Toque a rebate no PS


Pedro Correia,

Muita gente ficou perplexa com o texto de Mário Soares no DN em que o ex-presidente criticava duramente José Sócrates a pretexto do apoio dado a Manuel Alegre como candidato presidencial do PS. Alegou-se, por exemplo, a falta de substância das críticas de Soares, que aludiu a um “grave erro político”, de consequências porventura “fatais”, sem no entanto especificar por que motivo o erro será tão irreparável e a que fatais consequências se refere numa prosa invulgarmente pessimista.

Eu li o artigo de outra maneira, muito para além do contexto presidencial. Li-o como uma espécie de senha, como um sinal às tropas de Soares dentro do PS. Com esta crítica a Sócrates, o fundador do partido incentiva e autoriza as movimentações internas que permitam o aparecimento de uma alternativa credível ao actual líder.

É, no fundo, um toque a rebate pelo futuro do PS. A intuição política de Soares diz-lhe que se essa alternativa não aparecer em breve o partido arrisca permanecer longos anos na oposição. Um pouco à semelhança do que tem acontecido com o PSD no longo período pós-Cavaco Silva. Veja-se o que sucedeu na Hungria, país governado durante oito anos pelo Partido Socialista. O balanço dessa governação foi tão desastroso que o PS húngaro vale hoje só 19% e a direita dispõe de maioria qualificada no Parlamento que lhe permite alterar a Constituição.

É este o grande receio de Soares: que o PS português, sob a condução de Sócrates, acabe na pior posição de sempre. Manuel Alegre funciona apenas como pretexto para as suas críticas.

12 comentários em “Toque a rebate no PS”

  1. Ummhh Não sei: creio que é mesmo a insistência em excluir qualquer hipótese de Alegre poder, numa hipótese ainda que remota, ganhar.

    Tenho concluído recentemente que uma das características da 4ª idade é a tendência para a «vingança».

  2. E para o revanchismo… Jamais Soares perdoará a Alegre a sua derrota e a vitória de Cavaco. Não é politicamente correcto mas é a assim.

  3. Pedro Correia põe a questão nos termos devidos. Mas, pelos vistos, não serve de nada: é ver os dois primeiros comentários ao post. Esta gente mede os outros por si mesma, nada a fazer.

  4. Não tendo a perspicácia para a análise política capaz de alcançar tal visão das coisas, agora que o leio a pertinência da sua leitura dos acontecimentos parece-me bastante acentuada. De facto, é de conhecimento geral que o apoio a Alegre surge na sequência da ausência de alternativas; mas essa ausência de alternativas ocorre também porque não foi desenvolvido o menor esforço no sentido de encontrar no seio do partido um líder capaz de se posicionar de forma coerente na corrida às presidencias e de constituir uma (série) opção a Cavaco Silva.
    Alegre cria fortes clivagens no PS, e, à parte a alegada sede de vingança (opinião que não partilho), não deixa de ser um desalinhado que apresenta pela segunda vez uma candidatura independente e alheia ao sentido de união que subjaz à lógica partidária, e que não obstante isso, é apoiado pelo líder. Este apoio parece-me uma espécie de subserviência ao homem poeta em detrimento do encontro de soluções internas marcadas pelo consenso. Assim, o incentivar de movimentações internas poderá ser visto como a forma de dar um novo rumo ao PS em redor de um líder que acalme os receios de naufrágio político prolongado.

  5. Até pode não ser o que Soares visou, mas objectivamente a sua posição desencadeia a corrida ao poder.
    Vejamos: Sócrates é um cadáver político, do qual o PS (agora) se veria livre de bom grado; as sondagens a que eles são tão sensíveis, são claras no sentido de que Sócrates se tornou um morto-vivo que está a ser grelhado em fogo lento e que será dispensado logo que estiver bem tostadinho, ou, por outras palavras, o povão já não pode com ele e só não o manda às urtigas porque o momento político não é propício.
    Mas a seguir à reeleição de Cavaco a conversa será outra.
    Soares, com o seu conhecido faro político, já está a ver esse filme – o pior é que ele já não é o “realizador”.

  6. Alguém falou em ciúmes Soaristas ? Não ? Pois bem é o que eu leio das declarações dele. Tem M. Alegre, atravessado…..podem até chamar-lhe vingança. Soares já devia ser mais comedido naquilo que diz e faz.

  7. Ao dar uma vista de olhos de maneira avulsa pelo suplemento de hoje do jornal Público, chamou-me a atenção a seguinte frase de Mário Soares: “Se for o Manuel Alegre, veremos, mas acho que não (vou apoiar). Tenho uma coisa muito importante que é a minha consciência”. E acrescenta: “Sempre pensei pela minha cabeça. Quando eu suspendi as minhas funções de secretário-geral (do PS) para não apoiar o general Eanes, o partido ficou todo do outro lado e não me importei nada.”

    Por muito que se especule a respeito desta decisão do ex-presidente da República, a quem alguém já chamou o “grande actor político, pai fundador da nossa democracia”, o que é certo é que ele não deixa de ser coerente consigo próprio. Não podemos esquecer que nos momentos mais difíceis da jovem democracia portuguesa, Mário Soares tomou sempre as decisões mais correctas, com especial relevância para as que assumiu no Verão quente de 1975. A sua argúcia, hoje, talvez não esteja muito longe dos conturbados tempos de então. Por isso, a sua tomada de posição, irá necessariamente, dividir o PS no projecto Alegrista .”

    Poderão ser polémicas, também, as razões que o levaram, no passado, a não votar Ramalho Eanes que, aliás, foi um bom Presidente da República. Mas, há uma coisa que temos de admirar e respeitar: ele não toma decisões contra a sua própria consciência. Vem a talhe de foice dizer que, neste particular, é a antítese do actual PR.

    Talvez existam, para o antigo Senador, outras “razões de coração que a própria razão desconhece.” Mas isso faz parte da vida e da inteligência intuitiva. Como dizia António Damásio: “sinto, logo existo.” O que nos leva à conclusão de que Mário Soares existe, que continua a intervir na política com o peso que lhe é reconhecido e com o direito de cidadania que ninguém lhe pode negar!…
    Publicada por Zéfoz em 13:28 0 comentários

  8. Deu para perceber isso e muito mais. Deu para perceber que a Mário Soares bastou muito pouco para condenar o futuro a José Sócrates, o que por si só diz do mérito que lhe atribui e deu para perceber que dentro do PS as tropas só se mexem quando o padrinho se zanga.
    O problema é que não se segue nada de bom ao país.
    As leis de Murphy irão confirmá-lo.

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