Timor ontem, Ucrânia hoje


Pedro Correia,

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Xanana Gusmão, na resistência ao invasor indonésio

 

Algumas almas angelicais abraçadas a velhas aves de rapina hoje travestidas de pombas, como Henry Kissinger, andam obcecadas com isto: há que «evitar humilhar os russos».

Como se não fossem eles os agressores da Ucrânia.

Como se a tropa de Moscovo não devorasse território ucraniano com fúria expansionista – o Kremlin ocupa agora, ilegalmente, cerca de 125 mil km² de superfície territorial do país vizinho, quase o triplo dos cerca de 43 mil km² que ocupava desde 2014.

Como se vissem a realidade invertida: soldados da Ucrânia envolvidos em operações de conquista e anexação da Rússia.

Como se a agressão moscovita devesse ser recompensada, encorajando futuras campanhas bélicas decalcadas do guião nazi naqueles alucinantes meses que levaram Hitler a engolir a Áustria, os Sudetas, a Checoslováquia e enfim a Polónia. Até tudo desembocar num conflito global já imparável.

 

Esta amálgama de gente – neofascistas, comunistas, falsos pacifistas e alguns idiotas úteis – procura iludir uma evidência: a Ucrânia equivale hoje, numa escala muito superior, à resistência timorense que enfrentou com êxito o imperialismo neocolonialista indonésio entre 1975 e 1999, suportando as maiores atrocidades cometidas pelos esbirros de Jacarta naquele solo onde durante séculos flutuou a bandeira portuguesa.

Também nessa altura pululavam por aí os “realistas” recomendando o reconhecimento da situação de facto, imposta pelos canhangulos indonésios, e desencorajando o apoio ocidental à abnegada guerrilha timorense. Diziam esses tais que eram impossível vergar um dos exércitos mais numerosos e bem equipados do planeta.

Pela lógica actual, o PCP deveria ter gritado então contra o levantamento das sanções ao regime de Jacarta e exigido a «paz» imposta pelos fuzis. Com Timor-Leste debaixo da pata indonésia.

É curioso vermos hoje Jerónimo de Sousa fazer coro com Henry Kissinger. Este, enquanto responsável máximo da diplomacia norte-americana, deu luz verde à brutal invasão de Timor-Leste pela tropa do ditador Suharto, em Dezembro de 1975, sob o argumento de que o Ocidente não deveria «humilhar a Indonésia». Nada melhor, portanto, do que outorgar-lhe direito de pernada e garantir-lhe aquilo a que chamam «concessões territoriais» – eufemismo para designar a anexação de uma nação soberana por um Estado vizinho em grosseira violação do direito internacional.

 

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Henry Kissinger (à esquerda) em Jacarta, Dezembro de 1975

 

Kissinger estava redondamente enganado, como sabemos: a força da razão derrotou a razão da força. Foi preciso esperar 24 anos, mas aconteceu.

Aprendamos com as lições da História. Ontem em Timor, hoje na Ucrânia.

Ao lado de quem é agredido, não de quem agride.

Solidários com as vítimas, não com os verdugos.

Ninguém humilha tanto a Rússia como Vladimir Putin, que já provocou danos reputacionais incalculáveis ao seu país. Com fatais reflexos nas gerações futuras.

20 comentários em “Timor ontem, Ucrânia hoje”

  1. Dos órfãos soviéticos aos adoradores da força, dos cobardes aos hedonistas, todos podem contar com noticiários que progressivamente atenuam o horror para acomodar a dúvida.
    O culto ‘progressista’ de normalização da anormalidade está aí, fazendo seu caminho.

    1. Aquele patético apelo de Jerónimo de Sousa (cabeça sempre baixa a ler um papel) para que se ponha fim às sanções à Rússia enquanto Putin liquida milhares de ucranianos todos os dias, leva-me a concluir que dificilmente os comunistas conseguirão descer mais baixo.

  2. o Kremlin ocupa agora, ilegalmente, cerca de 125 mil km² de superfície territorial do país vizinho

    Lembremos aos idiotas úteis que esses 125 mil km² correspondem a uma área bem maior do que Portugal — e a cerca de 25% da área da França Metropolitana. Alguém devia perguntar ao cada vez mais irrelevante Macron se cederia 25% da área do seu país para não humilhar o país vizinho.

    Bem… Na verdade sabemos que os franceses na 2ªGG capitularam logo sem estrebuchar muito. Se calhar é disso.

    1. Que diferença entre os franceses, que capitularam ao fim de três semanas em 1940, e os ucranianos, que resistem há mais de três meses.
      Também é verdade que França estava minada pelo colaboracionismo comunista, simpatizante da Alemanha desde o pacto Hitler-Estaline, de Agosto de 1939.

      1. Ninguém ainda se livrou do colaboracionismo comunista.. É a maior fraqueza da Europa, que só tem paralelo no wokismo inglês e americano.

      2. São os defensores da Europa que temos, tiram o Kosovo e dão a Crimeia mais uma boa parte da Ucrânia e por cá também existem muitos que dariam de bom grado o que nos resta além da dívida …

        1. «Nem Maginot nem Siegfried», como escreveu na altura (na imprensa legal), em pleno salazarismo, um “equidistante” Álvaro Cunhal.
          https://expresso.pt/blogues/blogue_paulo_gaiao/o-cunhal-de-que-o-pcp-nunca-fala=f780855

          «Mas haverá alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain?», questionava o líder histórico do PCP nesse período em que vigorava o pacto de não-agressão entre Berlim e Moscovo. Em plena II Guerra Mundial.
          A 9 de Março de 1940. Dois meses antes da invasão de França pelos blindados nazis.
          Peça de antologia.

          1. Olha que pérola… No ano seguinte andava Humberto Delgado a louvar Adolf Hitler. E agora botam-lhe o nome no aeroporto de Lisboa

  3. Putin não humilhável. Só mesmo políticos do aviário são capazes de abrigar semelhante ideia. Aconteceu com Hitler e o “peace in our time”, acontece com o congénere Putin e “peace” que já tens a Crimeia.
    Só lhe falta a foto com Torre Eiffel em 2º plano.

  4. Mentira, Kissinger e a politica dos usa de apoiar a indonésia deve-se ao medo de timor-leste cair nas mãos do comunismo, por isso apoiaram a invasão

    1. Há o estadista e há o xadrezista. Um e outro nada têm a ver.
      Kissinger é xadrezista. Para Portugal, em 1975, advogou a tese da «vacina»: devíamos cair para a órbita soviética, sob o festivo comando de Cunhal, Vasco Gonçalves e Rosa Coutinho, para funcionar como «vacina» para a França e a Itália verem como seria um regime comunista aplicado na Europa Ocidental.
      Aí já não se importava que houvesse comunismo. É o que acontece em quem vê os sistemas políticos como laboratório da geopolítica, estando-se nas tintas para os povos que sofrem as consequências de tão sofisticado produto intelectual.
      Enganou-se em Portugal como se enganou em Timor-Leste.
      Não deixa de ser irónico que este velho falcão seja agora herói de tanta pombinha…

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