O meu avô Carlos era viciado em automedicação. Experimentava tudo ao mais leve sintoma. Ultimamente, por causa das hemorróidas – reais, creio –, andava a tomar Trifene 200. Dizia que os resultados eram espectaculares. O meu pai murmurava: «Só espero que aquilo não tenha efeitos esquisitos. Que não lhe faça crescer as mamas, ou coisa parecida.» A minha mãe encolhia os ombros, suspirava e dizia: «É um analgésico, não lhe faz mal nenhum.» Mas o meu pai não ficava sossegado. «Por alguma razão o publicitam para o que publicitam», resmungava. No fundo, ainda que recusasse admiti-lo, o medo dele era que, em resultado do Trifene 200 e aos setenta e seis anos de idade, depois de uma vida de facadas no matrimónio (que o meu pai não conseguia deixar de invejar), o meu avô se tornasse subitamente homossexual.
(Também aqui.)

Não me interessa se é um parágrafo ou dois ou 100, mas o prazer da leitura que é feito de sintaxe, semântica, ritmo e essencialmente identidade – o humor, os humores.
Por este parágrafo prazenteiro: merci .
De nada. Merci eu, Eugénia. E bem-vinda de regresso às lides blogosféricas no ‘Escrever é Triste’.
(Não andou por aí noutro blogue qualquer desde o fim do ‘É Tudo Gente Morta’, pois não? Seria indesculpável que tal me tivesse escapado…)
De todo, quietinha e sem um ai à espera de ser Triste… Agora sou eu quem lhe agradece.
Excelente, Jaa! 🙂
Obrigado, Ana.
hehehehe
Se esse “efeito” estivesse comprovado clínicamente, imagino que os laboratórios já estariam a produzir o Trifene 20.000, com a garantia de “efeito” imediato.
Há para aí muita gente a tomar coisas mais esquisitas a propósito das mais diversas manifestações de doença, Bartolomeu. Aliás, não são os portugueses especialistas (ou talvez fosse mais correcto escrever “viciados”) em automedicação? E, vai-se a ver, uma ou outra até funciona…
Esse vosso medinho atávico de “virarem” sempre me divertiu. Que paranóia! Com as mulheres não é nada assim. O post está um mimo 🙂
Óh Teresa; e olhe que é um medo inteiramente justificado. E além de justificado, é demonstrativo do interesse que o Homem dedica ao belo sexo.

Se não repare; conhece algum exemplar masculino, que depois de “virar”, tenha regressado ao bom caminho?
Pelas indicações que tenho, parece que até hoje, não se registou um único caso.
Então, reitero a minha opinião, uma vez que não ha retorno (e se houvesse, a opinião manter-se-ia) não podemos correr o risco de deixar de gostar dos seres mais maravilhosos que Deus, a natureza, ou sei lá, colocaram na Terra!
(Bartolomeu dixit!)
Hehe, boa justificação, Bartolomeu. Especialmente da forma como você a apresenta. É que «Há melhor mas nós gostamos tanto de vocês que nem queremos pensar nisso» talvez não tivesse a mesma magia…
Por isso é que nós gostamos das mulheres, Teresa. Não têm medo de ir ao encontro das nossas fantasias. 😉
E obrigado.