Um assunto de porteiras


Pedro Correia,

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A reprodução descarada e obsessiva da lógica das redes sociais pelos órgãos de informação está a contribuir para o descrédito acentuado do jornalismo que vai restando.

Há dezenas de jornalistas, em quase todas as redacções, que nada mais fazem durante dias inteiros senão escrutinar o que se cochicha e bichana nas redes, acabando por dissociar-se por completo do mundo concreto e do país real. Nas suas prédicas em papel ou no digital, recorrem aos temas e à semântica que pupulam nessas «vias alternativas à informação», como há já quem lhes chame no meio jornalístico, disparando assim contra o próprio pé.

 

Reparem no que acontece naquilo a que ainda é costume chamar «canais de notícias» na televisão. Num curioso fenómeno de mimetismo, generalizou-se o modelo CMTV, absorvido inicialmente pela TVI 24 e agora já vampirizado também pela SIC Notícias: fecham três ou quatro mecos num estúdio durante horas a discutir coisa nenhuma sobre a bola que agora nem rola nos relvados e assim supõem cumprir a missão jornalística.

Mas não cumprem: essas tertúlias de bitaiteiros são meras correntes transmissoras de boatos e rumores. Basta comparar as imagens que reproduzo acima: foram propaladas com escassas horas de intervalo no mesmo canal – a primeira às 18.17, a segunda às 22.32. Sujeitas a esta lógica editorial mais que duvidosa: primeiro imprime-se a lenda, depois (se não chover) imprime-se o facto. Assim duplica-se a audiência (o que não parece ser o caso, longe disso, no canal em causa, a avaliar pelos mais recentes números tornados públicos).

 

Isto já se pratica hoje sem sofisticação nenhuma, como é patente no exemplo que deixo aqui em baixo. Talvez farto de publicar notícias, essa coisa anacrónica e maçadora, um jornal de difusão nacional acaba de instituir uma secção intitulada “Negócios e Rumores”. Como se fosse um assunto de porteiras em vez de jornalistas, sem desprimor para as porteiras.

Assim ao menos não ilude ninguém: o leitor, à partida, já sabe que irá mesmo ser enganado. 

 

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12 comentários em “Um assunto de porteiras”

  1. Assino por baixo.
    As TVs tratam os espectadores como atrasados mentais, todas!
    Será por isso que se passaram a chamar espetadores?

  2. E os monólogos dos comentadores de política são o quê ?
    Constantemente a alvitrarem factos alternativos que seguem uma agenda subterrânea de interesses obscuros.
    Ao menos com estes programas de “bola” nós já sabemos que não devemos ligar puto.

    WW

    1. Você praticamente não tem alternativa. Os programas de bola chegam a ocupar cinco e seis horas diárias nos “canais informativos”.
      Mesmo quando não há sequer bola a rolar na relva, como agora acontece.

      Começou na CMTV: sete serões por semana.
      A TVI 24 copiou este modelo descaradamente.
      E A SIC Notícias também já segue estas pisadas.

      Quase não sobra mais nada.

      1. Você tem razão !
        Como deve saber esse tipo de programas teve início na Sic com os donos da bola.
        Felizmente na RTP chegou a haver o trio de ataque com o saudoso Poncio Monteiro e esse é o que o original , discutia-se bola a sério sem ignorar as idiossincrasias das políticas futebolísticas mas com propriedade.
        O que existe actualmente serve para preencher tempos de antena e é um formato barato para entreter.

        WW

  3. A estratégia é mais simples: o que lhes interessa e estar sempre a falar do Benfica, seja por que motivo for e em que situação for. Não há má publicidade. Nem que seja num jogo da Selecção ou de uma equipa manhosa qualquer no estrangeiro, há sempre alguém que “passou pelo Benfica”. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica. O Benfica.

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