Pedro Passos Coelho não pode pedir desculpa aos portugueses pela segunda vez em menos de seis meses. O líder do PSD foi suficientemente claro – read his lips – quando enunciou ao País, por vontade própria, quais seriam as matérias que o fariam votar contra o Orçamento de Estado para 2011: aumento da despesa pública e aumento dos impostos.
Fez isso em nome da necessidade de clarificar as regras do jogo político. E fez bem. Perante a sua própria lógica, seria inaceitável que repetisse o sucedido com o PEC2, dando o dito por não dito. Incomode quem incomodar, diga o Presidente da República o que disser. A política não pode ser um jogo de póquer, onde o bluff impera. Faltar à palavra dada é um dos piores defeitos dos nossos políticos. Sócrates já o fez vezes sem conta. Passos quererá imitar-lhe o estilo? Creio que não. Até porque o original é sempre favoravelmente comparado à fotocópia.
Note-se, aliás, que o PSD não tem nenhuma obrigação “institucional” de viabilizar o orçamento. Compreendo que esse cenário daria algumas dores de cabeça ao putativo recandidato Cavaco Silva, mas um Presidente da República é eleito para resolver problemas, não para se afastar deles. Por toda a Europa, a norma é o principal partido da oposição votar contra o orçamento apresentado pelo Governo. Veja-se o que sucede em Espanha, onde há também um Governo socialista minoritário: o Partido Popular prepara-se para chumbar o orçamento de Zapatero, que já se viu forçado a negociar com outra força da oposição – no caso, o Partido Nacionalista Basco – para garantir a aprovação do mais importante instrumento da acção governativa. Teve de dialogar, teve de fazer cedências – por sinal num quadro político, como é o espanhol, muito mais complexo do que o português.
Por cá, Sócrates não dialoga, não negoceia, não cede. Mantém a aura de “animal feroz”, lançando as culpas sobre o PSD, como se este partido – que já lhe garantiu a aprovação do PEC1 e do PEC2 – estivesse em coligação com os socialistas, sob o alto patrocínio do Presidente da República.
Volto ao princípio: o PSD não pode votar um orçamento que aumenta impostos. Porque essa foi uma garantia proclamada aos portugueses por Passos Coelho. Há quatro outras forças partidárias no Parlamento. Cabe a Sócrates negociar com elas, tal como Zapatero fez em Espanha, em vez de lançar ultimatos em tom de amuo. Vire-se para o CDS, à direita. Vire-se para o BE, PCP e Verdes, à esquerda. Aprenda a dialogar: tarda a perceber que está há um ano em minoria. Um ano exacto, por sinal.



“um Presidente da República é eleito para resolver problemas, não para se afastar deles”
nem mais!
Parece-me uma evidência, Adolfo. Infelizmente vejo isto muito poucas vezes sublinhado.
Isso mesmo.PPC tem de ser firme e não vassilar.Sócrates que faça o que entender, chatangens,não obrigado.Que Cavaco seja capaz de “impor” juízo ao sr.PM, é o que se exige.
abraço
Temos um PR que se gaba de nunca ter vetado um diploma do Governo. Isto é um dado a ter em conta na avaliação do mandato presidencial.
Vassilar? De Vassili Vassilovitch?
A pau? De carApau de corrida?
Infelizmente, tudo indica que vai acontecer segundo pedido de desculpas.
Seguido do “enterro” definitivo do autor do mesmo, é claro.
Se houver nova quebra de promessa, seguido do inevitável pedido de desculpa, o destino fica traçado logo aí.
Exactamente. Há mais partidos na assembleia, que têm de perder o estatuto de inimputáveis. É ridículo isto de termos partidos com assento parlamento que se demarcam de todo e qualquer compromisso político no quadro parlamentar.
O PSD tem um parceiro natural de coligação – o CDS. O PS tem um parceiro natural de coligação – o BE, com o qual aliás está em clara sintonia nas presidenciais. E tem também outro parceiro – a CDU, com a qual já esteve coligado em Lisboa. É útil que os principais partidos procurem apoio na sua área política, tanto à esquerda como à direita. Sob pena de a democracia portuguesa ficar ainda mais coxa.
Quem tarda muito em lavrar, pouco há de enceleirar…
Entre contas amputadas
e trapalhadas constantes
ficam mentiras atadas
a desilusões gritantes!
Incomode quem incomodar
fica assim clarificado,
com essa vontade lapidar
de dar um chumbo bem marcado.
Muito bem, Manuel. Como sempre.
Suspeito que, com desculpas ou não, o PSD no fim não vai inviabilizar o orçamento, PPC está neste momento a aprender como lidar com alguém do calibre de José Sócrates e espero que já não cometa o erro de dar trunfos ao PS ou a possibilidade deste fazer bluff.
Sócrates, esse “animal feroz”, é o rei do ‘bluff’. Não dá muito jeito, em tempo de centenário da república.
Talvez por isso Cavaco ontem já tenha falado nos vários partidos da oposição.
Sim, é que, finalmente, descobriu-se que não há só um.
Confirma-se: Cavaco lê o DELITO. Ou alguém por ele.
Excelente, como sempre.