A censura torna os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.
Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.
A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.


Exactamente o que eu faço quando quero chamar nomes a alguém! Acrescento sempre grande filho disto e grande filho daquilo.
Nunca me ocorreu chamar “grandes lábios” quando quero insultar alguém.
No filme M.A.S.H. o insulto não era “big” mas “hot lips” 🙂
‘Hot lips’ é insulto?
Muito me conta…
No filme, era – a Hot Lips era uma mistura de capitã, enfermeira e moralista 😀
Por enquanto não foi preciso — mas nunca se sabe de que recursos semânticos vamos precisar exactamente.
Eheheh. Convém ter algo sempre à mão para o que for preciso.
Pois por cá a censura não parece estimular nenhum pasquim. Cumprem e calam. Por exemplo, nunca mais li nada sobre o fascinante caso da família pertencente a uma minoria que espancou um casal doutra minoria. É tão bicudo e contra a narrativa oficial que nem as Catarinas, Isabéis, Marianas e Marisas sabem como lhe pegar. A ordem parece ter sido abafar o caso.
Ora aí está como um caso bicudo se foi arredondado até dar em nada.
Fosse uma família do heteropatriarcado caucasiano a espancar o casalito e seria o bom e o bonito. Igualdade…pois…
Nada como um anónimo, de focinho tapado, para opinar sobre a cor da pele dos outros.
Não queria antes dizer “sobre a cor do focinho dos outros”?
Focinho têm os que andam com ele tapado.
E, mais uma vez, as minorias a serem maltratadas. Então e os pequenos?!
Deixe estar, Sarin. O tamanho não importa.
Mas os pequenos não devem ser discriminados, Pedro.
Foi isso mesmo que eu disse ao deputado André Silva, do PAN, quando ele afirmou no discurso do Estado da Nação que «a Humanidade representa apenas 0,01% da biodiversidade mundial».
Mais um negligente, portanto…
E o André Silva disse algo de errado? Porque é que o Pedro Correia tem tanto ódio ao PAN? Será que é porque conseguiu eleger um deputado enquanto o Santana Lopes nem sequer criar o seu partido consegue?
Vai perguntar ao papá como te chamas. Quando souberes podes voltar.
Digo-lhe mais, Pedro: a problemática do fogo está tão relacionada com a discriminação dos pequenos como com o abandono do interior.
Só não percebe isso quem for negligente.