
Como bem disse Vasco Pulido Valente sobre a crise na Ucrânia, “a América e a Europa saíram muito mal da suposta “confrontação” com Putin: sem unidade e sem iniciativa. Pior ainda: tão “apaziguadores” como os velhos de 1930, anunciaram em Bruxelas que reservam a sua verdadeira cólera para o caso de a Rússia persistir numa política de expansão, que Putin, por enquanto, rejeita. Mas que, se a confusão e a irresponsabilidade do Ocidente não acabarem depressa, não rejeitará sempre“.
Está à vista de todos que o Ocidente hoje está num estado permanente de negação. A Alemanha entretém-se em mandar na Europa com base no seu incontestável poder económico, tendo reduzido à vassalagem todos os outros Estados membros. Julgou por isso que lhe bastaria apoiar o derrube do contestado Ianukovich para atrair também a Ucrânia definitivamente para a sua esfera de influência. E os órgãos da União Europeia foram totalmente atrás desta estratégia, sem perceber que assinar um acordo de associação com um Governo não legitimado nas urnas, e com a presença de extremistas, corria o risco de alienar totalmente o apoio da população russa, que não deixaria de pedir auxílio a Moscovo. Esta estratégia imponderada permitiu a Putin anexar a Crimeia num ápice, depois de uma pseudo-declaração de independência, cortando grande parte do acesso da Ucrânia ao mar. Agora é Donetsk que também ensaia uma pseudo-declaração de independência, naturalmente para cair logo a seguir nos braços da Rússia. Como já alguém previu “a Ucrânia só vai ficar com Kiev e com a parte ocidental. O resto é russo“.
A Ucrânia era até há poucos meses um Estado perfeitamente viável que vivia em paz com todos os seus vizinhos. Hoje está a ser sucessivamente desmantelado, à vista de todos, perante uma Europa impotente para apagar o fogo que irresponsavelmente deixou atear. O mal da actual União Europeia é que os governantes habituaram-se a ir a despacho a Berlim, e não são capazes de fazer qualquer contraponto à estratégia alemã, por muito errada que ela seja. A Rússia pode ser muito mais pobre que a Alemanha mas tem uma força militar incomparavelmente superior, não havendo poder económico que resista ao soar dos canhões, especialmente quando o orçamento militar europeu foi cada vez mais reduzido. E não se pense que isto será um mero regresso à guerra fria. Esta guerra pode vir a ser muito quente, quase parecendo a situação de há cem anos. Neste momento basta uma centelha para deitar fogo à pólvora.

Uma vez mais parabéns pela lucidez que revela no tratamento deste tema; e que todos se fixem neste final:
“A Rússia pode ser muito mais pobre que a Alemanha mas tem uma força militar incomparavelmente superior, não havendo poder económico que resista ao soar dos canhões, especialmente quando o orçamento militar europeu foi cada vez mais reduzido. E não se pense que isto será um mero regresso à guerra fria. Esta guerra pode vir a ser muito quente, quase parecendo a situação de há cem anos. Neste momento basta uma centelha para deitar fogo à pólvora”.
Mais uma para a coesão:
http://economico.sapo.pt/noticias/excons elheiro-de-barroso-acusao-de-alianca-com-m erkel-contra-devedores_190719.html
A Europa (Inglaterra, Alemanha e França) e os USA foram parte bastante activa no atear desse fogo, tal como na Síria , no Iraque, na Libia.
Mais um estado desmembrado e destruído em favor da ganância das grandes corporações e na necessidade de alguns países continuarem com o síndrome da guerra fria querendo cada vez mais encurralar um urso de garras afiadas e que tem força para responder a sério quando em perigo.
Os alemães queriam o gás mais barato para a sua industria eliminando (baixando significativamente) os custos de transporte pela Ucrânia, afinal acho que vai subir e então os Ucranianos esses vão morrer de frio.
A irresponsabilidade e o dolo dos lideres Ocidentais tem e terá um custo a médio prazo para os seus povos, facto que a história já nos ensinou inúmeras vezes mas que contínua a acontecer.
Concordo em geral com o post.
A Ucrânia era até há poucos meses um Estado perfeitamente viável
Isto não me parece bem verdade. A Ucrânia era um Estado intrinsecamente instável, um Estado-tampão, ou de fronteira, dividida entre uma população russa e outra europeia. Partes da Ucrânia sempre estiveram na órbita da Rússia, outras fizeram parte do império habsburgo. Além desta instabilidade populacional, a Ucrânia era inviável devido à sua dependência do gás natural russo vendido baratinho e devido à sua oligarquia descontrolada, que rouba os seus recursos e a sua economia sem um Estado forte que a controle (como na Rússia). Nestas condições, a Ucrânia era inviável, pois necessitava de alguém que fosse lá controlar aquilo. Agora vai tê-lo: a Rússia vi tomar conta da metade oriental – onde porá, sem dúvida, os oligarcas na ordem – e a União Europeia da metade ocidental. Trata-se, ao fim e a cabo, do destino adequado. Veremos quem no fim se sai melhor.
Parece haver várias contradições neste texto. A estratégia de apaziguamento da Alemanha permite a via diplomática e é Moscovo quem exerce a linha dura. Se a Ucrânia está a ser cortada às postas, existe um culpado evidente, Vladimir Putin. Até há uns poucos meses atrás, a Ucrânia era um Estado perfeitamente viável? Era mesmo? À beira da falência, mas viável; com um presidente que perdera a sua base de apoio, mas viável; com um regime corrupto, mas viável; com uma liderança que queria usar o exército contra uma manifestação que começou por ser pacífica, mas totalmente viável.
Não percebo qual é a legalidade da posição russa. Não percebo como é que no século XXI pode ocorrer a anexação do território de um país por uma potência vizinha. E sobretudo não percebo onde está a culpa ocidental. Não percebo a razão que leva o autor a dizer que os ucranianos russófonos que protestam contra o governo provisório são russos. Também não percebo onde é que está a extrema ilegalidade de se fazer um acordo económico com um governo provisório legitimado por um parlamento eleito. A existência de extremistas em Kiev é um exagero propagandístico: a aproximação da Ucrânia à Europa implica legislação favorável a todas as minorias.
As questões aqui são as seguintes: pode ou não a Ucrânia decidir o seu futuro? Moscovo tem o dreito de interferir e defender os russófonos numa situação em que eles não estão sob ameaça?
E depois há outras questões ue implicam os europeus: a chantagem russa é legítima? E Moscovo vai fazer o mesmo aos russofónos da Letónia e da Estónia. O império russo é legítimo e pode ser reconstituído na antiga cortina de ferro? A lei do mais forte está em vigor? Como é que a Rússia sai deste sarilho sem se isolar totalmente ou sem se transfomar numa ditadura pouco recomendável?
A Rússia não está em sarilho nenhum. Em sarilho grande está a Ucrânia, graças à União Europeia, que agora se prepara para lavar as mãos do incêndio que ateou, e que de facto pode contaminar outros, como os Estados bálticos. Na esfera internacional já há muito que se sabe que nem sempre o Direito Internacional é respeitado, como ficou demonstrado com o Iraque e com o Kosovo. É por isso necessário ponderar o jogo de forças existente, antes de apoiar governos extremistas que podem atirar um país para uma guerra civil. O facto de o governo anterior ser contestado não desculpa o erro de análise de se ter criado uma situação muito pior, que era previsível para todos. Esquecer que a Ucrânia tem uma fortíssima população russa, chamando-lhes eufemisticamente “ucranianos russófonos” é não querer ver a realidade para além do formalismo jurídico. Os “ucranianos russófonos” podem ter de facto nacionalidade ucraniana, mas são os primeiros a hastear bandeiras russas.
Os alemães, assim como a nomenclatura alemã nas instituições europeias e governos europeus, viram nas jazidas da Crimeia uma forma de obtenção de auto-suficiência energética. E puxaram a corda aos limites, sem esquecer a pantominice liderada pela alemanha no Chipre, que levaram a Rússia a uma atitude extrema para sua própria protecção. Quem não pode ser lobo não lhe veste a pele.
Que desastre moral. Por essa ordem de ideias sempre que a Rússia apoiasse um governo com extremistas não legitimado – o que faz na Crimeia , Bielorrussia etc – pelas urnas teríamos o Luís Menezes Leitão a considerar legítimo apoiar uma intervenção armada contra.
Por a Rússia colocar um regime fantoche na Crimeia deve-se atacar?
Quanto ao resto se a Crimeia quer ser independente deve ser e se há partes da Crimeia que não querem fazer parte da Crimeia Russa idem.
“A Rússia pode ser muito mais pobre que a Alemanha mas tem uma força militar incomparavelmente superior”
Falso, tirando as armas nucleares não há hipóteses de a Rússia ganhar uma guerra à Alemanha. É uma questão de vontade apenas. Putin faz bluff como Hitler fazia. E ganha porque os outros não estão dispostos a trava-lo. São democracias e estas só entram em guerra quando é tarde demais excepto honrosas excepções como no Iraque, mesmo assim devido a circunstâncias particulares.
“tirando as armas nucleares não há hipóteses de a Rússia ganhar uma guerra à Alemanha. É uma questão de vontade apenas”.
Não tenha dúvidas. Deixe a guerra começar e logo vê. Da outra vez Hitler também achava isso e teve que se suicidar para não ver os russos em Berlim.
A Alemanha de Hitler declarou guerra à Inglaterra , em decadência mas ainda assim com os recurso de um Império e as quase sempre esquecidas tropas da Commonwealth: Neozelandezes, Australianos, Indianos, Sul Africanos.
Declarou guerra aos EUA só a maior potência industrial e declarou guerra à URSS.
E apesar da paupérrima exibição dos Franceses ainda perderam boa quantidade de tropas e material na sua invasão.
Por isso não julgo que o paralelismo tenha razão.
Em termos militares a Rússia não tem recurso logisticos e industriais para sustentar uma guerra sem ter o apoio Chinês.
Parece esquecer que numa guerra os recursos passam rapidamente de um lado para o outro. Os exércitos de ocupação não negoceiam, confiscam. E aí já não é regra de que quem paga manda. Quem tem as armas manda.
Foi assim na Hungria em 56, na Checoslováquia em 68, na Polónia em 1981. Esta frase legitima a lei do mais forte e a ordem imperial. O mundo já nao e assim, felizmente, havendo o direito a liberdade. O professor Menezes leitão presume, a meu ver erradamente, que haverá uma guerra por causa da Ucrânia. Quem teria a falta de senso de entrar aqui num conflito militar? A arma dos ocidentais será económica, cada vez mais intensa conforme o grau de chantagem exercido pela Rússia. Moscovo nao pode vencer esse tipo de conflito, alias, nao existe nenhuma potência que possa.
“Quem teria a falta de senso de entrar num conflito militar?” Tiveram essa falta de senso em 1914, onde um simples atentado desencadeou o apocalipse, qunado ninguém estava à espera. Existe “direito a liberdade”? Há muitos sítios no mundo onde não é respeitado. Quanto à guerra económica, trata-se de uma arma de que a Rússia se ri, como se viu agora com o aumento colossal do preço do gás russo à Ucrânia, que vai estrangular economicamente o país. Ameaçar que a guerra económica “será cada vez mais intensa conforme o grau de chantagem exercido pela Rússia?”. A Rússia até agora não fez qualquer chantagem, limitou-se a anexar territórios e continuará a fazê-lo perante a pífia resposta europeia. Isto foi o resultado da brilhante estratégia europeia de apoiar governos eleitos numa praça. Quem julga que pode governar um país apenas com o apoio de uma praça, arrisca-se a governar apenas a praça.
Sim é isso que digo. A Alemanha e o Ocidente têm armas para acabar com as veleidades Russas. E é melhor dar um aviso sério, o que implica armas, porque a maior parte das guerras começa por um dos lados acreditar que o outro nada faz. E depois faz quando tal implica guerra total.
Foi assim em 14 e foi assim em 39.
Quanto à arma económica é o erro habitual dos humanistas – consideram que os seus valores são iguais a todos – Não funciona. Não funciona com Saddam, não funciona com Assad, não funciona com Putin.
Se a Russia empobrecer 30% isso não faz Putin recuar. Além disso a punição económica ainda mais fraca é quando o Ocidente já não domina a economia mundial. Sanções só funcionam para sociedade ocidentais em que 5% menos de rendimento levam um Governo para a oposição.