Vivemos tempos difíceis. A todo o momento temos gente a policiar os nossos gestos, os nossos olhares, as nossas palavras, as nossas expressões de escárnio ou de enfado, os nossos hábitos alimentares.
As patrulhas andam aí. Mais ferozes e autoritárias que nunca. Tratam-nos como se vivêssemos em regime de internato, impondo os dogmas da correcção política com fúria punitiva.
Devemos falar como elas falam, comer o que elas comem, desfraldar as mesmas bandeiras, idolatrar os mesmos ídolos. Só assim receberemos atestados de idoneidade que nos salvaguardam do banimento cívico.
Vale-me a prosa iconoclasta e dissolvente de Aquilino Ribeiro, que frequento por estes dias, em elegias constantes à boa mesa e à boa cama.
Em trechos como este:
«Estavam de morrer por mais, os infalíveis bolinhos de bacalhau sobre o vinagre, e digno de D. João VI, grande papa-frangos, o polho de grão assado no espeto. Comeram e untaram a barbela, fazendo-lhes dignas honras um palhetinho alegrete e gajeiro de Leitões, colheita do Corregedor.»
E este:
«O que mais lisonjeia a mulher de parte dum homem em matéria de finezas é que ele a deseje. Desejada de lábios contra lábios, de braços nos braços, de poros nos poros a comunicarem-se toda a lia de que é feita a atracção universal.»
E mais este:
«Capaz de todas as tontarias, sabia por experiência o perigo que há em esbarrar quer na timidez improdutiva quer na audácia espalha-brasas, situações por igual contraproducentes no plano da sedução. Sempre tivera uma certa confiança em si e na imperiosidade de que se acompanham as leis da natureza. Não é que tudo entre homem e mulher se reduz a sexo?»
Parágrafos recolhidos desse magnífico romance que é A Casa Grande de Romarigães, esplendoroso tributo à língua portuguesa.
Se escrevesse hoje, estava mestre Aquilino bem tramado.

Ao corretês só falta a publicação de um catecismo, mas não tardará se o ridículo continuar a não ser temido.
Já esteve mais longe. Os diáconos e as madres superioras andam certamente a tratar disso.
Pedro, não dê ideas, pelo amor da santa… A Enid Blyton já está no INDEX(!).
A brigada não capina sentada. A ignorância e o obscurantismo, que são virais, fazem o resto…
Já oiço os cascos, Fátima. A patrulha aproxima-se. E vem a galope.
Como assim?
https://www.washingtonexaminer.com/bann ing-books-especially-to-kill-a-mockingbi rd-and-the-adventures-of-huckleberry-fin n-in-the-name-of-political-correctness-i s-absurd
https://nypost.com/2015/12/14/school-wo nt-teach-americas-most-famous-novel-beca use-students-felt-uncomfortable/
https://www.telegraph.co.uk/culture/boo ks/booknews/8866991/Tintin-banned-from-c hildrens-shelves-over-racism-fears.html
Os donos da linguagem são, ou aspiram a ser, os donos da moral. Têm um lobby fortíssimo e conseguem que as leis se vão tecendo de acordo com a sua visão do mundo.
Emmanuel Kant distinguiu a moralidade da legalidade e essa separação fez escola no mundo ocidental, sendo um dos seus pilares.
A história é feita de avanços e recuos e os tempos que vivemos não são entusiasmantes.
O policiamento constante de cada gesto, de cada palavra, de cada esgar: eis algo que contradiz quase três séculos de Luzes, Paulo.
As sombras regressam, com outros rótulos.
Em nome de novas superioridades morais, revivem-se velhas caças às bruxas.
Com muito basbaque a bater palminhas, farejando o ar do tempo.
Aproveitei estas férias para reler o magnífico Aquilino. Nem A Casa Grande de Romarigães nem O Malhadinhas escapariam hoje aos algozes do politicamente correcto. Mas ele, que foi objecto de um processo por ter escrito Quando os Lobos Uivam, do qual só o livraram com uma amnistia, já deveria estar habituado.
Se escrevesse hoje, provavelmente não teria quem o publicasse. E todavia, é em Aquilino que melhor se vê descrito o Portugal e os portugueses da primeira metade do século XX e, diria até, das idiossincrasias e atavismos que definem a nossa identidade colectiva é vão bem além dessas poucas décadas, tanto na direcção do passado como do futuro.
Lendo o seu post, recordei um trecho de Saramago que li há algumas semanas no “Último Caderno de Lanzarote”, onde se refere a Aquilino como “penhasco solitário e enorme, que irrompeu do chão no meio da álea principal da nossa florida e não raro delisquescente literatura da primeira metade do século”. Depois continua reflectindo sobre a memória dos portugueses e de como o aparente esquecimento a que Aquilino parece votado é um sinal da abdicação colectiva das nossas referências culturais e da cedência a uma “pacóvia bebedeira de modernice”, isto é, uma espécie de colonização cultural que nos levará ao esquecimento de nós mesmos, daquilo que nos define e condensa a nossa identidade.
As patrulhas a que se refere o Pedro são uma expressão deste processo, face visível e barulhenta, pregando a firmeza das suas certezas absolutas e, sobretudo, condenando a eito.
Valha-nos mestre Aquilino e outros mais para arejar a enxovia.
Não posso estar mais de acordo com esta sua reflexão, bem caucionada pelo pensamento do nosso Nobel.
Camões estaria tramado. E Mozart seria crucificado por causa da Flauta Mágica.
O Bocage estaria a ferros.
Das epopeias e tragédias até ao inocente conto infantil,de tudo o que é ópera a grande parte das artes plásticas,sobre todos passará brevemente a gadanha das e dos novos inquisidores.
Vai tudo a eito. Da Bela Adormecida ao Capuchinho Vermelho.