A cena passa-se de noite numa viagem para sul rumo a Lisboa feita no início de mais um fim-de-semana.
A A8 foi sempre um troço propício a incidentes, e isso repetiu-se connosco. A meio de uma ultrapassagem, uma sombra repentina apareceu pela esquerda baixa e sacudiu toda a viatura levando a que todas a luzes vermelhas do painel de instrumentos se acendessem. Entendemos de imediato que tínhamos acabado de enviar um cão para junto do criador e que com ele tinha seguido o nosso radiador.
É vulgar dizer que os portugueses têm sempre sorte e por isso, afortunadamente, ainda conseguimos chegar à estação de serviço umas centenas de metros depois.
Ligamos à assistência em viagem e ficamos a aguardar pelo socorro. O reboque chegou e levou carro de regresso a casa. Nós insistimos para sul, de táxi.
Não fosse o taxista que nos calhou e teria sido apenas mais um episódio rodoviário.
A viagem ainda demorou mais de meia hora e no início desta segunda etapa esgotamos rapidamente a conversa de circunstância. Logo depois, e foi isso que tornou esta viagem memorável, o nosso choffeur de praça, como se dizia na minha infância, lamentou-se do seu ofício e começou a falar-nos da sua paixão.
Tinha trabalhado durante algum tempo numa loja de tintas e aí descoberto que afinar cores era o que mais gostava de fazer na vida.
Perguntou-nos a cor do nosso carro. Cinzento, disse-lhe. Mas de que marca? Epá, essa marca tem dois cinzentos diferentes. Desconhecia… está bem.
Soubemos que sabia de memória a proporção dos corantes necessários para a maior parte das cores do nosso dia-a-dia. O antigo tejadilho verde dos táxis tinha sido um quebra cabeças revelado apenas uns dias antes da loja onde trabalhava ter fechado. Mas havia muitas mais. O laranja da Galp era diferente do do PSD, o verde da BP e o do SCP ficavam a quilómetros de distância e o preto dos táxis antigos era diferente do preto dos carros funerários. A cor dos táxis modernos era fácil de afinar e depressiva de ver. Quando conduzia durante a manhã entretinha-se a imaginar como afinaria, minuto após minuto, hora após hora, as mudanças da cor do céu. À tarde continuava a folhear mentalmente as páginas do pantone e mantinha o exercício até ao pôr do sol. E mesmo no breu da noite, em cada cruzamento, encontrava novos desafios.

Esse senhor é o exemplo de pessoa que, filosoficamente, pensa noutra coisa.
Observa o mundo com um filtro invulgar e por isso vê o que poucos vêm. De facto é uma abordagem filosófica da vida.
Uma abordagem filosófica mas também cromática.
Quando uma guitarra está com um som que mete dó vem um afinador, que desafina a dor, o som desafinado passa a afinado.
Para o taxista temos de inventar uma palavra: afinacor.
Estou convencido que já não há afinadores de cor e que tudo hoje é feito por máquinas.
Não vai há muito tempo chamei um artista para pintar uma parte da minha casa, mantendo a cor. O homem apontou um aparelho à parede e sentenciou: marfim, cor marfim. E ao que me dizem, a cor actual dos automóveis tem código de fabrico.
Isto para lhe dizer que gostei muito do seu postal e lamentar que estejam a desaparecer os “afinacores”, a serem substituídos por aparelhos incapazes de filosofar.
“E ao que me dizem, a cor actual dos automóveis tem código de fabrico.”
Praticamente todos os produtos com cor, esta têm código e formula respectiva.
Sem isso nunca teríamos produtos, embalagens sempre com a mesma côr quer sejam fabricados na Europa, America ou Ásia. Algumas até são patenteadas.
Há várias apps para instalar no telemóvel para reconhecer o valor de pantone de uma cor – só uma das escalas de cor existentes.
lucklucky
Caro lucklucky,
Há aquela história de uma senhora que vai a uma loja de tintas para escolher um amarelo que imaginou para uma qualquer divisão. Depois de folhear o catálogo dos amarelos, com 228 tons, consegue dizer sem se rir: “Não tem cá nenhumas cores de jeito”.
No fundo o seu repúdio (dela) também pressupõe uma atitude filosófica.
Caro Tiro ao Alvo,
Lamentamos que as máquinas nos substituam em quase tudo, embora não passemos sem elas.
Quando as máquinas tiverem a capacidade de filosofar, só mesmo pela imperfeição nos poderemos distinguir delas. Esperemos que ainda falte muito para esse dia chegar.
parece simples, demasiado simples, e no entanto a essencia do post potencia uma analise profunda : o sujeito, o taxista agora com outra mulher, continua
a pintar as noites com a anterior.
Tema complexo.
Até o animal, nao é menos um animal.
As “páginas de Pantone” servir-lhe-iam pouco, dado que o catálogo de cores de tintas se chama RAL. Pantone é para a indústria gráfica.