Tolstoi escreveu que todas as famílias felizes se parecem. A afirmação, por motivos óbvios, aplica-se aos casais. De facto, não tem história a vida conjugal dos casais felizes que conheço. Certamente será por esse motivo que o género pouco aparece nos filmes. Não há argumentista que lhes pegue, nem muitos realizadores que se deixem seduzir pela ideia de dar vida à vidinha que segue, transparente, entre gente que mal se vê.
O amor, na perspectiva dos utilizadores das salas de cinema, é – regra geral – matéria abrasiva, ora incandescente ora corrosiva, fonte de redenção ou de sofrimento. Daí que “Um Ano Mais” (Another Year), escrito e realizado por Mike Leigh, se nos apresente como uma obra não alinhada e, na sua aparente candura, bastante incómoda.
Muito british, esta película é uma incursão desapaixonada no universo tendencialmente entediante da harmonia conjugal. Leigh obriga-nos a olhar para o que todos reconhecemos de qualquer lado – na sua estratégia é importante que o reconheçamos – mas que em regra não merece mais que dois minutos da nossa atenção. A abordagem que faz à normalidade do quotidiano de um casal feliz é tão desprovida daquele je ne sais quoi que nos faz distinguir os argumentos cinematográficos da vida, que estranhamos. Decorrida meia hora de filme perguntamo-nos se não nos estará a sair na rifa um aborrecido postal naturalista.
Só tarde demais perceberemos que afinal a introdução pouco empática a um tema aparentemente desinteressante faz parte do jogo.
Na verdade, a desconfiança inicial do espectador é expectável e desejável, pois para fruir esta história é preciso segui-la a contragosto, sem perceber onde se quer chegar. Sem perceber que afinal este é um filme ameaçador, destinado a abalar os nossos conceitos sobre o amor, logo esses.
Quando damos por isso já nos estamos a ver em negativo e até a mudar os nomes adultos que chamamos às coisas. De repente “tédio” passa a “serenidade”. E a rotina deixa de ser um lugar perigoso, podendo muito bem confundir-se com a sucessão natural das estações do ano. À medida que a acção se desenrola acabamos a pôr em causa a nossa auto-suficiência e se não paramos é todo um edifício de princípios gerais e regras básicas que vem abaixo.
O pior, o que mais perturba, é que em nenhum momento podemos recorrer ao clássico “Isto só acontece nos filmes”. É esta a perversão de Leigh. Leva-nos ao engano para o cinema e afinal brinda-nos com demasiada realidade, coadjuvado pela extraordinária interpretação de Jim Broadbent e Ruth Sheen, o casal bem sucedido, Lesley Manville e Peter Wright, os seus amigos solitários (actores recorrentes nos seus filmes). No fim, deixa-nos a bailar no espírito a pergunta insidiosa: “Com quem te identificas mais?” A resposta, arrisco a dizer, não será fácil para muitos dos que decidirem assistir a “Um Ano Mais”, uma das grandes películas britânicas deste ano.


Gostei muito desta leitura que fazes deste filme que também tanto me tocou, Teresa. Sou um admirador da obra de Mike Leigh desde ‘Segredos e Mentiras’, para mim um dos melhores filmes da década de 90. E este foi, seguramente, o filme de que mais gostei até ao momento em 2011. É um filme que apetecer rever, que apetece saborear – feito de momentos, de pequenos gestos, de alguns diálogos, de alguns olhares. É um filme para espectadores que apreciam atmosferas e pormenores.
Tenho um fraco por filmes de actores e Mike Leigh é um dos mais interessantes fornecedores do género. Dizes bem, este filme é para se ver e rever.