Estou na paragem do autocarro, chega o pedinte e atira sem rodeios:
– Tu és rico, dá-me dinheiro.
– Não tenho dinheiro nem sou rico – respondo-lhe de imediato.
Mira-me de alto a baixo, com ar intrigado, antes de repetir a frase – desta vez em tom menos imperativo.
Chamo-lhe a atenção:
– Se fosse rico, andava de Mercedes. Não estava aqui à espera do autocarro.
Ele afasta-se. Mas, depois de dar uns passos, vira-se para trás e faz questão de encerrar assim o breve diálogo:
– Olha que tu tens cara de ser rico.
Trota passeio adiante sem aguardar mais réplica, cravando outra pessoa logo a seguir.

Bem, podia ser que o Mercedes tivesse de ir à oficina, Ferrari tivesse de ir à Inspecção, e naquele dia foi preciso recorrer a autocarro…
Eheheh… E o “pedinte”, afinal, era funcionário da Autoridade Tributária.
(Olá, Redonda, bem-vinda novamente por cá.)
Segue esse pedinte o método do fisco. Com algumas diferenças de eficácia: o fisco qualifica-nos como ricos por decreto (lei, portaria ou o que seja), decide ele quanto nos vai sacar, saca frequentemente por antecipação e consegue sempre o dinheiro que quer. E quanto a isso de se ser rico, borrifa-se para as demonstrações em contrário que procuremos fazer.
Isto de se ser dotado de poderes de autoridade é magnífico.
Costa
Ps: entenda-se acima que o fisco está a lidar com um comum cidadão de classe média (usualmente denominado de “contribuinte”); há outros universos, como bem se sabe.
Sim, o fisco é a única entidade pública que inverte o princípio da presunção da inocência, rasgando assim as garantias constitucionais.
E vai na volta e o autocarro era Mercedes – não se lembrou ele disso 🙂
Um Mercedes XXXL, pois.
(Olá, Catarina
)
Neste caso, Pedro, eu diria que mais vale sê-lo do que parecê-lo…
🍁
Maria
Ou, como diria o Lavoura, todos somos pedintes, sobretudo aqueles que fazemos questão em não o parecer.
Lavoura já está estabelecido……
Cabe-lhe a primazia no sector primário.
Para o Lavoura somos todos pedintes — mas são sobretudo as mulheres que andam sempre a pedi-las.
Pedro, ele olhava-o pelo que leva dentro….o Pedro tem uma rica cabeça, por exemplo
Por acaso estava a pensar nisso, o Pedro é rico de conhecimento, de sabedoria.
Pode parecer graxa, mas não é
Pedro, vá lá dar a moedinha ao rapaz.
Se correr ainda o apanha, ainda o apanha…
Maria
Vejo este jovem pedinte muita vez, Maria. Só dou esmola aos velhotes, não aos franganotes. O “assistencialismo”, comigo, tem perna curta.
Pedro, eu estava a tentar ironizar, com o Carlos Eduardo e o Ega a correrem para o americano…
Há dias respondi a um rapaz que me fez o mesmo pedido:
Se soubesses quanto recebo de reforma eras tu que me davas uma moedinha a mim.
E não estava a brincar, juro.
É que ele é que tinha mesmo ar de rico
Maria
Entendo bem isso, Maria. (E a propósito desse final d’ Os Maias, de que tanto gosto, tenciono publicar este mês um texto sobre esse romance.)
Esse final, o capítulo XVIII, um sublime exemplo de elegíaca elegância, finamente depurada, sem uma palavra a mais ou em falta. Que se lê uma e outra vez. E sempre – como toda a obra – apetece reler.
Afasto-me radicalmente do tema. Nada acrescento à discussão com este comentário. Mas (e já neste blogue trocámos linhas sobre esse final), não poderia deixar de o fazer.
Costa
Visão biónica, como a do outro.
Em Portugal ganhar 1500€/mês é ser rico. Quase milionário.
Para o fisco, então, nem se fala. É tiro e queda.
Mais importante do que ser é parecer ser?
Maquiavélico, o pedinte.
Não ser uma pessoa rica não quer dizer que nâo tenha uma riqueza infinitamente superior à do toque de Midas. O conhecimento, a educação e a saúde não têm cotação nos mercados, porque não se lhes pide atribuir um preço.
Como a dignidade. Faz hoje 38 anos que perdemos a inocência numa bola de fogo.
É verdade, Dulce. Que noite trágica. Lá estive, 48 horas depois, na emocionante cerimónia fúnebre nos Jerónimos.
Gosto mesmo deste bloguismo
Flagrantes da vida real, como na célebre secção das Selecções do Reader’s Digest: li muitas em miúdo.
Hei-de trazer várias outras aqui. Da vida real de agora.
Eu lia a dos anos 40 e 50 em casa dos meus avós, acumuladas. E havia o “rir é o melhor remédio” ou imagino?
Também eu, igual. Leitura com sotaque brasileiro.
E havia as “piadas de caserna”.
Eis o ovo da serpente comunista
Quem vê caras não vê carteiras. Como diz o velho provérbio popular que acabo de inventar.
comunismo/socialismo , a pior praga que existe à superfície da Terra .
Luis Almeida
Também uso transportes públicos. No porto utilizadores são tratados como reses. A quem pede limito-me a dizer que só trago cartões. Por vezes, acrescento que já fui assaltado e por isso os trago. Meu pai, costuma fazer um ar condoído, soltando expressão vetusta: “Não pode ser santinha, tenha paciência…”. Esta não me atrevo. E às vezes até dou.
Não és uma pessoa rica, mas uma rica pessoa