Tragédias (gregas, gaúchas e outras em fase de subida à cena)


escafandro,

Como forma de protesto contra o corte das pensões de reforma para as quais descontara ao longo da vida, um cidadão grego de 77 anos atolado em dívidas suicidou-se na Praça Syntagma, em frente ao Parlamento. Trágico? Sem dúvida. Tão trágico que despoleta inevitavelmente respostas baseadas na emoção e dificulta qualquer análise objectiva. Mas procuremos fazê-la. Mantendo-se dentro do euro, a Grécia foi obrigada, entre outras medidas desagradáveis, a cortar pensões (em média, cerca de 15%). Fora do euro, o que teria feito? Olhemos para a Argentina. O que fez o governo argentino quando, eliminada a paridade entre o peso e o dólar e declarado o incumprimento da dívida, ficou sem acesso a crédito? Cortou salários e pensões para diminuir a despesa (na verdade, já o tinha feito antes do default) e recorreu (há quem utilize o verbo “saquear”) ao dinheiro que os cidadãos haviam colocado nas contas poupança-reforma (encontram-se calhamaços na internet sobre a crise argentina mas este artigo do The Independent serve perfeitamente como comprovativo e tem a vantagem de descrever bastante bem os efeitos de um default). Desconheço se algum argentino se suicidou na Plaza de Mayo (que houve tumultos, houve) mas a verdade é que, atingidos certos pontos, as tragédias tornam-se difíceis de evitar. Devíamos ter isto em consideração nas épocas em que os sinais de crise começam a surgir em vez de os ignorarmos, atribuindo-os a pessimistas militantes. Agora é tarde. Atolados nas consequências da nossa cegueira, resta-nos tentar escolher o mal menor. E quanto a isto, numa altura em que a situação espanhola volta a degradar-se, a pergunta fulcral (até por ser aquela cuja resposta depende integralmente de nós) permanece: dentro ou fora do euro?

5 comentários em “Tragédias (gregas, gaúchas e outras em fase de subida à cena)”

  1. Claro que o cidadão grego poderia ter optado por outra solução, com a mesma pistola ir procurar o dinheiro onde ele está, naqueles que enriquecem com a crise e nos bancos que se abotoam com o dinheiro do estado. Tomemos o exemplo cá das berças, e se aparecesse um ou mais ou muitos cidadãos que são espoliados e metessem um tiro na cabeça de Oliveira e Costa ou Dias Loureiro? Ou até mesmo se seleccionassem aquele(s) cidadão(s) que recebendo o 13º e o 14º consideram justíssimos os cortes e os aliviassem de alguns euros.

    Esse gesto por certo faria bem mais sentido?

    1. Quer você dizer os cidadãos cujas empresas ainda lhes podem pagar os 13º e 14º meses, ao contrário da empresa Estado, apesar de ter capacidade de confisco que nenhuma das outras possui – e bem a ter usado nos últimos anos?

      Quanto ao resto, eu não meteria uma bala na cabeça de quem quer que fosse (sou contra a pena de morte) mas adoraria ver muita gente (entre outras, as que cita) na cadeia por longo período. Mas também convém dizer que fossem os problemas apenas os crimes de alguns e as negociatas entre o Estado e algumas empresas e tudo seria mais fácil de resolver. Infelizmente, os desequilíbrios vão muito para além disso.

  2. A Argentina com uma inflação de 25% (não oficial e com ameças a professores que expõem a falsificação) teria piada cá com tanta gente desempregada que só sobrevive devido à poupança que ainda tem.

    Quanto à questão.
    É irrelevante dentro ou fora do euro.
    Com isto quero dizer que não é o euro ou sem ele que vai fazer os portugueses produzir a diferença de riqueza que veio do crédito barato.

    Riqueza Portuguesa no final de 2011:

    85% produção + 15% emprestados

    Como não se pode pedir mais emprestado a riqueza Portuguesa será

    85% – juros se os portugueses não produzirem mais.

    Produzir mais tem de ser algo que os outros queiram, não algo que os Governos queira como a Economia Verde…

    A bolha da economia verde socialista está aí a rebentar, nos EUA e Alemanha sucedem-se as empresas falidas e porque cá já começaram os gritos de alarme.

  3. A saída do euro teria a vantagem de eliminar disfarces e forçar os ajustamentos, para além de aumentar a competividade das exportações. E permitiria também voltar à velha batota da desvalorização/inflação, de que as pessoas parecem gostar.

    Já agora, lucklucky, aproveito para lhe dizer que os seus comentários me são muito úteis – por várias razões, entre as quais a de me fazerem sentir optimista. 🙂

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