Toque a reunir


Rui Rocha,

A submissão ao dogma da produtividade no trabalho tem, reconheça-se, o seu quê de indignidade. Justifica-se, assim, a  luta contra a exploração do homem pelo homem que uma parte da esquerda incorpora na sua prática e que uma outra parte da esquerda integra, com sentido prático, no discurso. Vivemos, todavia, tempos de pragmatismo. O regresso à ideologia far-se-á oportunamente. E um dia, eventualmente, os próprios sindicatos poderão deixar de ser meros angariadores de cotizações dos filiados. Até lá, o combate contra a produtividade deve fazer-se com mais subtileza e argúcia. Atacando-se o sistema por dentro, de forma não ostensiva, mas igualmente eficaz. Uma das estratégias a que reconheço maior potencial é a de convocar reuniões. Não maçarei o leitor com certas evidências matemáticas (a produtividade da empresa ou do departamento é inversamente proporcional ao número de participantes numa reunião), mas não resisto a salientar o óbvio. Sempre que dois ou mais profissionais se reúnem existe uma elevada probabilidade de ocorrerem fenómenos que podem afectar, de forma temporária ou permante, a produtividade. Não há reunião que comece a horas, a relação entre soluções apresentadas e novos problemas insolúveis identificados em reuniões é, no mínimo, de 1 para 10, o ego de algum dos presentes impedirá sempre que se discutam as medidas mais sensatas,  a falta de preparação de algum dos participantes obrigará ao esclerecimento de intermináveis pontos prévios não deixando tempo para a análise dos aspectos essenciais… Eu sei lá, tudo isto e mais aquilo que o leitor, bem mais experiente do que eu nestes assuntos, já sabe e que eu nem ouso imaginar. Para além disso, as reuniões apresentam ainda outras vantagens. Na verdade, são o local ideal para vermos gente (o leitor não está já um pouco cansado do seu trabalho solitário?), mostrarmos gráficos, sentirmo-nos importantes, utilizarmos um ponteiro, comermos umas bolachas e uns pães-de-leite com fiambre e impressionar os colegas. Isto é, as ruiniões, para além de arruinarem a produtividade, permitem ainda afagar o ego, acalmar o pequeno ditador que existe em cada um de nós  e poupar no almoço. Tudo isto em horário de trabalho, pago como se fosse trabalho e sem dedução do subsídio de refeição.

18 comentários em “Toque a reunir”

  1. Limpinho! Pode juntar a isso as interrupções: coisas urgentíssimas do tipo fogo debaixo da secretária e afins, já para não falar nos irritantes telemóveis que as pessoas imprescindíveis e mesmo as insubstituíveis se “esquecem” de desligar, ausentando-se da sala por vários períodos de tempo. Isto assim, de repente.

    Se não fossem os “armoços”… ufa!

    1. E o bom da coisa é que uma ruinião pressupõe, sempre, um conjunto de ruiniões posteriores de acompanhamento, de esclarecimento e outras que tais, Fátima.

  2. Uma reunião é um reflexo de quem lá reúne… Quem não sabe ser produtivo numa reunião não é por não estar numa que de repente já o sabe ser…

  3. Oh Rui,

    Com o devido respeito, desde que o PSD é Governo o Rui ficou sem assunto (dizer mal do dito!) e 2emprega” assim o seu tempo? E “esbanja” assim o nosso? Qul o interesse deste seu toque a reunir? E se falasse de coisas que verdadeiramente interessam como seja um sobressalto cívico para dizer ao Sr. 1.º Ministro que se os cortes já existentes não chegam, sempre lhe podemos acrescentar o corte da passividade e da tolerância e apearmos esta cambada de gente que pregava uma coisa antes de 5 de Junho e quando se viu com o menino nos braços ficou toda “cagada”? Acha que os Portugueses – pagantes da crise – aguentam todos os dislates de PPC e por muito mais tempo? Acha que os Portugueses aguentam pacificamente, sem reagir, sem violência, PPC os 4 anos da legislatura?
    Se não tem assunto, sugiro que reuna consigo próprio e volte apenas quando tiver algo substancial e importante para partilhar.
    O blog só faz sentido se for úitl para os “donos” e os leitores.

    1. Caro anónimo,
      1) 14 linhas para me dizer que não tenho assunto revelam uma certa falta de assunto; em todo o caso, o assunto é meu, sem mais assunto.
      2) noto uma grande necessidade de desabafar… resultado de 6 anos de recalcamento?
      3) o blogue tem uma porta. Aquela por onde entram os leitores para ler e comentar e por onde entram os autores para escrever. Essa mesma porta serve para uns e outros sairem. Sirva-se à vontade, num ou noutro sentido.

      1. Rui,

        Como canta magistralmente a Maria Bethânia vou deixar a “porta entreaberta”, dando voto de confiança.
        Se se confirmar a tendência actual, darei notação idêntica à da MOODY’s (está na moda dar notações) e bato(-lhe) com a porta.

  4. Será que tanta ironia contra as “riuniões” escondem o desejo inconfessado de abraçar a ditadura como forma superior de governo e afastar a democracia?
    A vida é tão mais simples em ditadura…nem é sequer necessária a encenação dos “toques a reunir” …a não ser para anunciar a vontade do chefe!
    E o que se poupava em pães-de-leite…com prejuízo apenas para o pasteleiro/padeiro.

  5. Olá Rui.
    De facto o país sofre de reunite crónica. Creio mesmo que esse é o nosso mal: a reunião é uma instituição nacional. O problema é que, depois de reuniões e reuniões – com a UE, com o FMI, com o BCE , juntos em troika e em separado, sem fim e com o ECOFIN – consensualizadas as reformas estruturais há mais de 20 anos, acabar com as reuniões portuguesas continua de fora. Logo a mais estrutural das reformas estruturais! Pior que uma reforma adiada é uma reforma esquecida …
    Mas parece-me que o Rui fala de outra coisa: das RUIniões ! Serão as reuniões com o RUI? E serão essas ainda piores?

    1. O meu egocentrismo não chega a tanto, Eduardo. As ruiniões referem-se a ruína. Mas, não me excluo da crítica. E, da mesma maneira que já sofri reuniões ruinosas, também já devo ter infligido algumas bem Ruinosas aos participantes.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *