Eusébio travado em falta na jogada mais emocionante do Portugal-Coreia do Norte (1966): ainda não hava cartões vermelhos
É o mais célebre jogo de sempre da selecção nacional de futebol — aquele de que todos falavam mas poucos tinham visto. Até agora. Porque a TVI24, numa verdadeira missão de serviço público, lembrou-se em boa hora de o transmitir na íntegra a pretexto da morte de Eusébio, marcador de quatro dos cinco golos portugueses dessa partida.
Aconteceu na quarta-feira e apesar das imagens serem a preto e branco — o Portugal-Coreia do Norte realizou-se a 23 de Julho de 1966 — a emissão resultou num enorme sucesso: o canal de notícias da TVI no cabo obteve o maior número de sempre de espectadores, com 4,8% de audiência média e uma quota de audiência de 9,8%. Quase meio milhão de pessoas acompanhou o desafio no serão de anteontem.
Eu fui uma dessas pessoas. E tenho de felicitar a TVI24 pela proeza. Desde logo porque não se limitou a transmitir o mítico jogo dos quartos de final do Campeonato do Mundo de 1966, considerado o melhor desse certame. Teve também a excelente ideia de reunir em estúdio três jogadores dessa selecção, dois dos quais participaram no jogo: o benfiquista José Augusto e os sportinguistas Hilário e José Carlos. Com Fernando Correia — que já relatava jogos de futebol há 48 anos — encarregado de recriar um pouco do ambiente daquela época, em que os portugueses acompanhavam os jogos de futebol sobretudo através de relatos radiofónicos pois eram raras as partidas transmitidas pela televisão.
Hilário e José Augusto nunca tinham visto na íntegra as imagens daquele desafio em que foram dois dos mais destacados participantes. E portanto os seus comentários ao longo do jogo tornaram-se noutro espectáculo dentro do espectáculo da emissão, muito bem conduzida pelo jornalista Joaquim Sousa Martins.
A visão integral do jogo permitiu desfazer alguns mitos, que passarei a enumerar:
– Naquele desafio, por bandas de Portugal, jogaram “Eusébio mais dez”. Não é verdade: Eusébio foi excelente, mas vários outros jogadores destacaram-se. Desde logo Simões, incansável no corredor esquerdo. E José Augusto. E Jaime Graça. Sem esquecer Hilário: nenhum dos três golos norte-coreanos ocorreu no lado esquerdo da nossa defesa, onde ele era um baluarte;
– Aquela selecção quase só tinha jogadores do Benfica. Falso. Do Benfica, neste jogo, eram cinco: Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres e Simões. Havia três do Sporting (João Morais, Hilário e Alexandre Baptista), dois do Belenenses (José Pereira e Vicente Lucas) e um do Vitória de Setúbal (Jaime Graça);
– Os coreanos dominaram, pelo menos na primeira parte. As imagens não mostram nada disso. Excepto no quarto de hora inicial, quando a pressão ofensiva da equipa adversária foi mais notória, Portugal dominou sempre a partida. Sem nunca se desviar da rota do golo.
– Naquele tempo jogava-se um futebol muito mais lento. Pelo contrário, este jogo desenrolou-se a uma velocidade estonteante, do primeiro ao último minuto. Sem tempos mortos, mesmo quando havia interrupções por faltas. Sem manobras ardilosas dos jogadores para retardarem o tempo de jogo. E numa espécie de antecipação do “futebol total”, com frequentes incursões dos avançados em manobras defensivas. Futebol-espectáculo por excelência.
Os 11 que jogaram contra a Coreia do Norte: Alexandre Baptista, Jaime Graça, Hilário, Vicente, Morais, José Pereira (em cima), José Augusto, Torres, Eusébio, Coluna e Simões (em baixo)
Por uma questão de idade, nunca tinha visto este jogo. Mesmo muitos portugueses que já eram adolescentes ou adultos naquela época não chegaram a assistir ao Portugal-Coreia do Norte porque os televisores não tinham nessa época a difusão que hoje têm.
Está de parabéns a TVI por ter concretizado esta missão de serviço público. Que devia envergonhar a RTP, detentora de um canal Memória que é capaz de passar na íntegra o jogo Cascalheira de Cima-Alguidares de Baixo de há vinte e três anos mas nunca voltou a difundir o Portugal-Coreia do Norte, cujas imagens certamente a televisão do Estado possui em arquivo.
Fica agora um pedido extra aos responsáveis da TVI24: e que tal difundirem o Portugal-Brasil, também do Mundial de 1966? Será novo sucesso garantido, tenho a certeza.
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Mas o sr. PC podia ao menos ter ouvido pela rádio enquanto se dirigia para a creche, caraças. Os bons exemplos são para ser seguidos.
Nesse dia cheguei ao infantário já depois de meia-noite, ainda a tempo de ver Neil Armstrong pisar o solo lunar. Virei-me para os meus colegas e disse-lhes: “Esta é a maior proeza de um ser humano desde que Lindbergh atravessou o Atlântico.” Eles responderam-me em uníssono: “gu-gu dá-dá”.
E depois ao Braga de Macedo é que chamavam “Adiantado Mental”…
Esse também anda na Lua.
Pois eu acho que serviço público seria transmitir isso na TVI e não na TVI24. Porque há montes de gente neste país que não tem TV Cabo, só tem os quatro canais da TDT.
Tivessem jogado o Carvalho e o Zé Carlos, e se calhar não tinhamos passado por aquilo. Mas por outro lado, não tinhamos assistido a um dos mais memoráveis jogos de futebol num campeonato do mundo. Melhor, só a final no México/70: Brasil 4-Itália 1.
Este jogo foi de facto extraordinário. O Vicente pareceu-me ter jogado “tocado”. De tal maneira que já não jogou a meia-final (substituído precisamente pelo José Carlos).
O José Pereira – a que alguns chamavam ‘Zé dos Frangos’ – é muito mal batido no segundo golo norte-coreano.
Há uma grande tradição nacional de desbaratar registos históricos.
Não haverá aqui mãozinha de Kim Jong Un? … eh eh.
Afinal, este jogo também valorizou o futebol da Coreia do Norte do avô…
Não vi essa transmissão, mas é igualmente interessante o resumo com a locução inglesa: 1/socrates-e-eusebio.html
http://herdeirodeaecio.blogspot.pt/2014/0
Sempre achei interessante Eusébio ter alinhado com o nº 13, mas há um pormenor em que se nota uma grande diferença face aos dias de hoje – a comemoração dos golos pelos portugueses. Tudo muito sóbrio, com o foco no jogo, sem manifestações exageradas.
Há muitos golos perdidos, mas sem dramatização, e não deixa de se ver que Eusébio assume o peso do jogo nos ombros, numa selecção em que Coluna é o capitão.
Se Portugal queria dar uma imagem de país unido pelos vários continentes, ali estava o nosso “apartheid”, para inglês ver. Essa visão larga, de pessoas como Adriano Moreira, era chapada de luva branca que nunca entrou nas mentes mais negras, que quiseram ver a África regressar a um estado primitivo, onde os europeus iriam apenas sacar os seus imensos recursos, através de independências frágeis e manipuláveis.
Essas independências apressadas foram mais um rosto do “apartheid”, porque pintaram tudo como um problema racial e não social. Favoreceram sim uma constante separação entre europeus e africanos, deixando estes últimos com sociedades instáveis e usadas externamente.
Há ainda quem diga que Eusébio era moçambicano. Era, tal como Teresa Heinz Kerry, que é hoje americana…
Essa gentinha é representante da mesquinhez interna, e inveja externa, que nunca suportou a existência de um enorme Portugal.
Pouca diferença faz que Moçambique seja hoje independente, se se mantiverem afinidades culturais entre os CPLP. Por exemplo, Malangatana foi também uma dessas expressões diferentes, dentro dessa grande comunidade.
Se o Panteão servisse para alguma coisa, deveria servir para invocar a memória desse Portugal alargado e não mesquinho. Seria canto maior, em vez de um cantinho de onde saímos para o mundo.
Porém, sabemos que isso é demasiado grande para a mesquinhez pequena que sempre nos consumiu parasiticamente.
Estou muito de acordo com o que escreve. E destaco esta sua observação certeira, que raras vezes vejo alguém fazer, como se impunha: «Essas independências apressadas foram mais um rosto do “apartheid”, porque pintaram tudo como um problema racial e não social. Favoreceram sim uma constante separação entre europeus e africanos, deixando estes últimos com sociedades instáveis e usadas externamente.»
Quanto à celebração dos golos, há um pormenor muito interessante no Portugal-Coreia do Norte: o primeiro golo festejado pela nossa selecção foi o terceiro. Enquanto perdíamos, não houve qualquer festejo. Pelo contrário, Eusébio apressou-se a ir buscar a bola duas vezes ao interior da baliza adversária. Isto é uma lição de concentração e de tenacidade.
Exacto. Um pragmatismo notável, e acho que as equipas beneficiavam muito se os treinadores dessem indicações de não comemorar golos… apenas a vitória, no final, em conjunto. Prejudicava o espectáculo, mas melhorava o espírito de equipa e a concentração no jogo.
«Essas independências apressadas foram mais um rosto do “apartheid”, porque pintaram tudo como um problema racial e não social. Favoreceram sim uma constante separação entre europeus e africanos, deixando estes últimos com sociedades instáveis e usadas externamente.»
Não é bem isso. A Esquerda Marxista quer destruir a Civilização Ocidental – entenda-se esta como grosso modo Capitalismo.
E para isso usa de todas as armas ao seu alcance, a que parecer mais eficaz é a usada. A Esquerda Marxista escolheu na altura o racismo porque era uma alavanca que dava mais hipóteses de a vitória ser mais rápida, o facto de no outro lado estarem também racistas não interessava nada para a Esquerda Marxista. A escolha é ela própria racista porque tem plena consciência que é mais fácil dividir pela cor do que por questões sociais.
O facto de terem morrido mais de 1 milhão de pessoas depois do 25 de Abril , milhares delas que anos antes eram cidadãos portugueses em conflito também não foi problema na consciência.
Nem estão muito chateados – no caso de Angola – com o MPLA a fazer capitalismo de estado, nunca se viu a Extrema Esquerda a fazer qualquer movimento para as receitas do petróleo serem distribuídos pela população em Angola ou a falar de desigualdade.
O Poder é quasi Totalitário e como é óbvio estão satisfeitos.
A Guerra anti-colonialismo em África nunca foi feita para libertar as pessoas. Foi feita para ganhar poder moral – logo politico – no Ocidente e quando se ganhou esse poder lava-se as mãos, o objectivo foi conseguido.
A mim pouco me interessa a conversa esquerda-direita, porque não alinho na conversa dos manetas.
As duas mãos são precisas… em tudo há equilíbrio, e a bilateralidade é um facto da evolução vertebrada. Se virmos a direita pelo liberalismo e a esquerda pelo equalitarismo, percebemos que o liberalismo total é o calor extremo e o equalitarismo total é a congelação absoluta. Ambos são infernos de Dante.
Dito isto, estou de acordo (para variar) com muito do que escreve.
O totalitarismo só faz comichão à esquerda ortodoxa quando não canta a internacional socialista.
Porém, depois do erro colossal na descolonização, não se conseguiriam ter relações com aqueles países doutra forma, porque as potências comportam-se como bandos de hienas. Basta ver que Moçambique entrou na Commonwealth… e a CPLP só funcionou por causa da ligação à CEE.
Tudo foi invertido, e Portugal passou a servir as ex-colónias só para manter a ligação cultural…
No entanto, o erro estratégico nacional é ter que se baixar perante todos, em vez de ter feito o óbvio – alinhar exclusivamente com um – o Brasil. Foi isso que a Inglaterra fez… cola-se sempre aos EUA, e tudo o resto segue naturalmente.
Portugal e o Brasil não se coordenarem da mesma forma é uma monumental falha de ambos, que só os tem prejudicado sucessivamente.
Sim Parabens à TVI.
Já agora. Quanto custaria a “colorização” digital desta gravação?.
Esta gravação, a preto e branco, foi exibida originalmente pela RTP e provavelmente já nem consta dos arquivos da TV pública, onde foi apagado (por exemplo) o Zip-Zip, talvez o mais popular programa televisivo de sempre em Portugal até ao aparecimento dos canais privados. Assim trata a RTP do seu património…
Mas há um registo do jogo a cores. Nesse ano já havia TV a cores em Inglaterra: foi assim que os ingleses viram este desafio, considerado o melhor do Mundial de 1966.
Como este jogo o Benfica teve muitos jogos em que o desempenho de Eusebio e claro dos outros era tão brilhante que o minuto de silencio de alguns estadios (Madrid..) foram-no graças a esta equipa e estilo.
Há tempos vi um jogo do Barcelona/Chelsea que me lembrou esta equipa sem maldades/manhas, em que punham tudo o que sabiam no relvado. Era um luxo.
Luxo, sim. Em contraste com muito do lixo actual.
Há dias vi pela primeira vez imagens desse jogo. O que mais me impressionou foi a cacetada que o Eusébio levou no lance que dá o penalty do quarto golo. Já sei onde se foi inspirar o Bruno Alves.
Houvesse então os critérios de arbitragem actuais (excepto nos casos de Xistra, Capela e Duarte Gomes) o norte-coreano que ceifou o Eusébio tinha ido tomar duche mais cedo. E o colega que ia dando cabo do pé do Torres devia ter ido fazer-lhe companhia.