Como o bom exemplo deve vir de cima, nada como olhar para Norte e considerar o caso de Ayres Gonçalo, jovem alfaiate portuense de currículo notório e notado. Nesta ou noutra estação o dito não deixa – ao que tudo indica literalmente – créditos por mãos alheias, fazendo de si escaparate à medida.
Não tenho quota, por isso digo: se fosse cavalheiro endinheirado em busca de fato como-deve-ser já saberia a que porta bater.
[Fotos: (c) Alfaiate Lisboeta]
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Aproveito para te dizer (peço licença) uma coisa que não te disse no post anterior e que carece de correcção (humildemente), Ana Cláudia.
Aquilo a que chamaste «um fato sem gravata» bem ilustrado pelo segundo exemplo do Cary Grant (a foto de hoje também serve) não é um fato sem gravata pela simples razão de que não é realmente um fato.
Os exemplos mostram casacos soltos, ou blazers, que se combinam com calças soltas e camisas. Se o conjunto for de bom gosto, tanto faz que a camisa fique aberta ou que se use gravata.
Se fosse verdadeiramente um fato, um fato completo de casaco e calças, usar gravata ou não já não é indiferente. Para uns, um fato completo requer gravata obrigatoriamente, para outros não, mas o certo é que um caso e outro são profundamente diferentes.
Era isto que eu queria dizer. Fica dito. A propósito: pessoalmente, um fato (o tal completo, evidentemente) requer gravata; um fato com camisa aberta (e com sapatilhas/ténis) é absurdo. Espero que não me matem.
Não sabes como fico satisfeita com esta tua polémica correcção, João, já estava para aqui a pensar que não tínhamos um único ortodoxo entre nós!
Vou preparar o meu contra-comentário e já cá volto…
São as minhas polémicas de alfaiate!

Um, dois, três, já cá estou outra vez.
Fui conferir as minhas fontes e acho que mantenho a impressão sobre a qual estava: desde final do Antigo Regime que aquilo a que no Ocidente chamamos fato masculino compreende trajes formais e informais, e inclui duas a três peças (casaco, sendo o chamado blazer um sub-tipo; colete, que tem periclitado nos últimos setenta anos; calças, já que a bermuda foi abolida pouco depois da escravatura) feitas de um mesmo tipo de tecido, ainda que não necessariamente do mesmo padrão, feitas à medida ou prontas-a-vestir. A gravata, neta estilizada do lenço (que esteve na moda quase duzentos anos, é obra), pode parecer hoje um item absolutamente indispensável, mas imagino que também ela terá filhinhas e netos…
Porém, a cultura, a tradição e o hábito (que ora faz o monge, ora não faz) também contam: no nosso caso, o fato tem duas ou três peças da mesma fazenda; já o casaco solto, o ‘blazer’ que gabaste nos casos apontados, não é fato e sempre (repito: sempre) foi muito bem sem gravata ou com ela.
Não compreendo o teu conceito de peça ‘solta’, mas já vi que não chegamos a acordo nesta matéria: então um blazer e umas calças do mesmo tecido mas, por exemplo, de cor ou padrão diferente (o que os ingleses chamam o ‘stroller’, ou lá o que é) não compõem um fato, home’? É que desde os tempos do famoso Brummel que eu pensei que sim 🙂
Só para baralhar, topa-me esta tabela combinatória de 1902 (http://upload.wikimedia.org/wikipedia/c ommons/1/16/Dress_Chart_%28Fashion%29_19 02.jpg) – chiça!
Um fato é um conjunto de duas ou três peças da mesma fazenda (cor e padrão incluídos). Fora disso, há o ‘brazer’, que é solto ou desgarrado. O exemplo típico e clássico do ‘brazer’ é o velho casaco azul escuro com botões dourados, à inglesa ou homem do mar.
Tens a certeza de que essa tabela não era do Sócrates/Teixeira dos Santos?
Ah! Outra coisa: hehehe…
Para mim, entre uma gravata e um lenço, mil vezes uma gravata.
Olha que o lenço (de pescoço) já teve épocas de grande gala, meu caro. E há-de voltar a ter, podes crer. No Porto também!
Acredito. Tudo volta, na moda como noutras áreas. As soluções são limitadas e a indústria depende da mudança. Mas, para mim, entre um lenço e uma gravata, mil vezes uma gravata. A menos que seja estupidamente larga ou tenha um padrão horroroso. 🙂
Também há lenços muito convenientes. Em situações mais emocionantes, daquelas em que a lágrima chega ao olho e o pingo chega ao nariz, nada como ter um lenço à mão. Eheheh…
É possível, sim senhor, um fato desacompanhado de gravata sem descurar tudo quanto a gravata se destinaria a assegurar. Mas é muito mais complicado, devo dizer.
Ainda assim, Ana Cláudia, tenta dar algum apoio a todos quantos, não prescindindo dela, por pudor ou outra coisa qualquer, se esforçam por inovar! 🙂
Não estou a ver-te “senhora-presidente-senhores-deputados” sem gravata!
Deixa-me aproveitar: eu que nunca te ouça aquele lugar-tornado-comum “senhoras-e-senhores-deputados”; a obrigação seria dizer “senhoras-deputadas-e-senhores-deputados” , o que é complicado e inteiramente dispensável, pelo que é correcto e bastante dizer “senhores deputados”, sem mais.
Este senhor (http://addingtonoise.files.wordpress.c om/2010/08/wscparl1.jpeg) nunca falava no parlamento de gravata!
Primeiro, eu referia-me aqui ao Adolfo, que usa gravata. Segundo, eu próprio não uso gravata, mas laço, sendo ambos adornos equivalentes — quer no estadista que foste buscar, quer em mim!
Eu percebi, a piada era também para ele, eheh. E claro que no Brasil não me safava com esta, que eles dizem gravata-borboleta.
Ó João, tu usas papillon? Essa é que eu estava longe de imaginar 😉
Hum… E porquê?
Nada contra! Coincidências. Aposto que hoje em dia tens a maior dificuldade em diversificar a colecção, ou então… tens appointment by the Queen. Errei?
Coincidências? Hum…
Erraste, sim. Tenho uma variedade considerável, em cores, feitios e tamanhos, mas tenho sempre onde ir buscar mais e boas escolhas. No Porto, claro, não nos Açores.
Claro, esquecia-me: o Porto é uma nação em tudo, até nisso. Eu sei.
Eu tenho um papillon, que nunca usei. Tartan, claro!
Senhora autora do post, senhores comentadores, embora também ache que fato, duas peças iguais, pede gravata, não deixo de concordar que fato sem gravata é possível mas é difícil. Não obstante, e apesar de muito apreciar as gravatas do Adolfo, aqui deixo uma contribuição para este interessante estudo.
http://brightonfestival.wordpress.com/20 07/05/24/bernard-henri-levy/
Pois, pois. Como aqui já escrevi, não se trata de um fato, mas sim do uso de um ‘blazer’ sem gravata, o que nada tem que se lhe aponte.
Cara Ivone, o B. Henry-Lévy é muito eficaz no cultivo daquele ar distrait et négligé; grata pelo subsídio 🙂
Estou deliciada com o teu post e com a discussão, Cláudia… e desde já confesso a minha terrível leviandade: é que para mim a roupa é uma questão… séria:-). Certamente que o hábito não faz o monge, como desde cedo me ensinaram de dedo em riste, mas eu sempre acrescentei mentalmente que não faz, mas ajuda muito.
Não é a gravata que dá à pessoa o que não tem, mas esta matéria da fuga aos esteriotipos requer cautelas, porque tropeça frequentemente na imaginação delirante dos desviantes. Logo, para esses, é melhor mesmo ficarem-se pelos cânones, bem espartilhados dentro do ABC dos iniciados. Outros voos esteticamente menos convencionais ( e eu gosto deles) requerem muito traquejo, muita segurança, muito domínio da gramática vestimentária. Sim, porque esta arte de manter o bcbg pelo meio dos golpes de ousadia é só para quem pode… convenhamos. Não é fácil criar o ‘match point’ entre os perigos que se apresentam, caricaturalmente, em cada extremo: ou o pop rural que alinha na última voga ou a versão ‘griffe extrême’ do Castelo Branco…
Também eu gosto muito de ver um fato sem gravata, mas depende do corte, da cor, da textura do tecido e da camisa que se escolhe.
Ah!!! E com gravata ou sem ela, o fundamental é que o casaco não salte à primeira ocasião para as costas da cadeira ou – pior- para os ombros do cavalheiro… 😉
Muito interessante… Vejo que sabes do que falas… Trata-se, no fundo, de se saber ou não vestir certinho ou, em alternativa, de se ter figura, bom gosto, noção da idade, da ocasião e dos anfitriões ou interpares para se sair dos cânones com um sublinhado imaginativo, mas sem se procurar chocar gratuitamente. É preciso saber-se onde passa a bissetriz do equilíbrio e, sobretudo, saber-se estar tão bem que até se possa gerir um toque negligé com a maior das naturalidades e, definitivamente, sem qualquer afectação.
Palavras-chave as tuas, João: .equilíbrio .naturalidade
.desafectação.
O que está longíssimo de ser igual a “carneirismo”, “balda”, “cinzentismo” ou ‘receio de’. E requer muito treino…
Salvo erro, era o Daninos quem contava, no Snobíssimo (uma sátira que li qd era bem novinha, décadas atrás…..) que em certa festa, alguém cumprimentava outro alguém, lendário elegante, dizendo-lhe que estava distintíssimo. O elogiado agradeceu e perguntou porque merecia tamanho enaltecimento. Resposta: – Porque reparei logo em si, diferencia-se de todos os outros!
– Ai reparou logo em mim? Então é porque não estou distinto.
Exagerado, mas bem achado.
Boa ilustração, essa. Já agora, “carneirismo”, “balda”, “cinzentismo” e “receio de” fazem-me urticária. Hehe…
Claro! Nada que combine com a provocação de um laço 😉
Concordo contigo não apenas no que toca a uma certa dose de prudência necessária aos experimentalismos vestimentais (se bem que, como disse no post anterior, os centro-europeus conseguem fazer combinações hediondas cor/talhe/padrão usando todas as peças canónicas…), se bem que quem não arrisca não se diverte, Laura.
E já que falamos em fato, também concordas com a tipologia do João?
É que para mim este exemplar do início do século XX (http://sproily.bullet-head.net/upload/u p/sproily_lounaspuku1.jpg), feito em Saville Row ou arredores, é fato apesar de não ser todo igualinho, bolas…
Sim, sim. O D. João V também andava de fato, mas era há mais tempo. Hoje já não se anda de polainitos como nos primórdios do século XX. Acreditas? Hehe…
Vivienne Westwood, Colecção para o Outono de 2011. ontent/uploads/2011/02/Vivienne-Westwood-M ens-Fall-2011-6.jpg)

(http://www.dennisbuchanan.com/blog/wp-c
Tirando as roupas muito amarrotadas para meu gosto, a ilustração serve-me para quê, exactamente?

Para evidenciar que nem ontem nem hoje o conceito de fato exclui(u) a combinação de três peças diferenciadas entre si (em cor e/ou padrão), sr. João ‘Monocromático’ Carvalho!
*Intervalo para dormir um bocadinho, até amanhã!*

Duplo engano, Ana. Nem a definição da roupagem é assim linear, nem eu dispenso a combinação de cores: tirando eventuais momentos de formalismo escuro a partir do fim do dia, sou muito mais pelos blazers (que são a minha cara) do que pelos fatos.
Dorme bem e até amanhã.
Pois são, que eu já te vi de blazer em anteriores reuniões gastronómicas!
(Divirto-me imenso a falar disto 🙂
1º- Cláudia, claro que quem não arrisca não se diverte… nem imaginas o quanto te dou razão!! Compreendo muito bem o que dizes. Mas como já nos vimos, percebeste que eu tenho umas boas camadas de tempo em cima (a mais do que tu). Isto para te dizer:
– Minha cara, nem imaginas o que eu me diverti…já pus em cima muita coisa, já fiz os ascendentes arrepelar cabelos, já me vesti fosse de Marché aux Puces, fosse de Maçã (uma loja da Av. de Roma que havia há muiiitos anos, quase antes de nasceres…), etc, etc. Fiz tudo no tempo certo;)) A síntese só veio depois.
Quer dizer: primeiro vestida a mando; depois, a necessária revolução. E por fim, veio o clássico com pimenta ;)) Talvez o círculo se feche e eu volte a ficar “freak” aos 80, como a duquesa de Alba….
2º- Gosto da vestimenta do link, claro, embora seja do princípio do século e logo, um nítido mixed entre o trajo formalíssimo que o precedeu, e o seguinte. Calças tipo fraque, mas sem fraque; ‘plastron’; etc. Um típico vestuário de transição, datado, que se aprecia mas não se desenterra assim de qlq jeito e feitio
3º- Há coisas que são o que são… Nada mais ridículo do que um homem que começa a vestir-se formalmente aos 30 e não sabe de todo andar naquilo… nota-se logo. Antes seja igual a ele próprio porque, realmente, o hábito não faz o monge.
(… e é por isso é que os meus filhos punham um blazer de vez em quando desde muito novos: escandaliza-te lá ;))
Muito bem. A propósito: ainda há dias vi a duquesa de Alba e achei que ela está o máximo; com os seus 130 anos, como sabes, ninguém lhe dá mais de 115/120…
Eheheh;)) Consigo criticá-la e ao mesmo tempo ter aquilo a que se chama saudades do futuro… Mal conservadota, ainda por cima. Mas que tiene ganas, si que las tiene… 😉 Y muchissimo dinero, por encima… (en pesetas!)
Olha, o que lhe vale, a ela, é que o Zapatero não chega a ser melhor do que o Sócrates: agacha-se todo aos poderosos e é um animal feroz com os fracos; poupa aqueles e tira a estes até não escorrer mais nada.
a 6 de Agosto de 2011 às 03:02?… uf! E se vocês se deitassem?…
João Severino, ai, ai… não sabia que era fiscal 😉 24 depois, sempre lhe digo que a culpa é inteiramente minha, pq o João é mto mais comedido. Já eu… sou um absoluto perigo em tagarelice. Quer dizer: quando me dá para aí…Que é só de quando em vez, acredite.
A culpa é minha, essa é que é essa. E mai-nada.
Os nossos comentadores são melhores que os dos outros, até pela nossa saúde de sexta à noite velam, bem haja, João Severino!
A tagarelice é saudável, Laura. Deita-se cá para fora muita coisa interessante… Bom domingo.
João Severino: essa do “deitar cá para fora” foi letal…Que horror! Regresso à lei da rolha 😉 Bom domingo tb, que mais parece de outono!
A sua resposta… é um amor!
A Maçã não era da Ana Salazar? Então eras meio vanguardista, Laura!
Acabar em Duquesa de Alba é que não se deseja a ninguém, abrenúncio!
E não me escandalizo com blazers, mas para ser sincera, devo confessar que em criança qualquer traje mais formal (em mim e nos outros) era sempre associado a uma considerável dose de desconforto e rigidez, não sei porquê.
Era da Ana Salazar? Não sabia. Aquilo era um pecado… (mas eu arranjava maneira de fazer uma mistura entre a Maçã e o Chez Elle 😉 Uma vergonha…agora até me arrepio! Mas antes isso do que um vanguardismo serôdio, não achas?
Estou a banhos, na Ásia. Uma Ásia muito chegadinha, mas Ásia. E com péssima net e este blogue, o nosso, demora muito a carregar. Volto à discussão daqui a uns 10 dias, se não esgotarem o tema.
E não, João, não tenciono, e até agora não sucedeu, utilizar o senhoras e senhores. Mas acredita que a quantidade de erros ou tiques ou vícios que nos sai da boca sem querer e ao embalo do nervosismo são tantos, que não posso garantir que a coisa não suceda. Haja sabão por perto para lavar a língua de seguida.
Sempre que eu puder ser-te útil, apita.
Palpita-me que não escolheste a Ásia certa…
Aproveita bem e um abraço.