“(…) [G]ostaria desde já de chamar a vossa atenção para as citações iniciais da obra que de uma forma simples nos introduzem naqueles que são os grandes debates, não só da imprensa portuguesa em Macau, mas do jornalismo e dos media em geral, o que eu resumiria em quatro pontos:
1. Qual o papel do jornalista no mundo contemporâneo;
2. Como podem os cidadãos reconhecer a verdade na informação que lhes chega;
3. Qual o sentido da actividade jornalística;
4. Como lidar com o gigantesco caudal informativo que nos inunda o quotidiano.
O livro não responde a estas quatro questões, antes nos alerta para elas e para o trabalho de quem faz a imprensa, alcançando-o de um modo singular. Isto é, recorrendo ao passado recente para nos dar uma panorâmica nos seus sete capítulos das diversas fases por que passou a imprensa portuguesa em Macau, das suas preocupações e linhas de orientação, indo até à situação profissional dos jornalistas. Desse modo, é-nos permitido inteirarmo-nos das dificuldades e vicissitudes por que a classe passou e que a preocupam, bem como sobre os seus dramas, incertezas e perspectivas, tarefa executada sem esquecer uma abordagem dos principais instrumentos jurídicos que regulam, ainda que imperfeitamente, a profissão, o que é conseguido pela mão experiente do Dr. Frederico Rato.
Para além de registar o cuidado colocado na investigação e redacção dos textos de José Carlos Matias — que me fez regressar aos anos conturbados do vieirismo tardio —; de Diana do Mar — dando conta das dezenas de jornalistas que fizeram da Tribuna, do Ponto Final e do Hoje Macau o que são e de como na adversidade é possível trilhar um caminho —; de Sónia Nunes — cujo sintetismo e espírito analítico importa ressaltar; de Marco Carvalho — que nos deixou um retrato cuidado da nova classe —; e de ter havido o cuidado de se registar a opinião de quem lê a imprensa; do conjunto de capítulos do livro saliento, em especial, a interessante abordagem que é feita em “Olhares cruzados sobre a imprensa”, onde o Prof. João Figueira conversa com os directores dos jornais Tribuna de Macau e Hoje Macau, com o editor do Clarim, com o director de uma empresa de publicações e consultoria, com o chefe de informação e programas portugueses da TDM-Rádio Macau e com um jornalista que sendo hoje proprietário de um jornal também foi seu director.
Aspectos como a subsidiação pública, o reflexo desta na liberdade de imprensa, a formação e o percurso de profissionais que demandaram Macau não foram descurados, o que contribui para a actualidade e acutilância da discussão, oferecendo-nos uma imagem rigorosa do salto qualitativo que ocorreu com a injecção de sangue novo.
Como o título da obra denuncia, a abordagem é feita na perspectiva dos últimos quinze anos, prazo relativamente curto para historicamente se retirarem conclusões. É, todavia, tempo suficiente para se adquirir uma visão global das incertezas e se poder projectar o futuro, que é aquilo que hoje preocupa jornalistas, editores e os cidadãos de Macau em geral, entre os quais me incluo. (…)” (Excerto das notas que guiaram a apresentação que me foi confiada, 05/12/2016, Fundação Rui Cunha)


Tal como o médico está para a saúde do corpo assim o jornalista está para a saúde do espirito da democracia. Há anos li um livro que se intitulava “Porque Falham as Nações”, onde se concluía serem sobretudo as instituições culturais as responsáveis pelo (in)sucesso de uma nação. Pouco era referida a imprensa. Contudo não deixa de ser curioso serem os países com um sector jornalístico mais “desenvolvido”, mais maduro, aqueles que mais prosperam.
Penso que uma das funções do Jornalismo, para o bem da vida pública e cívica de um país, é não deixar, que governantes e governados percam a vergonha.
Ou assim – sem pretender impor ao jornalismo e aos jornalistas responsabilidades e poderes que não têm que ter – deveria ser. Para que a prática do jornalismo e a profissão de jornalista o sejam sem representar usurpação nem exigir aspas.
Creio eu. Que nunca o fui, mas estou desde muito novo e muito interessadamente na posição de leitor.
Costa
Sim, Costa. Não concebo outra forma de ser Cidadão do que querer ser informado. Decidir informado. Escolher informado.