Tempo a tempo


Maria Dulce Fernandes,

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Amor, uma cabana e uma catraia a tiracolo…  um começo pouco auspicioso para uma dupla de ostracizados da moral e dos bons costumes que quis cortar com as parcas de tesouras afiadas e línguas ainda piores e rumar a outras paragens, distantes o suficiente para não alterar radicalmente a ordem das coisas mas o bastante para nos encontrarmos um ao outro, juntos os três, sem ruído de fundo.

Escolher o Cacém foi ingénuo. Visitar a localidade distante 20 minutos de carro e 15 de comboio  dos nossos locais de trabalho, num belo domingo de Setembro à tarde, foi ingénuo. Comprar o apartamento solarengo, num doce 4.º andar a contar vindo do céu, de onde se via um ribeiro, que corria entre ervas, árvores e cabrinhas a pastar, foi muito, mas muito ingénuo.

Não demorou três anos para que o pequeno paraíso boçal se transformasse pelas artes de um qualquer desconhecido PDM, na maior selva de pedra da Linha de Sintra, onde a poluição atmosférica, sonora e humana era tão asfixiante e densa que quase se podia cortar à faca. Dizer que sair e entrar daquela Palestina requeria muito tempo, esforço e paciência,  é muito pouco.

 

Se há algo que o meu pai me ensinou e que raramente quebro, é dar valor à pontualidade.

Eu sou o exemplo vivo de um talibã da pontualidade, sou fundamentalista nesse ponto. Não faço ninguém esperar. Não me atraso. Não sou condescendente para quem falha, principalmente para com os contumazes.

 

Nunca, mas nunca me esquecerei que, recém-casados, fomos de lua de mel para Amsterdam. Devido a um acidente na 2.ª Circular, que esteve mais de duas horas intransitável, perdemos o avião. Como é possível perder-se um avião? Hummm?? A lição que retirei deste facto, foi que, independentemente de onde me encontre, chego SEMPRE ao local de embarque no transporte escolhido, duas horas mais cedo do que nos é indicado no título de transporte. Há sempre um livro que ajuda a manter viva a eficiência da pontualidade.

A TAP entendeu e reemitiu o bilhete para o dia seguinte graças à simpatia da KLM, e lá fomos a caminho  do frio, dos moinhos, dos tamancos, das flores, do gouda… e do haring, cru, odoroso, intenso… uma semana e já era uma iguaria.

 

De volta ao Cacém, retomámos os nossos hábitos diários, tentando contornar situações complicadas e exasperantes que, se ainda o são em 2022, como o não seriam em 1980? Estoicamente sobrevivemos durante 19 anos à custa de muita abnegação.
Foram tempos muito difíceis, mas deixaram recordações maravilhosas e inesquecíveis e uma imensa saudade, principalmente no que toca ao respeito entre as pessoas, termo já descontinuado nas mentalidades de última geração.

Só a de partir 2000 a talibã da pontualidade conseguiu adquirir para si um pouco de um dos bens mais preciosos do mundo e que tão dificilmente se encontra disponível. Dá pelo nome de tempo e é raro não estar esgotado, ou é produto de primeira necessidade e é coisa rara de encontrar nos escaparates.

 

(Foto Google)

 

32 comentários em “Tempo a tempo”

  1. tive sempre em conta
    “O comportamento face à pontualidade representa aquilo que a pessoa é como profissional. Ou seja, como encara as suas responsabilidades, como gere e controla o seu tempo, como se posiciona face aos compromissos, como compreende o seu papel face aos resultados da empresa e como se posiciona face aos restantes colegas de trabalho”
    sou o tarado da organização único na família

    se pudesse vivia no campo. a cidade é selva cheia de selvagens e perigos vários, como o crime e a pobreza

    1. Viver fora dos grandes centros urbanos, oferece, para além da qualidade de vida, paz e tranquilidade.
      Viver no Campo também era uma série que passava na TV no século passado. Mostrava que não basta querer, tem que se gostar mesmo.

        1. Perfeitamente de acordo, o da pobreza no interior é hoje uma questão muito discutível.
          A pobreza nas grandes cidades é muito mais complicada e está terrivelmente disfarçada , não há horta nem própria nem do vizinho (lembrei-me da Drª Graça Freitas!), não dá para criar galinhas, coelhos ou porcos num 2º andar esquerdo, os rendimentos de trabalho equiparam-se, as reformas mais baixas equipararam-se e em Lisboa não dão para o mesmo, há aqui uma “paridade do poder de compra” que faz muita diferença (fora as tentações consumistas).
          Quanto ao crime no campo é algo mais pontual, mais “dirigido”, não é “avulso” como nas grandes cidades, onde algo nos pode cair em cima em qualquer altura sem termos nada a ver com o assunto e vindo nem imaginamos de onde, basta sair à rua.
          Sei do que falo, vivo metade do ano no centro da capital e a outra metade numa pequena vila a 200 kms, as pessoas da cidade ficam sempre muito espantadas quando o citadino que toda a vida fui lhes diz que lá é que está mesmo bem.
          Para muita gente saír do bulício das cidades é um problema porque ficam mais sózinhos consigo próprios e muitos não se dão bem com isso.
          Eu dou-me muitíssimo bem comigo.

  2. “Devido a um acidente na 2.ª Circular, que esteve mais de duas horas intransitável, perdemos o avião.”
    Quem vai de metro ou de comboio raramente perde o avião.

      1. Bem visto. Felizmente nos últimos 40 anos houve muitos avanços a nível da mobilidade em Lisboa e, para muitos lisboetas, a única preocupação com o trânsito é mesmo com os condutores que não sabem que nas passadeiras é para parar.

        1. Desde o Aeroporto?
          Qualquer estação, do Cacém ( ou de Sintra, já agora) até ao Rossio só tinha acesso ao Aeroporto pela 2a Circular de carro, autocarro, a pé, sei lá, balio, e você , que não é parvo, sabe disso. Só fala para não estar calado.

    1. nunca soube onde fica a 1ª circular
      desde 72 com maiores intermitências morei sempre na freguesia de S. Domingos antes da ponte sobre a Alameda Espírito Santo inaugurada pelo lacrimijante sampaio com pompa e circunstância

  3. Costumo dizer que a pontualidade me tem deixado solitário na maior parte das vezes.

    O tempo é o bem mais precioso, esgota-se inexoravelmente.
    E não há ninguém mais ocupado que um reformado que soube preparar a reforma.

    1. Isso é que é! Entre passeios, hidroginástica, cinema, biblitecas e livrarias, caminhadas, etc. , estou a tentar fazer uma ” Agenda de Reformada” o que se Deus quiser vai acontecer para a ano, e quero ter referências para o dia a dia. Já trabalhei 46 anos, já chega.

      1. Sempre tive “hobbies”, mesmo quando trabalhava 10 horas por dia (dormia 6, tinha folga).
        Aos ” hobbies” , agora com maior disponibilidade, juntei longas caminhadas urbanas diárias, ver bem e parado tudo aquilo que, durante anos e anos, ao volante, mal sabia que existia.

        A certa altura da vida li algures que a nossa reforma irá ser o que forem os três primeiros meses e assim, no dia a seguir, já estava a fazer o que depois nunca deixei de fazer.
        O pior são os que resolvem não fazer nada nos primeiros tempos e depois logo se vê, raramente conseguem sair daquela modorra, como tenho verificado.

        1. Para já só posso construir castelos no ar, mas espero estar recuperada o suficiente para poder fazer o que acima mencionei, poder ir para fora , cá dentro poder ir para fora mesmo… por exemplo, conheço muito mal o Alentejo e a Costa Vicentina. Vão estar no primeiro roteiro. As trilhas de caminhadas, no Monsanto, no Estádio Nacional, no Passeio Marítimo, são suficientes para ma por dia , dia sim, dia não etc.et .

  4. Maria Dulce Fernandes, como eu a compreendo, pelo ‘Tempo a tempo’ vejo que também caiu na armadilha.
    Então viver em Lisboa, mesmo que fosse perto da Av. de Roma, querer casamento apartamento e trabalhar nos Restauradores, quem é que não caia na armadilha de, no início dos anos 1970s, ir viver para a linha de Sintra com o comboio à porta do emprego do emprego?
    A Amadora muita mal-vista, Queluz sem construção, Massamá nem o comboio lá parava, só o Cacém a cerca de vinte minutos do emprego e com casas novas de rendas 1200$00, a dez minutos da Estação, quem não caía na armadilha.
    Depois dos primeiros anos, sem correrias e com lugar sentado no comboio, veio uma espécie de terramoto com inversão do filme e nasceu a maior e escandalosa urbanização às portas de Lisboa com o beneplácito da CM de Sintra. E já não havia fuga do aroma e da doçura da flor carnívora que se transformou o Cacém.
    Sobre o cumprir horários sou enervante cumpridor. Sempre fui cumpridor de horários e talvez por ter sido dependente de horários dos comboios, fiquei um enervante cumpridor de horários.
    Até diziam ‘cumpridor do horário é ele, mas tem aquela mania de sair sempre à hora’.

    1. O Cacém apenas tinha( e provavelmente ainda tem) dois problemas: entrar e sair. Tinha tudo à mão, tudo. Do comboio até casa a pé, passava no talho, na frutaria, na padaria, na peixaria, na livraria, na farmácia… Em 30 minutos trazia géneros frescos para as refeições. Para isso era necessário esperar numa fila medonha durante quase uma hora, para entrar no comboio, fosse em Benfica, Amadora, Demais ou Santa Cruz.

    2. “(…) a maior e escandalosa urbanização às portas de Lisboa com o beneplácito da CM de Sintra”. Não merece a dignidade de “urbanização”, má que fosse (a não ser como crime – crime continuado e absolutamente impune – de urbanismo). Foi, é, construção desenfreada, pura e dura, com a sôfrega e venal bênção do poder. A quem renovamos repetidamente o tal “mandato democrático”. Em Sintra e tantos outros lugares.
      País sem salvação.

      1. A “(…) a maior e escandalosa urbanização às portas de Lisboa com o beneplácito da CM de Sintra” foi há 50 anos e já não tinha salvação?
        Vendo bem as escandaleiras continuaram, houve algum remédio com novas construções e ainda não fomos pro inferno.

        1. “Vendo bem as escandaleiras continuaram, houve algum remédio com novas construções e ainda não fomos pro inferno.” É a sua opinião. Começando por esta sua afirmação: não fomos ainda, seguramente, para o inferno se o seu critério de avaliação tiver como porta do inferno alguns países onde o objectivo principal de grande parte da população é saber quando e em que consistirá a próxima refeição; e não pela entediante maçada de escolher na abundância. Por cá não estamos ainda aí: não será de facto, até ver, tão grande parte da população e ainda há estruturas de apoio que a “sociedade civil”, melhor ou pior, vai assegurando enquanto o estado arrecada os seus impostozitos até sobre essa sua actuação. Mas o panorama não é animador, decididamente, se o critério for outro: talvez o, se calhar demencial a seus olhos (há sempre quem se delicie na mediocridade), de olhar para países com o nosso nível de fiscalidade e outros níveis de vida e de retorno dessa fiscalidade. Fiscalidade e, em termos gerais, de actuação da administração pública.
          Quanto à sua interrogação: os últimos cinquenta anos (recorrendo ao período que invoca) demonstram uma fortíssima alergia do Soberano, o eleitor, ao progresso que exceda o simples acumular de cimento, tijolo e alcatrão. Dispensando até, melhor: rejeitando reiteradamente, uma tal acumulação ordenada. Para usar uma palavra da moda: uma acumulação sustentável. Esse tipo de “progresso” e uma jamais saciada devoção por uma vida, com sorte, medíocre e largamente dependente do subsídio, da ajuda, do apoio, da isenção, concedidas como esmola por um poder que, para o fazer (e fazê-lo afinal de forma perfeitamente insuficiente, hipócrita, demagógica, mas anunciada como incansável e patriótico esforço de um poder incondicionalmente entregue ao serviço do povo), actua como um imparável eucalipto fiscal, castrando a economia e vicejando no metódico embrutecimento da população.
          O soberano, demonstram-no os resultados eleitorais (e, admita-se, a escolha que a eles se regularmente se apresenta), gosta assim. De modo que o ciclo apenas se torna mais e mais vicioso.
          Talvez para si a salvação seja isto.

    3. Abençoada linha de Sintra. Não fosse ela e o trânsito em Lisboa seria ainda mais caótico do que já é.

      1. Sim, a Estação no Rossio dava para ter havido um maior desenvolvimento da cidade para aqueles lados de Sintra, em vez de Alvalade que também tem o comboio, mas nunca foi utilizado como transporte para a Baixa.

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