As palavras, que haviam circulado apenas entre a elite


Patrícia Reis,

As palavras, que haviam circulado apenas entre elites, ainda vagas, ainda delicadas, encorpavam e tornavam-se fáceis de entender. Nascera uma amizade entre a linguagem dos ideais e aquele mal-estar sem nome com que os pobres dormiam e acordavam.

 

Adoecer, Hélia Correia (Ed. Relógio d’Água)

As palavras serão da elite? Enquanto o povo mira o Benfica e faz previsões, sem se interrogar porque carga de água é que o cartaz da associação 25 de Abril é um ponto de interrogação, pois eu leio que nós, portugueses, somos condenados internacionalmente por falta de liberdade de expressão.

As palavras têm um imenso poder.

O que se passa hoje na comunicação social seria impensável nos anos 80 do século passado, altura em que comecei a trabalhar.

As palavras eram para ser entendidas tal e qual. Verdade era verdade e culpados eram culpados. Ponto. Agora?

Gostava imenso de saber o que se passa nos bastidores da RTP à conta do Sócrates.

Gostava muito de saber a razão pela qual tantos discursos são vagos e para as elites quando a minha avó andou a esfolar uma vida inteira para ter uma reforma de miséria. Gostava de saber muita coisa que não sei. Hoje? Sinto vergonha.

Quarenta anos volvidos, a Revolução deu-nos muito. Sei disso. Beneficiei disso mesmo. Ser condenado ao nível jurídico por falta de liberdade de expressão? É um dos dias mais tristes. Não será o mais triste. Ainda hoje recordo a prostituta que chegou à redacção e que deu a cara, contou a história, cheia de maleitas e nódoas negras e do administrador que pediu para ver o texto. Ele disse: isso não se publica. Eu tinha 20 anos. Não se publicou o texto. 

Saudades? Tenho de O Independente, embora ciente de que fizemos muitas asneiras e abrimos precedentes a algumas invasões que não estão de acordo com o código deontológico dos jornalistas. É um facto, não vale a pena dizer que é diferente.

Em 1974, em Fevereiro, não se sabia o que iria acontecer e mudar de país era uma boa ideia para os meus pais.

Agora, estão a sair do país cem mil por ano. Não são vagos, não são só pobres, não têm uma linguagem de ideais (o que é isso nos dias que correm?), são cem mil que deixam o nosso país por não vislumbrarem futuro.

A revolução era suposto ter sido isso: uma perspectiva de futuro, de liberdade. Que liberdade? No meu gmail entram emails de pessoas, através de contas de pessoas amigas, a pedir dinheiro. O meu telefone pode estar sob escuta ou nem por isso, não valho nada, talvez me safe. Mas liberdade? Não. Não temos.

O meu filho mais novo pergunta: quer uma caixa de nugets? Diz que está a treinar para ir trabalhar para o Mac. Ok. Batatas fritas ou o menu mais barato? Nenhuma das opções é válida para mim.

Voltámos a dormir e a acordar com um imenso mal-estar, entalados entre os mercados estrangeiros e a ideia virtual de que isto é uma democracia. Existem 200 mil inscritos em partidos políticos, logo é nesses que votamos e, acresce, os independentes são poucos e cilindrados pelas máquinas dos partidos. O Porto era uma esperança. Era? Pois.

Na Europa somos como os países de que temos pena: não podemos dizer qualquer coisa, seja o que for, em especial a verdade. A verdade é apenas para os mais puros. Todos os dias mentimos e mentir, do ponto de vista social, profissional, é a nossa safa. Ironia? Comemoramos o 25 de Abril com um ponto de interrogação, uma merda de um cartaz, mas como foi feito pelo mestre Júlio Pomar e por Henrique Cayatte (pessoas de quem gosto e admiro, mas que não são, obviamente, imaculadas), por favor, reservem a Vossa opinião para outras núpcias. Se o ponto de interrogação fosse 2014 ? 2044, eu entendia. Assim não entendo. Por termos conquistado tanto em quarenta anos e estarmos a deitar tanto pela janela.

Hoje, o mundo reconhece que a nossa liberdade de expressão está em perigo. Perceberam a gravidade disto? Devem ter percebido.

O jogo? Está dois-zero.

6 comentários em “As palavras, que haviam circulado apenas entre a elite”

  1. Patricia já comentei o texto do Adolfo.
    “…Voltámos a dormir e a acordar com um imenso mal-estar, entalados entre os mercados estrangeiros e a ideia virtual de que isto é uma democracia. Existem 200 mil inscritos em partidos políticos, logo é nesses que votamos e, acresce, os independentes são poucos e cilindrados pelas máquinas dos partidos”…
    Este teu parágrafo resume o que eu penso acerca do que estamos a viver, após 40 anos de revolução e de virtual democracia. Que pena, esta geração de passado prometedor!

  2. Atenção que nos anos 80 os culpados eram …nada: a fraude do Fundo Social Europeu/Partex/CEA foi o equivalente a um BPN com a agravante de nem ser um negócio de banca…

  3. Atenção que a frase da Hélia Correia nada tem que ver com o 25 de Abril. Pareceu-me uma certeira noção de revolução, aquela que nasce de um encontro entre um discurso, que começou por ser apenas de elites, e um mal-estar do povo, que se torna amigo, et pour cause, desse discurso.

    1. Adolfo
      Acredito que as palavras de Hélia Correia nada tenham a ver com o 25/4. Mas foram escritas depois de vivermos esse período.
      E ao lê-las recordo que também foi da junção desse discurso elitista com o mal estar popular que nasceram certas formas de fascismo.
      Ou seja, qualquer revolução não armada, parece surgir sempre dessa convocatória entre as elites e o povo. Apesar de muitas delas se apelidarem apenas de “revoluções populares”.

  4. Meu querido Adolfo, li a citação da Hélia Correia – escritora de quem gosto tanto! – com a mesma perspectiva da Helena. De resto? Escrevi com o coração na boca. O costume:) beijos

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