Tu não viste nada em Mariúpol


Pedro Correia,

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Imaginem que na semana do criminoso bombardeamento de Guernica, em Abril de 1937, um comentador na imprensa, supostamente antinazista e antifranquista, perorava numa coluna de jornal não sobre aquele facto chocante, inapelável, inaceitável, mas sobre assuntos laterais. 

Foi o que aconteceu com Pacheco Pereira, no Público, em prosa cheia de contracurvas e contorcionismos a pretexto da agressão russa à Ucrânia. 

Na semana em que Mariúpol foi notícia pelos piores motivos, quantas linhas dedicou o consagrado historiador à cidade mártir na página que o jornal coloca à sua disposição todos os sábados? Zero.

Fala de Gaza, da Bósnia, da Líbia, da Somália, da cobertura jornalística das operações russas em território ucraniano, das redes sociais, das audiências televisivas.

Debita banalidades do género «uma guerra é um tema emocionalmente forte» e «numa democracia as emoções têm um papel decisivo e tudo as favorece». 

Mas, de Mariúpol, nem uma linha.

Imaginem um colunista da imprensa a escrever sobre a guerra civil espanhola em Abril de 1937 omitindo Guernica.

Como se nada soubesse de Guernica, como se Guernica nunca tivesse existido.

 

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Leitura recomendada: 20 days in Mariupol: The team that documented city’s agony, na Associated Press.

54 comentários em “Tu não viste nada em Mariúpol”

  1. Ando há anos a chamar a atenção para a soberba intelectual da criatura. E para a maneira como deturpa as coisas que são correctas (Borges dizia que “um tigre ou uma formiga sabem que há coisas que não se pode fazer”). Finalmente a nu. Agora toda a gente percebe.

    1. Um tigre e uma formiga parece mais um filme porno de taiwan um retrato nu da realidade em que a natureza humana tem sempre de querer mostrar superioridade sobre o outro. O problema é quando há parolos com complexos de inferioridade que se limitam a sorver uma sopinha da pedra e em cada canal televisivo vêem o inimigo travestido de leviathan.

      Margarida Conceição

  2. Um verdadeiro tonto do comentário nacional. Nesse artigo até mete o racismo ao barulho dando a entender que se as vitimas da guerra fossem africanos ou arabes não lhes davamos importância. Só em 2017 a Alemanha recebeu 1 milhão de refugiados sírios, para não falar dos milhoes que a europa tem acolhido nas ultimas décadas.

  3. “Tenemos diversos y curiosos Relojes, y otros que realizan movimientos alternativos… Y también tenemos casas de los engaños de los sentidos, donde efectuamos todo tipo de manipulaciones, falsas apariencias, imposturas e busiones… Estas son, hijo mío, las Riquezas de la Casa de Salomón”.
    (Francis Bacon. New Atlantis, ed. Rawley, Londres, 1627. pp. 41-42

  4. É uma guerra contra Pacheco Pereira? Anda muito na berlinda por aqui. Gosto dele, julgo-o intelectualmente soberbo e sem soberba intelectual. Mas cada um tem a sua opinião. E também penso que a pessoa em causa, como todos nós, não é isento de crítica.

    1. Falar da Bósnia, da Líbia ou da Somália quando 90% de Mariúpol está em escombros devido à criminosa agressão russa não merece qualquer respeito. Está ao nível daqueles que, opinando sobre a guerra civil espanhola no mês da destruição de Guernica pela aviação nazi, perorassem sobre a Guerra dos Boers ou a guerra greco-turca de 1921.

      1. 90% de Mariúpol está em escombros devido à criminosa agressão russa

        E à não menos criminosa resistência ucraniana, que está a utilizar a população civil da cidade como escudos humanos.

          1. Há uma notória diferença entre as duas.
            Guernica foi atacada de surpresa por um único bombardeamento. Ninguém podia prever que fosse haver ali um bombardeamento, naquele dia, àquela hora.
            Mariúpol está a ser continuamente bombardeada porque tropas ucranianas, incluindo os neonazis do “batalhão Azov”, nela se acoitaram e tomaram a população civil dela como refém. Cada novo bombardeamento é previsível. Quem continua a defender a cidade, sabendo que por causa disso mais bombardeamentos virão, é corresponsável pela destruição e morte.

          2. Outro – ou o mesmo troll, pois o sotaque é idêntico – com igual lógica.
            A culpa dos morticínios é dos mortos.
            A culpa das atrocidades é de quem as sofre.
            Uma besta nazi não diria nada diferente há 80 anos.

          3. Desculpe o desabafo no seu comentário, mas já cansa essa referência ao batalhão Azov.

      2. Com os bombardeamentos constantes se depreende que 90% de Mariúpol esteja em escombros, não temos nenhuma imagem abrangente que nos mostre o que está acontecendo.

          1. Ó grande apresentador de desgraças, arranja uma imagem abrangente, aérea seria melhor,
            com os escombros dos ataques dos russos.
            Isso é que era bem efeito, em vez de conversas da treta.

  5. Porquê? Porque não segue o rebanho nem faz méé méé?
    Nem segue os ditames do braço desarmado deste observador?
    RP

  6. No próximo ajuntamento da esquerdalhada, ele lá estará, aceite como um dos deles.
    Isso sobretudo lhe importa!

  7. Pedro, este fenómeno português é estranho. Não me apercebo, aqui na Alemanha, de tantas tentativas de menorizar esta guerra, comparando-a com outras, ou de diabolizar a NATO e os EUA, protegendo Putin. É impressionante.

    1. Ainda ontem, na RTP 3, ouvi um major-general travestido de papagaio de Putin debitando isto:
      «Este bombardeamento do centro comercial [em Kiev], eu pelo que sei e tive acesso a alguma informação sobre o assunto, ele estava utilizado pelas forças ucranianas como uma espécie de garagem militar. Há fotos e vídeos a explicar.»
      «Foram detectados mísseis a serem lançados a partir do centro comercial. Daí que eu penso que foi por isso que eles [russos] actuaram.»
      «Quando colocamos a artilharia num ambiente urbano, sabemos que ao fazer isso corremos o risco de receber a artilharia que faz o troco daquilo que fizermos.»

      Pura propaganda do Kremlin que este indivíduo, impassível perante tamanha atrocidade, ia destilando como veneno no canal público.

      1. Eu não sei se é ou não verdade que o centro comercial estivesse a ser utilizado pela artilharia ucraniana para nele se acoitar.
        Mas não me admiraria que fosse verdade.

      2. A questão é simples: os comentadores das TVs só podem comentar no ponto de vista ucraniano. Estamos em guerra e sempre houve, nestas circunstâncias, pontos de vista apenas contra o inimigo.
        Por outro lado, as direcções de programas das TVs têm de explicar muito bem a razão do convite aqueles militares. Não haverá militares que expliquem como é que as tropas ucranianas estão a actuar para se defender dos invasores russos?
        Ou, antes pelo contrário, ainda bem que assim comentam, provavelmente seguindo informações de TVs estrangeiras, para as tropas ucranianas ficarem a saber as ideias dos invasores.

        1. Ouvindo falar estes ex-“generais NATO” considero que foi um desperdício eles não terem sido contratados em tempo útil pelo Pacto de Varsóvia.
          Talvez assim a URSS não tivesse sido derrotada na Guerra Fria.

    1. Eu vou anotando, Cristina. Com um desprazer imenso.
      Os casos mais recorrentes, claro, são os mais chocantes. Como este, sempre pronto a relativizar as atrocidades do tirano russo.

        1. “Delito de não opinião” é o que se passa em Moscovo.
          Um tipo vai de cana, levado por vários pides lá do sítio, só por mostrar uma folha em branco na rua.

          Com os putinescos daqui a bater palminhas…

  8. É mesmo impressionante ver obcecados por Pacheco Pereira que o bombardeiam sem parar com críticas. Até parece que Pacheco Pereira é um russo naturalizado um comuna da pior espécie um partner de Jeronimo Sousa.

    Vergonha nacional é mesmo um tal de Alexandre Guerreiro que comenta na SIC … não vale a pena dizer nada porque me arrisco a ser censurado.

    Há de facto um gostinho especial sempre apimentado para criticar Pacheco Pereira e generais comentadores que mais parece sei lá o quê.

    Porque é que os críticos do sofa não aproveitam a boleia do Mario Machado para ir lutar contra os invasores russos?

    José Antunes

      1. Cá temos os reparos importantíssimos do letrado jornalista que foi o melhor de Portugal.
        “sofa”, não sabe que há teclados que não têm acentos?

  9. Provavelmente por razões de segredo militar não temos visto nas TVs “verdadeiros combates” e bombardeamentos apenas os localizados: torre TV e edifícios. Não nos é apresentado grandes planos de localidades bombardeadas.
    Inclusive, sobre a cidade de Kiev tem aparecido filmagens com planos de vários locais “sem problemas” aparentes.
    Povavelmente assim será por razões militares e não poderemos avaliar “Guernicas”

    1. Quem não quer ver, não vê mesmo.
      Quem quer ver, não ignora o que se passa: 90% dos edifícios em Mariúpol estão destruídos ou seriamente danificados.
      Informa o The Times: https://www.thetimes.co.uk/article/us-to-send-800-million-in-military-
      hardware-to-ukraine-885r9f68q

      Felizmente até há 48 horas esteve lá uma equipa de reportagem – verdadeiramente heróica – da Associated Press.
      Que relata aqui o que viu e ouviu enquanto esteve em Mariúpol: uma cidade em agonia, uma população em sofrimento extremo:
      https://apnews.com/article/russia-ukraine-europe-edf7240a9d990e7e3e32f82ca351dede

      Quem prefira a língua francesa encontra aqui o relato do ‘Libération’, com um título bem sugestivo: «Há cadáveres em todos os bairros.»
      https://www.liberation.fr/international/europe/les-survivants-de-marioupol-racontent-il-y-a-des-corps-dans-tous-les-quartiers-20220321_NTFGTRATLVBPDNA63TE7WU7YJY/

      Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.

      1. As imagens valem mais que mil palavras.
        A foto do “Libération” não vem nada a propósito dos 90% dos edifícios de Mariúpol destruídos.

  10. Esta conversa do “então e o Iraque, e a Síria, e a Líbia” já enoja. Ainda por cima são os mesmos que dizem que não são “carneiros” mas debitam sempre a mesma lengalenga. Aliás, há dias perguntei a uma destas criaturas se se lembrava que na síria tinham sido os russos a bombardear cidades, ao que me respondeu que “era para combater os islâmicos”, como se todos os que se revoltassem contra Assad fossem militantes islamitas.

    1. Este é o mesmo cavalheiro que, tendo tribuna aberta na imprensa há mais de 30 anos, alude com frequência ao “jornalismo de rebanho” em contínua “transumância”, comparando os profissionais da área ao gado bovino ou caprino – com uma deselegância que só fica mal a quem recorre a tais metáforas enquanto vive do jornalismo para ganhar o pão e a manteiga.

      Ei-lo a praticar “comentário de rebanho” em crescente “transumância” para as indefensáveis teses do PCP.
      Mais um pouco e ainda estaciona nas boxe do MRPP, o partido actual que mais se aproxima das suas raízes ideológicas.

      1. Nem me estava a referir a Pacheco Pereira, que tem uma obra de inestimável valor, o projecto Ephemera, mas que gosta sempre de pairar acima dos comuns mortais com a sua suposta memória de elefante. Ainda me lembro do desprezo que votou aos que em 1999 se manifestavam por Timor, ou da defesa da invasão ao Iraque contra o “antiamericanismo”. Concluimos que PP é acima de tudo um belicista, embora ele prefira as batalhas nos jornais.

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