No Avante!, a receita do costume, que remonta aos tempos da Guerra Fria: há os ditadores bons, que são os “nossos”, e os ditadores maus, que são todos os outros. Na perspectiva do órgão oficial do PCP, o milionário Muammar Kadhafi, no poder há 42 anos, é o ditador “bom”. Ou antes: é o “pretenso” ditador, injustamente acusado de “supostas violações” e da “alegada repressão” de direitos humanos. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, garante supremo da legalidade internacional, impôs esta noite, com o respaldo da Liga Árabe, uma zona de exclusão aérea destinada a impedir o ditador de massacrar o seu próprio povo. Russos e chineses, em sintonia com a administração Obama e as chancelarias de Paris e Londres, viabilizaram esta resolução em Nova Iorque. Não importa: o Avante! continua a mobilizar-se em defesa de Kadhafi. Com esta extraordinária argumentação: no Magrebe e no Médio Oriente decorre um grande levantamento popular contra as ditaduras, excepto no caso da Líbia, onde a situação é inversa. Aqui, pelo contrário, existe um “cerco imperialista” a que Kadhafi – qual Che Guevara do Magrebe – resiste com heroísmo e a solidariedade do PCP.
Esta vocação do órgão oficial dos comunistas portugueses em defender alguns dos piores canalhas da cena política internacional deslustra todas as proclamações antiditatoriais que o partido liderado por Jerónimo de Sousa possa fazer noutros quadrantes. O que acharão deste descarado apoio à ditadura líbia nas colunas do Avante! alguns comunistas com presença regular nos ecrãs televisivos, nas colunas de jornais e na blogosfera, como Octávio Teixeira, António Filipe, Rui Sá, Vítor Dias, Carlos Carvalhas, António Vilarigues, Honório Novo e Ruben de Carvalho?


“Russos e chineses, em sintonia com a administração Obama e as chancelarias de Paris e Londres”
Isto é uma distorção deliberada da realidade (nada que surpreenda num jornalista): enquanto que os EUA, a França e o Reino Unido votaram a favor da resolução, a Rússia e a China abstiveram-se. Ou seja, votaram de forma diferente.
A Rússia e a China podiam ter vetado a resolução, condenando-a ao fracasso: são dois dos cinco países com direito de veto na ONU. Em vez disso abstiveram-se (tal como a Alemanha e a Índia), viabilizando-a. Tal como a abstenção do PSD viabilizou o Orçamento de Estado para 2011. Quem não percebeu à primeira tinha o linquezinho para a notícia da BBC que eu facilitei aos leitores. Mais estranho é não ter percebido sequer à segunda.
«Distorção deliberada da realidade», portanto, é a sua. Nada que surpreenda, num ‘liberal de esquerda’.
Pois, a abstenção do PSD viabilizou o Orçamento de Estado para 2010, o que não dizer que o PSD esteja “em sintonia” com esse Orçamento ou, muito menos, com o governo PS. Quer apenas dizer que o PSD não quer inviabilizar.
Ou, outro exemplo, Pôncio Pilatos não estava “em sintonia” com as pessoas que pediam a morte de Jesus; viabilizou essa morte, mas lavou dela as suas mãos, pois não estava sintonizado.
Para mim, uma abstenção não é um voto a favor (nem contra). Quem se abstem não está “em sintonia” com quem vota a favor.
Quanto ao linque, esse é um truque habitual dos jornalistas: escrevem no cabeçalho da notícia a falsidade que querem transmitir aos leitores e depois, no texto integral da notícia, colocam lá aquilo que na verdade ocorreu. Dessa forma não podem propriamente ser acusados de esconder a verdade… apenas mentem no cabeçalho.
Se não lhe faltasse em leituras o que lhe sobra em descaramento, você teria a obrigação de saber que em política interessa sobretudo o resultado alcançado, não as vias processuais para obter esse mesmo resultado. O facto é este: russos e chineses poderiam ter condenado a resolução ao fracasso recorrendo ao direito de veto de que dispõem desde 1945 no Conselho de Segurança. Isso não sucedeu, antes pelo contrário: através da abstenção, Moscovo e Pequim viabilizaram a resolução que entrou imediatamente em vigor e está já a produzir resultados. O que constitui uma vitória diplomática objectiva da administração Obama.
Ninguém confundiu abstenção com voto favorável, ao contrário do que você afirma. Mas a sintonia política, no essencial, é inegável. De resto, a figura bíblica de Pilatos, que você aqui convoca, é bem capaz de vir a propósito.
“Truques”, “falsidades” – tudo isso é paleio insultuoso e rasteiro de quem não tem capacidade argumentativa. Aliás, não é apenas a capacidade argumentativa que lhe falta. Lembro-lhe o que você escreveu no seu blogue na passada quarta-feira:
«O regime líbio está a, progressivamente, encurralar os rebeldes e encaminha-se para, rapidamente, ganhar a guerra civil. Os Estados Unidos recusaram-se a intervir militarmente. O Reino Unido e a França, sem o apoio dos EUA, também não intervêem. Tudo de acordo com as minhas previsões.»
As suas «previsões» são idênticas à do Professor Karamba, lamento informá-lo.
O Reino Unido e a França, sem o apoio dos EUA, também não
hummmmmmm parece que nao e bem assim se eu fosse politico dava um chupa chups ao presidente frances e outro ou libio parecem 2 criancas que querem brincar com vidas dos outros
E o Bahrein?
Do Baraine e do Iémen não convem falar, pá. Aí os ditadores de serviço estão autorizados a cometer todas as barbaridades, que ninguém vai lá meter o bedelho com zonas de exclusão aérea nem outras foleirices dessas. Elas estão reservadas para os ditadores de quem o Ocidente não gosta, ou de quem gostava mas já se fartou.
As medidas contra a Líbia inserem-se dentro da legalidade internacional. Estão respaldadas pela Resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada sem votos contra, e contam com o apoio da Liga Árabe e da União Africana. O Luís Lavoura chama-lhe “foleirice”: eu chamo-lhe uma conquista civilizacional. Os maiores ditadores deste planeta (designadamente Kadhafi, o ditador há mais tempo ainda em funções em todo o mundo) têm de saber que não vale tudo, têm de saber que não podem virar as armas contra o seu povo sem uma reacção enérgica da comunidade internacional. A soberania nacional não é um direito ilimitado, como concebia o liberalismo romântico do século XIX: contra situações de manifesta injustiça existe hoje – e muito bem – o direito de ingerência internacional, desde que conte com o apoio da Organização das Nações Unidas. Por esse motivo aplaudimos também a intervenção da ONU em 1999, em defesa da vida e da integridade dos timorenses ameaçados pela ditadura indonésia. Até por este precedente nós, portugueses, temos a obrigação de mostrar solidariedade ao povo líbio, não ao ditador da Líbia.
Não me admira que o julgamento dos comunistas ortodoxos considere Kadhafi um menino. Compare-se com os senhores ditadores: Estaline e Mao. Diria que são as sequelas da história comunista que lhes embacia a realidade. Quanto ao voto da resolução: a lógica política da abstenção é contrária à do veto e favorável à da viabilização; era discutível o jogo de palavras se a abstenção significasse uma posição negativa. Portanto, a meu ver, o seu jornalismo está impecável: informa. Ademais, nestas circunstâncias, relativamente à política externa, a Rússia e a China procuram interferir o menos possível nos assuntos internos dos outros países, daí que a abstenção não só os tira de cena como ilumina o palco dos americanos. Lá vai o capitão América outra vez…
Obrigado pelas suas palavras, Henrique. Estou de acordo com o que escreveu, naturalmente.
Ultima hora sobre a invasão da Líbia.
Navios norte americanos estão neste a atacar Trípoli com mísseis.
São aqueles famosos, que antes de explodir perguntam se as pessoas que vão ser mortas são civis ou militares.
Criminosos, povo líbio já começou a ser massacrado.
O povo líbio está a ser massacrado pelo ditador há muito tempo. É pena que você e alguns dos seus camaradas só agora percebam isso.
Alguma vez estiveste na Libia?
Há 6 meses era um país mais seguro do que Portugal, com excelentes hospitais, redes de água exemplares, escola que funcionavam, tudo gratuito.
Os mercados estavam cheios e com variedade, as pessoas desfrutavam de uma liberdade que não vi em nenhum país islâmico.
Trabalhei na Líbia 9 anos e espero voltar um dia, com Gadhafi ou Kadhafi, ou como lhe chamem.
O único problema que da Líbia era o desemprego crescente. Mas esse é também o problema de toda a Europa.
Os ataques terrorista da OTAN contra a Líbia justificam todo o tipo de ataques de libios contra os terroristas franceses, ingleses, italianos, americanos etc.
Em terrorismo, cada um usa as armas que tem: a OTAN usa aviões, navios, mísseis, etc, os libios devem usar o terrorismo que podem utilizar.
Agora a justificação real para este ataque:
Não tem a ver com o apoio a radicais armados que combatem Gadhafi, mas sim com a necessidade de lutar pelo “euro”, controlando o petroleo e, sobretudo, abrindo um mercado para as empresas europeias reconstruir o que os seus aviões terroristas destroem.
A mafia das reconstruções está intimamente ligada à mafia da guerra – por isso só se atacam país com potencial económico para a reconstrução.
Quem apoia as acções terroristas da OTAN é um terrorista e não tem legitimidade para se queixar de eventuais actos terroristas de guerrilha.
Ainda bem que existe um paraíso na terra: a Líbia de Kadhafi, que tão bem conheceste. Uma democracia pujante, com eleições periódicas, partidos políticos, uma imprensa atenta e livre, liberdade sindical e um líder que apenas está no poder há 42 anos. Tu e o Luís Amado e o Silvio Berlusconi puderam ser fãs desse democrata iluminado que deu segurança aos líbios e paz nas ruas, tal como o democrata Oliveira Salazar fez durante 40 anos neste nosso doce Portugal, onde nesse tempo tão saudoso não havia criminalidade nem desemprego, as fábricas funcionavam, a frota pesqueira andavam ao atum e ao bacalhau e os campos produziam boa vinha e bom olival. A bem da nação.
Volta lá daqui a seis meses e diz aos líbios aquilo mesmo que escreveste agora aqui. Eles devem gostar muito de te óuvir. Diz-lhes que eles não tinham qualquer razão em revoltar-se contra o sábio e benevolente líder, tal como os portugueses não tiveram nenhuma razão em protestar contra o sábio e benevolente Salazar. Diz-lhes que uma resolução do Conselho de Segurança apoiada pela Liga Árabe é “terrorismo” e que o direito internacional é uma falácia. Eles certamente gostarão imenso de te escutar.
É pena que o Sr. não perceba que o povo líbio é o único com direito a escolher o seu destino.
E apoie um acto de pirataria e terrorismo.
O povo palestiniano está a ser massacrado por quem?
Que internacionalismo da treta, Sr. Ratazana. Por esse seu raciocínio, os timorenses ainda hoje estavam debaixo da pata dos indonésios. E o que são hoje os Estados Unidos talvez ainda hoje fossem uma colónia britânica: se não tivessem recebido ajuda internacional, nomeadamente da França, teriam sido derrotados pelas forças coloniais de Londres durante a guerra da independência.
O direito de ingerência, com cobertura da ONU, está hoje consagrado na lei internacional, lamento dizer-lhe. Na guerra civil líbia não se pode estar do lado do ditador dizendo que se está do lado do “povo”. Nenhum ditador representa o povo.
Timor foi anexado pela Indonésia por ordem dos EUA.
E os colonatos Israelitas, na Palestina já estão de acordo com as resoluções da ONU contra Israel?
Aqui a Coligação dos Piratas Terroristas, não intervém apenas por um motivo a território é pobre e O saque não compensa o investimento.
Sr. Pedro nunca estarei ao lado de piratas e terroristas.
Se nunca estará ao lado de terroristas, não poderá estar ao lado do Kadhafi, que foi amigo do peito do Abu Nidal, do Andreas Baader e do Carlos o Chacal.
Eu não estou ao lado do Kadhafi , estou ao lado do povo líbio.
Outros estão ao lado da Coligação de Piratas e Terroristas, afim de garantir o saque das riquezas libanesas.
Já o senhor não tem pejo nenhum em acompanhar com os piratas e terroristas.
Tem razão. O senhor Kadhafi nunca teve pejo em acompanhar (e financiar) piratas e terroristas. Veja-se o que aconteceu ao voo comercial que se despenhou sobre Lockerbie, sob ordens do ditador líbio. Bastaria isso para o conduzir ao Tribunal de Haia como réu de um crime contra a humanidade.
Congratulo-me por saber que você está ao lado do povo e não do ditador. Não se pode estar simultaneamente com o povo e com um ditador: há que escolher o lado em que se está.
Eu não tenho problema apoio o povo Líbio.
E estou contra os que estão a matar o povo, pois não acredito como ficou demonstrado no Iraque, Afeganistão que o povo líbio seja poupado.
Outros há que defendem as carnificinas, os roubos e os actos de pirataria como a Coligação Internacional de Terroristas e Piratas.
As Farc aos anos que combatem o governo colombiano, o a coligação dos piratas nunca se preocupou com isso.
E você muito menos.
Se está contra os que estão a matar o povo, está contra o ditador. Gostei de saber.