Foi na Caparica que eu percebi, em criança, o movimento circular do tempo e a lógica das estações. Enquanto não me ensinaram que havia quatro, só reconhecia duas: a da praia e a do Natal. Mas mais do que as prendas do Menino Jesus, era a mudança para a casa de férias que assinalava a passagem de mais um ano. Há coisas que nos ficam para sempre. Até hoje o tempo, para mim, roda a um compasso binário: no Natal começo a caminhar para o Verão e no Verão entro em contagem decrescente para o Natal. É por isso que voltar à Caparica nesta fase do ano, nem que seja apenas por uns dias, é como fazer a árvore de Natal em Dezembro.
Para minha defesa, quando lá estou divido a Caparica em duas: a minha e a que se vê agora. Mas não é fácil subir a Rua dos Pescadores, desembocar na praia e ignorar o Pólis, aquele aglomerado de pavilhões enormes, escuros e todos iguais, de inspiração estalinista, que acabou com as esplanadas de praia. Também implica um certo esforço entrar no mercado meio morto e imaginá-lo a fervilhar de gente, ouvir a voz da minha mãe a destacar-se da gritaria: “Não saias daqui!”, enquanto a Lena, que há anos me escolhe o peixe, desabafa: “Já só vale a pena vir para aqui vender ao fim-de-semana. As pessoas não têm dinheiro para comprar peixe fresco”.
À degradação ambiental e urbanística que transformou para sempre aquela singela vila piscatória num horrendo apeadeiro de veraneantes, vieram somar-se as marcas da crise, cada vez mais evidentes. No centro, vi pela primeira vez, em pleno Verão, restaurantes com mais empregados que clientes e esplanadas às moscas. Apartamentos de veraneio, vivendas em ruínas e lojas bem situadas ostentam o mesmo letreiro: “Vende-se”. O maior “lugar” de fruta já não está a dar. A proprietária, que tinha expandido o negócio para o ramo do pronto a vestir de marcas caras, teve de deixar os jeans da Burberrys e as sandálias da Kenzo e voltar à venda de melões e pêssegos de roer. Da sua boutique restam as montras desertas e empoeiradas. Vende-se, vende-se, vende-se. Os letreiros parecem extensivos à Costa toda. Sim, a Costa vende o corpo há anos, mas agora está em liquidação total. As únicas lojas que vejo com gente até à porta são a farmácia e a tabacaria onde se entregam os boletins do euromilhões.
Passo ligeira, com o balde e a pá, à procura de pontos seguros onde apoiar os olhos: lá está a falésia, onde se vê o miradouro do Jardim dos Capuchos. Se eu for direita à praia e me fixar no horizonte encontro o Bugio na perspectiva e distância de sempre. O Bugio, que durante tanto tempo imaginei ser um barco que misteriosamente não saía do mesmo sítio, agora leva-me para onde eu quero. E o mesmo me acontece com o mar. Terei sempre a cumplicidade desse mar que tão bem conheço e dos poucos recantos que não conto a ninguém…


Conheço, desde a infância, todo o vasto areal da Caparica. Percorri-o a pé, em longas jornadas de Inverno e Verão, da Cova do Vapor à Lagoa de Albufeira. Fiz férias de praia na Costa durante quase todos os anos da minha adolescência. Foi o primeiro local de residência dos meus pais quando casaram. Tudo isso está enterrado num passado já remoto. Hoje sou incapaz de retornar à Costa: há anos que lá não vou. A praia que tão bem conheci – ainda com pescadores – e a povoação estão estragadas para sempre.
Tinha tudo para ser a melhor zona do país para o Verão, as praias são excepcionais e está perto de tudo. Mas a Costa foi assassinada há muito tempo, todos os anos mais uma facada a agravar a ferida. Não tenho memórias dessa outra Caparica de que vocês falam, mas também eu vou lá muito pouco – os banhos continuam a ser antológicos, ao menos isso! – e volto sempre irritada com o que nós, portugueses, conseguimos fazer aos nossos melhores tesouros.
A Caparica ainda tem vários recantos inexplorados, mas longe da malha urbana. Já sobrevoei toda esta enorme extensão de praia de avião, a voar baixinho, e tal como tu considero criminoso que quase nada esteja (bem) aproveitado para fins turísticos. Um dos casos mais flagrantes e notórios de desperdício de recursos naturais em Portugal.
Não sei se isto á uma boa ou uma má notícia: mas mais ano menos ano (ou, vá lá, mais década menos década) vai ser tudo engolido e lavado pelo mar até às arribas lá atrás.
(Dizia-me alguém que tem a obrigação de saber disto que, neste momento, há pontos da costa portuguesa, que não necessariamente a Caparica, que estão a perder para o mar 100m por ano, repito, cem metros por ano).
É bem possível. Lembro-me, em miúdo, de vastos areais na Caparica. Isso é coisa do passado: o mar tem vindo ali a galgar terreno década após década.
Isabel, isso e as casas construídas em cima das arribas. Arrepiante. Bem, nalguns casos até que nem me importava… quando o areal é portentoso e gigantesco, no sentido longitudinal e é preciso comer um bife para chegar à água…https://delito.brucke-multimedia.com/images/2011/SMw48Vpb6hPNBewtl6Kk.jpg