios, que estou a ficar doente!

    Primeiro alembrei-me da Manela Guedes … ai Nosso Senhor Jesus, ca susto carago!

    Depois alembrei-me das beixas que a Anita fez quando conversava com a Meireles e senti-me febril.

    Smoreira

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