Um ano depois: dois dias negros no reino da “análise política”


Pedro Correia,

(primeira de duas partes)

 

 

I

Em Julho de 2013, em entrevista ao canal Q, Joaquim Furtado — um dos mais prestigiados jornalistas portugueses — punha o dedo na ferida: ao trocarem a notícia pelo comentário, muitos profissionais da informação transmitem uma má imagem do jornalismo.

Ouvi estas palavras, que subscrevo, e logo as relacionei com duas datas: 2 e 3 de Julho de 2013, dias negros para o comentário político em Portugal, dias em que se sucederam nas antenas televisivas as mais delirantes teses pronunciadas por jornalistas a propósito do desenrolar da crise governativa então ocorrida.

De repente, a realidade dava lugar aos “cenários” — segundo uma escola muito popularizada, desde os remotos anos 70, por Marcelo Rebelo de Sousa. Mas em cima destes “cenários” foram-se construindo outros, e mais outros, e mais outros, formando uma espécie de tela virtual sem a menor correspondência com a realidade. Na ânsia de suplantarem a capacidade efabulatória de certos “analistas políticos”, com morada permanente nos canais informativos da televisão, vários jornalistas acabaram por prestar um mau serviço ao jornalismo. Tomando o incerto por certo, confundindo desejos com realidades, imaginando que bastam alguns tijolos para construir um edifício argumentativo capaz de resistir ao confronto com os factos.

 

 

 

II

O maior defeito da “cenarização” em cadeia é precisamente esse: acaba por se perder de vista toda a base factual.

Neste caso, convém recapitular, havia três factos: uma carta de demissão assinada pelo ministro de Estado e das Finanças, Vítor Gaspar, tornada pública a 1 de Julho; o anúncio da substituição do ministro pela secretária de Estado Maria Luís Albuquerque, a quem foi conferida posse na tarde do dia seguinte; e uma carta de demissão “irrevogável”, assinada pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, divulgada cerca de uma hora antes da cerimónia de posse e justificada precisamente pela decisão do primeiro-ministro de fazer substituir Gaspar por Maria Luís.

Estes, os factos.

A partir das 16h30 do dia 2 — faz agora um ano — e durante todo o dia seguinte foram desfilando nos ecrãs televisivos diversos comentadores — muitos dos quais oriundos dos jornais ou das rádios — com palpites sobre o desfecho da crise política. Admitindo todos, com base nos dados disponíveis, a iminente queda do Governo e a realização de eleições antecipadas.

Estávamos não já no domínio do concreto, mas do provável. O primeiro erro ocorreu logo ali — na transformação do provável em quase certo ou indiscutivelmente categórico nesta obsessão de “cenarizar” a vida política, deixando factores emotivos de diversa ordem ocupar o lugar da racionalidade no exercício do comentário analítico, talvez também pelo efeito mimético que cada intervenção produzia nas intervenções posteriores, numa espécie de choque em cadeia do qual quase ninguém saiu ileso.

 

 

III

Breve inventário dos erros cometidos:

— O maior de todos foi o da identificação do CDS com o seu líder, considerando-se que os dirigentes democratas-cristãos obedecem em uníssono à voz de comando de Paulo Portas. A tese do “partido unipessoal”, popularizada por José Pacheco Pereira, ganhava foros de dogma indiscutível, como se a política estivesse prisioneira de mecanismos cegos, rígidos e válidos para qualquer contexto e qualquer circunstância.

— Esta tese ignorava que, pouco antes da crise governativa, o CDS assinara com o PSD uma vasta aliança eleitoral para as autárquicas de Setembro em que os democratas-cristãos — com presença residual no terreno autárquico — eram os maiores beneficiários. Ignorava também que a carta de Portas em nenhum momento vinculava o conjunto dos ministros e secretários de Estado do CDS. Ignorava ainda que o titular dos Negócios Estrangeiros não convocara os órgãos próprios do partido antes de divulgar a carta.

— Outro erro evidente destas “cenarizações”: quase todas ignoraram o contexto internacional, produzindo-se como se Portugal não estivesse sujeito a um quadro de intervenção financeira externa, e menosprezaram por completo o efeito da demissão de Portas nos mercados financeiros. A queda abrupta das bolsas e a subida das taxas de juro da dívida portuguesa, ocorridas horas depois, foram um autêntico banho de realidade para muitos comentadores que imaginam ainda a política indissociável da conjuntura económica e financeira.

— A febre da “antecipação” — sob a pressão dos directos televisivos e da permanente auscultação do que se ia dizendo nos canais concorrentes — levou a que se perdesse com impressionante rapidez o rigor da base factual, ingrediente indispensável à qualidade do comentário. Já no dia 1 de Julho isso sucedera, embora numa escala muito menor, quando boa parte dos comentadores tomara por válida a tese de que o ministro da Saúde, Paulo Macedo, chegara a ser um sério concorrente à pasta das Finanças ou fora mesmo sondado para esse efeito. Coube a Miguel Sousa Tavares — no Jornal da Noite, da SIC — deitar água na fervura, nessa segunda-feira, ao dizer que, tanto quanto sabia, Macedo não chegara a ser hipótese para o lugar de Gaspar.

Quem sustentara tal tese esquecera-se aliás de responder a esta simples pergunta: faria algum sentido o primeiro-ministro remover de uma pasta ministerial quase sempre muito polémica aquele que as sondagens apontavam como o mais popular membro do elenco governativo?

 

 

IV

Nunca tantos produziram tantos “cenários” em tão pouco tempo em televisão. Num exercício especulativo quase sem contraditório. A emoção do momento sobrepunha-se por completo à análise racional.

A todo o instante se falava já em eleições legislativas antecipadas — mas também na repercussão da crise portuguesa nas eleições da Alemanha marcadas para três meses depois, em golpes internos no PSD e até na súbita demissão de Passos Coelho. Tudo isto em poucas horas.

Havia quem garantisse que o Presidente da República iria dissolver o Parlamento. Havia quem antecipasse a data das legislativas, equacionando-a para o mesmo dia das autárquicas de Setembro — algo inédito na democracia portuguesa.

Mais insólito ainda: já se antecipava nos canais noticiosos o vencedor dessas eleições, como se o acto de votar fosse um mero requisito formal destinado a validar um quadro político pré-existente. E não faltou até quem antevisse a «derrota da direita» durante uma década em Portugal.

A tese do líder socialista, António José Seguro, ganhava foros de verdade mineral: «O Governo caiu e desmoronou-se na praça pública.» Tese extravagante, mas partilhada por sucessivos comentadores nesse fatídico dia 2: a solução para o problema suscitado pela demissão de Portas… era a demissão de Passos Coelho!

Com tantos jornalistas em antena, praticamente nenhum se interrogou se esse comportamento corresponderia ao perfil político e psicológico do primeiro-ministro. Os factos, também aqui, acabariam por desmentir os “cenários”.

Houve flagrantes contradições na lógica discursiva dos comentadores. O chefe do Governo era criticado por nomear para ministra das Finanças alguém com quem mantinha uma estreita relação pessoal ao mesmo tempo em que era criticado por não cultivar boas relações com o demissionário ministro dos Negócios Estrangeiros. Enquanto se ignorava o historial de conflitos protagonizados por Portas no conjunto da direita portuguesa e no interior do próprio CDS.

 

 

V

Passos Coelho, ainda no dia 2, rompeu toda esta torrente discursiva com duas frases curtas e claras: «Não me demito. Não abandono o meu país.» E revelava que não aceitara o pedido de demissão de Portas.

Era um elemento factual de importância suficiente para fazer estancar — ou, pelo menos, atenuar — as irrevogáveis certezas dos comentadores. Nada disso aconteceu: mesmo perante isto, havia já quem sustentasse que Passos Coelho perdera o apoio de «muita gente no PSD» e estava a poucos dias de abandonar a liderança do partido face às «movimentações» internas contra ele que surgiriam «nas próximas horas».

Um comentador, ainda mais categórico do que os demais, prenunciava nesse serão de terça-feira, faz hoje um ano: «Amanhã [3 de Julho de 2013] Assunção Cristas e Mota Soares vão demitir-se. É impensável que não se demitam. Isso será o passo que falta para o Presidente da República [dissolver a Assembleia da República].» Outro antevia já uma «derrocada eleitoral da direita sem precedentes na última década».

Já na manhã seguinte, outro improvisado analista emprestado pela imprensa aos ecrãs televisivos ironizava sobre a nova titular das Finanças: «É a primeira vez que uma ministra toma posse de um cargo que já não existe!»

Nesta espécie de concurso destinado a apurar quem produzia a afirmação mais delirante destacou-se o autor desta frase, na SIC Notícias: «Passos Coelho faz lembrar Salazar, depois de 1968, quando os ministros iam a despacho e ele já não era primeiro-ministro.»

 

(conclui amanhã)

20 comentários em “Um ano depois: dois dias negros no reino da “análise política””

  1. Pedro, isto é extremamente interessante para quem como eu, não tem televisão (ou não tinha há um ano atrás, e raramente a liga um ano depois). Só tenho pena que, tendo um arquivo deste calibre, com citações entre aspas, não ponha os nomes, preto no branco, de quem disse o quê. É uma pecha muito portuguesa (e os jornalistas portugueses, portugueses são…), mas tenho mesmo pena que a siga: pena, porque sou curiosa mas preguiçosa; mas pena também porque gostava de o ver a funcionar menos potuguêsmente 🙂

    1. Estou com a IsabelPS: falta chamar “os bois pelos nomes” porque as memórias são curtas. Quanto ao resto: excelente!

  2. Está a ser um puco severo demais para os jornalistas.
    Quem afirmou que se demitia irrevogavelmente foi o ministro da Defesa. Ninguém inventou que a pessoa que se apresentou de manhã como secretária do tesouro aos jornalistas se esqueceu de informar que tinha sido ou ia ser nomeada ministra das finanças poucas horas depois.
    Ninguém inventou uma carta de demissão de um ministro das finanças onde este afirmava que não era possível levar até ao fim a política que ele tinha delineado.
    Claro que ao ver esta conjugação de declarações os jornalistas especularam. Talvez devessem ter antecipado que estavam a falar com gente que tem uma noção muito original da ligação entre o que afirmam que vão fazer e o que realmente fazem. Ingenuidades.

    1. Estou de acordo.
      Acho perfeitamente legítimo concluir uma crise governamental, quando ela foi anunciada explicitamente pelo líder do CDS.

      A única novidade nesta crise foi constatar a dislexia do governo.
      Já falámos sobre o perigo que é a perda do significado das palavras, e o Pedro Correia citou até Mario Vargas Llosa:
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/reflexoes-europeistas-4-6305873?thread=52650833

      Portanto, este é um mau caso para criticar as comentadeiras.
      Seguiram até uma linha racional, e não contaram foi com um discurso irracional.

      Sem dúvida que há outros exemplos, em que pelo simples facto de terem que assassinar numa coluna semanal, seja em papel ou ao vivo, libertam a sua imaginação, procurando ser criativos, originais, audazes, e sei lá… tantas outras coisas, em que têm que dar corda ao boneco. Porque o boneco do comentador inteligente precisa de ser alimentado.
      Ninguém espera que o comentador chegado ao dia da crónica, diga – “desculpem lá, mas hoje não tenho nenhuma análise perspicaz, digna da enorme inteligência e sentido crítico que me reconhecem”.
      Claro que não. Se não tem nada para dizer, inventa, dramatiza, faz do pequeno detalhe uma tragédia em três actos… afinal, o boneco é pago para funcionar, semanalmente.

      1. Este para mim é o melhor exemplo. Nunca foi tão grande a distância entre aquilo que se previu (e quase todos previram o mesmo, como se estivéssemos perante um gigantesco plágio colectivo) e aquilo que aconteceu.
        Um ano depois já pode ser feito o balanço daquilo que diziam que aconteceria e não aconteceu:
        – Não caiu o Governo
        – Não houve demissão de Passos Coelho
        – Não houve eleições antecipadas
        – Não houve movimentações no PSD para destituir Passos Coelho
        – Não houve movimentações na “rua” que conduzissem à queda do Governo
        – Não passou a haver um Governo “comandado” pelo CDS
        – Não passou a haver um Governo alargado ao PS
        – A ministra das Finanças, então empossada, mantém-se em funções

      1. Tem razão as previsões falharam todas.
        Mas as previsões partiram todas do pressuposto que os governantes estavam a falar verdade ou, se mentiam, iam tirar consequências desse facto. Não é normal um ministro dizer que se demitiu irrevogavelmente e depois continuar como se nada fosse, sem mostrar ao menos um pingo de vergonha.
        O que não foi previsto foi que estavam a levar para o governo do país as intrigas das “jotas”.
        Os jornalistas inventam muitas vezes e há comentários que são mais desejos do que análises da realidade. Mas, neste caso, quem andou a afastado da realidade e a mentir não foi a imprensa.

        1. Jo, falhou desde logo a tese do “partido unipessoal”. Houve vários dirigentes do CDS – incluindo membros do Governo – que discordaram do pedido de demissão desde a primeira hora.
          Mais: não houve sequer o cuidado, por parte desses analistas, em ler com atenção a carta de Portas, que apenas o vinculava a ele e não ao Governo.
          Não houve o menor cuidado em olhar para a realidade político-económico-financeira internacional nem para as repercussões que uma crise governativa de proporções mais vastas teria nas bancas europeias e nos juros da nossa dívida pública.
          Não houve, enfim, o cuidado elementar de analisar o perfil psicológico de Passos Coelho, goste-se ou não dele. Quase ninguém se interrogou se encaixaria nesse perfil a hipótese de deitar a toalha ao chão a reboque do impulso de Paulo Portas.
          Não encaixava, como se viu. Mas os supostos “especialistas” não se aperceberam disso quando se impunha.

  3. Faz completo sentido o que aconteceu, uma onda mediática é bem capaz de deitar abaixo um governo.
    Para começar os jornalistas em geral de esquerda ainda mais socialista que o governo Passos não têm naturalmente pejo algum em lhe colocar os patins.
    Depois o mundo fechado onde vivem, e o frenesim para que coisas aconteçam é natural uma dissociação da realidade.
    Os jornalistas estavam a pedir um espectáculo: em directo uma demissão do Governo com drama, polémica, “sangue”, um Correio da Manhã mas político
    e se o governo não se demite não há drama, logo não há espectáculo, e não há espectadores.

  4. Julho e Agosto de 2013 foram meses loucos para mim e a conjectura política estava num emaranhado que não tinha ponta por onde se pegasse.
    Esta análise objectiva dos acontecimentos explica muita coisa do que fui apanhando aqui e ali.
    Aguardo a segunda parte. Este primeiro texto está excelente. :):):)

  5. Gosto de notícias e gosto de opiniões.
    Não gosto é que os jornalistas deixem de fazer o seu trabalho (procurar notícias, ai a investigação jornalística, que coisa tão linha, que saudades!) e optem pela especulação, que não é nem nunca foi nem será sinónimo de opinião.
    Também não gosto que as parangonas dêem sistematicamente em nada. Que as montanhas parem… parissem ratos.
    É cansativo ouvir tanto escarcéu e depois ver tudo ficar na mesma como a lesma…

    1. Eu não gosto que os “especialistas” em análise política encham horas e horas e horas de tempo de antena a falarem do que não sabem. E a confundirem desejos íntimos com a realidade.

  6. ao trocarem a notícia pelo comentário, muitos profissionais da informação transmitem uma má imagem do jornalismo

    Isto é escrito pelo mesmo homem que, num post escrito poucas horas antes, advoga que os jornalistas designem nas suas notícias o presidente de Cuba por “ditador”.

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