Um caso de censura


Pedro Correia,

 

A censura torna os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.

Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.

A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.

21 comentários em “Um caso de censura”

  1. Exactamente o que eu faço quando quero chamar nomes a alguém! Acrescento sempre grande filho disto e grande filho daquilo.

  2. Pois por cá a censura não parece estimular nenhum pasquim. Cumprem e calam. Por exemplo, nunca mais li nada sobre o fascinante caso da família pertencente a uma minoria que espancou um casal doutra minoria. É tão bicudo e contra a narrativa oficial que nem as Catarinas, Isabéis, Marianas e Marisas sabem como lhe pegar. A ordem parece ter sido abafar o caso.

      1. Fosse uma família do heteropatriarcado caucasiano a espancar o casalito e seria o bom e o bonito. Igualdade…pois…

        1. Foi isso mesmo que eu disse ao deputado André Silva, do PAN, quando ele afirmou no discurso do Estado da Nação que «a Humanidade representa apenas 0,01% da biodiversidade mundial».

          1. E o André Silva disse algo de errado? Porque é que o Pedro Correia tem tanto ódio ao PAN? Será que é porque conseguiu eleger um deputado enquanto o Santana Lopes nem sequer criar o seu partido consegue?

      1. Digo-lhe mais, Pedro: a problemática do fogo está tão relacionada com a discriminação dos pequenos como com o abandono do interior.

        Só não percebe isso quem for negligente.

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