Tranströmer – Nobel da Literatura


Rui Rocha,

 

A Academia Sueca justifica a atribuição do Nobel da Literatura a Tomas Tranströmer com o facto de este nos dar, “através das suas imagens condensadas e translúcidas, uma nova abordagem da realidade”.

 

Tal como muitas outras vozes que se têm pronunciado com profundidade sobre a escrita do poeta sueco, também eu não conhecia a sua obra. Por isso, fui ver. Nada melhor para testar a tese da Academia Sueca do que dois textos inspirados em Portugal.

 

Num deles, uma pincelada sobre Alfama em que está tanto do nosso país. Duas prisões, uma das quais para gatunos que gritam para ser fotografados (a busca da notoriedade ou a necessidade de certificar a injustiça… fosse escrito hoje e não teria dúvidas em optar pela primeira). Um político, também ele preso a uns binóculos com que vê para além do mar. Enquanto ignora a realidade. Um  revisor malicioso de um eléctrico que sobe enquanto canta, mal sabendo que a malícia do seu comentário, proferido baixinho, e que é também uma forma de alheamento e desresponsabilização, lhe prepara a descida:

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
subidas.
Havia
duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

“Mas aqui”, dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
“aqui sentam-se os políticos”. Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.
 

No outro, sobre o Funchal, para além de uma descrição fabulosa do peixe fresco (“Cada dentada diz-nos que o oceano nos quer bem, um zunido das profundezas”) e de uma alusão comovente à vida e ao amor (“acontecimentos que nos poderiam ter separado se não nos tivessem unido“), uma frase com todo o peso de ser dita com a Madeira em fundo: um homem não é uma ilha.

 

Um poeta é, antes de mais, um visionário. Vê, no presente, como se sentisse. E sente o futuro como se o visse. Para além disso, acontece-lhe escrever em verso. Pouco li de Tranströmer. Mas, é bem possível que o Nobel esteja em boas mãos.

 

* encontrei os textos aqui.

14 comentários em “Tranströmer – Nobel da Literatura”

  1. Nem mais — e muito obrigado pela partilha dos versos.

    Além de tudo o que diz, há muita gente que ainda não percebeu que a lógica da Academia Sueca não é propriamente a de concursos como o dos gordos que se metem dentro de uma casa a ver quem é que aguenta mais tempo sem sair. A Academia Sueca tem os seus próprios critérios — que, como tudo, podem ser discutidos –, e não tem por objectivo fazer fretes aos fãs do Roth (nos quais eu me incluo).

  2. Eu, que confesso ler pouca poesia, também não o conhecia. Passando por cima da conveniência de ser poeta (nenhum ganhava há muitos anos, pelo que estava na altura) e sueco (idem), será certamente excelente (eu até tendo a adorar escritores nórdicos). Mas estes excertos… hmmm… “um homem não é uma ilha”? És muito mauzinho, Rui.

  3. Está.

    A meio da vida pode acontecer que a morte venha tirar-nos as medidas. Esquece-se esta visita, e a vida continua. Mas o fato é cosido em silêncio.

      1. Lamento a falta de jeito para traduzir poesia, ainda para mais de uma língua tão económica para a nossa, que de económico tem pouco (e curiosamente parecem ambas feitas para a poesia, cada uma à sua maneira,). Mas não era mulher não era nada se não tentasse 😉

        Posto isto, aqui fica o original:

        Svarta Vykort

        Mitt i livet händer det att döden kommer och tar mått på människan.
        Det besöket glöms och livet fortsätter.
        Men kostymen sys i det tysta.

      1. Só li agora o seu segundo comentário, Isabel. Se o poema é do novo Nobel, o prémio está de facto em muito boas mãos. Além disso, fico muito feliz que o prémio tenha sido dado finalmente a um poeta. Obrigada pela tradução. Vou procurar saber se há mais traduções. Eu, que leio muita poesia, nunca li nada dele.

        1. Está provavelmente traduzido para inglês, que é uma língua muito mais swedish-friendly. 😉

          Devo dizer, aliás, que a tradução inglesa deste poema me ajudou para a minha tentativa de tradução para português: estudei-o há muitos anos mas lembrava-me mais ou menos da última frase e, sobretudo e muito claramente, da emoção por ela suscitada; e os dicionários estavam mais longe do que o google…

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