Somos os sonhos que temos?


Paulo Sousa,

A cena passa-se de noite numa viagem para sul rumo a Lisboa feita no início de mais um fim-de-semana.

A A8 foi sempre um troço propício a incidentes, e isso repetiu-se connosco. A meio de uma ultrapassagem, uma sombra repentina apareceu pela esquerda baixa e sacudiu toda a viatura levando a que todas a luzes vermelhas do painel de instrumentos se acendessem. Entendemos de imediato que tínhamos acabado de enviar um cão para junto do criador e que com ele tinha seguido o nosso radiador.

É vulgar dizer que os portugueses têm sempre sorte e por isso, afortunadamente, ainda conseguimos chegar à estação de serviço umas centenas de metros depois.

Ligamos à assistência em viagem e ficamos a aguardar pelo socorro. O reboque chegou e levou carro de regresso a casa. Nós insistimos para sul, de táxi.

Não fosse o taxista que nos calhou e teria sido apenas mais um episódio rodoviário.

A viagem ainda demorou mais de meia hora e no início desta segunda etapa esgotamos rapidamente a conversa de circunstância. Logo depois, e foi isso que tornou esta viagem memorável, o nosso choffeur de praça, como se dizia na minha infância, lamentou-se do seu ofício e começou a falar-nos da sua paixão.

Tinha trabalhado durante algum tempo numa loja de tintas e aí descoberto que afinar cores era o que mais gostava de fazer na vida.

Perguntou-nos a cor do nosso carro. Cinzento, disse-lhe. Mas de que marca? Epá, essa marca tem dois cinzentos diferentes. Desconhecia… está bem.

Soubemos que sabia de memória a proporção dos corantes necessários para a maior parte das cores do nosso dia-a-dia. O antigo tejadilho verde dos táxis tinha sido um quebra cabeças revelado apenas uns dias antes da loja onde trabalhava ter fechado. Mas havia muitas mais. O laranja da Galp era diferente do do PSD, o verde da BP e o do SCP ficavam a quilómetros de distância e o preto dos táxis antigos era diferente do preto dos carros funerários. A cor dos táxis modernos era fácil de afinar e depressiva de ver. Quando conduzia durante a manhã entretinha-se a imaginar como afinaria, minuto após minuto, hora após hora, as mudanças da cor do céu. À tarde continuava a folhear mentalmente as páginas do pantone e mantinha o exercício até ao pôr do sol. E mesmo no breu da noite, em cada cruzamento, encontrava novos desafios.

10 comentários em “Somos os sonhos que temos?”

      1. Uma abordagem filosófica mas também cromática.
        Quando uma guitarra está com um som que mete dó vem um afinador, que desafina a dor, o som desafinado passa a afinado.
        Para o taxista temos de inventar uma palavra: afinacor.

  1. Estou convencido que já não há afinadores de cor e que tudo hoje é feito por máquinas.
    Não vai há muito tempo chamei um artista para pintar uma parte da minha casa, mantendo a cor. O homem apontou um aparelho à parede e sentenciou: marfim, cor marfim. E ao que me dizem, a cor actual dos automóveis tem código de fabrico.
    Isto para lhe dizer que gostei muito do seu postal e lamentar que estejam a desaparecer os “afinacores”, a serem substituídos por aparelhos incapazes de filosofar.

    1. “E ao que me dizem, a cor actual dos automóveis tem código de fabrico.”

      Praticamente todos os produtos com cor, esta têm código e formula respectiva.
      Sem isso nunca teríamos produtos, embalagens sempre com a mesma côr quer sejam fabricados na Europa, America ou Ásia. Algumas até são patenteadas.

      Há várias apps para instalar no telemóvel para reconhecer o valor de pantone de uma cor – só uma das escalas de cor existentes.

      lucklucky

      1. Caro lucklucky,
        Há aquela história de uma senhora que vai a uma loja de tintas para escolher um amarelo que imaginou para uma qualquer divisão. Depois de folhear o catálogo dos amarelos, com 228 tons, consegue dizer sem se rir: “Não tem cá nenhumas cores de jeito”.
        No fundo o seu repúdio (dela) também pressupõe uma atitude filosófica.

    2. Caro Tiro ao Alvo,
      Lamentamos que as máquinas nos substituam em quase tudo, embora não passemos sem elas.
      Quando as máquinas tiverem a capacidade de filosofar, só mesmo pela imperfeição nos poderemos distinguir delas. Esperemos que ainda falte muito para esse dia chegar.

  2. parece simples, demasiado simples, e no entanto a essencia do post potencia uma analise profunda : o sujeito, o taxista agora com outra mulher, continua
    a pintar as noites com a anterior.

    Tema complexo.

    Até o animal, nao é menos um animal.

  3. As “páginas de Pantone” servir-lhe-iam pouco, dado que o catálogo de cores de tintas se chama RAL. Pantone é para a indústria gráfica.

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