Sócrates revisitado


José Meireles Graça,

O almoço era à 1H, perto de Chaves, com gente de sólidas credenciais reaccionárias, a do costume, para um cozido à portuguesa de antemão apalavrado.

Gosto de chegar a horas, o que faz com que não poucas vezes chegue adiantado, mesmo sabendo que aquela tropa é portuguesa, o que quer dizer que em geral espero.

Vi no GoogleMaps que eram à volta de 90 km, passando por Fafe, Arco de Baúlhe e Ribeira de Pena, e saí por volta das 11H30. Parei na bomba de gasolina perto de casa para o primeiro café, que o dono generosamente ofereceu, e no Alvão para o segundo. Solidarizei-me com a moça, que estava a passar o chão a pano, dizendo: ui que chatice!, ao que ela retorquiu que era vida de pobre. Ponderei filosoficamente que pobres hoje éramos quase todos e a rapariga, de aspecto atraente, observou que sim senhor, sobretudo de espírito, mas que ela, graças a Deus, estava quanto a isso bem servida. Concordei, claro, que não sou desses que andam por aí a discutir nas bombas de gasolina com empregadas bem-apessoadas.

Esperei um quarto de hora e foram chegando – fomos para dentro já eram quase 1H30, o que até calhou bem porque essa é a minha hora de almoçar, informação que não escondo por ser de grande relevo.

As entradas eram poucas mas excelentes e o cozido brilhou a grande altura. O tinto rompia meias solas com dignidade e o branco não bebi. Incluía fígado de porco, que não estou habituado a ver e que provei a medo, tendo ficado – pelo menos daquele – entusiasta.

E então é só isto, a história não tem moralidade? Tem: antes do sr. Eng.º Sócrates era pouco provável que nos lembrássemos de ir almoçar a Chaves (um dos convivas vinha de Madrid, com a mulher espanhola e os quatro filhos, os outros do Porto, e apenas eu do altar da Pátria) e, se semelhante ideia nos passasse pela cabeça, as horas de saída teriam de ser outras e quem não fosse ao volante chegaria provavelmente enjoado.

Era assim. E agora que aquela personagem sumiu quase completamente das notícias, quem o levou num andor querendo fazer esquecer que ganhou eleições limpamente, quem nele votou pretendendo que foi enganado, e quem o gabou na comunicação social tendo agora novos iluminados para incensar, venho eu que sou eu dizer que deixou em herança uma rede de autoestradas que foi um grande benefício.

Esta reflexão profunda comuniquei a pessoa de discernimento, que me disse: pois sim, empenhámo-nos até aos cabelos e se calhar o que deveríamos ter promovido era o transporte por caminho de ferro, que isso dos automóveis, dos combustíveis fósseis e não sei quê não está com nada.

Não achava na altura, e não acho agora, que o investimento em autoestradas tivesse sido mau, que o saudoso Medina Carreira (que faz muita falta, não deixou herdeiros) tivesse razão neste ponto, e que tenha sido por causa das autoestradas que o país não se desenvolveu. Infelizmente, a “aposta” num só factor, sejam as autoestradas seja a educação, não gera desenvolvimento por si: é preciso um conjunto deles, o maior sendo a liberdade económica.

De resto, o negregado Sócrates deixou as autoestradas. E o seu dilecto seguidor e antigo braço direito, que está aí impante e que talvez ganhe as eleições, vai deixar o quê, além da dívida que fez crescer?

A TAP. I rest my case.

11 comentários em “Sócrates revisitado”

  1. Realmente se começarmos a associar as heranças com as pessoas, já temos aí um bom rol.
    Sócrates: Autoestradas
    Cavaco: BPN
    Portas: Submarinos
    Passos: Tecnoforma
    Cristas: Eucaliptos
    No fim se formos fazer o saldo chegamos à conclusão que todos roubam, mas uns roubam e fazem alguma coisa, enquanto que os outros roubam e não fazem nada.

    1. Nada a opôr a que cada um chegue às conclusões que entende, mesmo que sejam disparates. No caso não me parece que nenhuma das personalidades que elencou tivesse ficado por ladrão, ao contrário de Sócrates.

      1. Claro, os disparates são só para um lado. Se calhar é porque eu só nasci uma vez.
        No caso dos submarinos, houve corrupção, mas foi só do lado alemão, do lado português foi limpinho.
        Podem não ter ficado por ladrões mas olhe que da fama não se livram.

        1. Deviam ter sido pelo menos 6 submarinos.

          Entretanto este governo está a acabar com a Marinha – andam agora em patrulha no Golfo da Guiné com navios sem armamento. E as restantes forças seguem o mesmo caminho.
          Ninguém diz nada. A mais desonesta profissão está calada ou não fosse isso mesmo…
          Isto quando todos à volta de Portugal se estão armar: Marrocos, Espanha, Argélia.

  2. A prosa ao nível do cozido…, pelo menos. A conclusão avinagrada, comme deve de ser para as iscas (já quanto ao fígado do porco, assim aludido, também não me parece que já o tenha conhecido)

    1. Obrigado, José. Se o engenheiro tivesse deixado uma rede de teletransportes haveríamos de nos encontrar um dia destes num sítio qualquer à volta de uma mesa. À tua escolha, sei que não enfiava um barrete.

      1. Ando aqui a vasculhar uma réstia de ânimo que me permita cruzar o Trancão… se o garimpo for bem sucedido indagarei onde é esse fígado cozido (já aqui perguntei a dois gastrónomos, também leitores do DO, que ficaram surpresos… coisa a provar, ficou decidido)

  3. É que gostei do texto. E sem preferência particular por José Sócrates (nunca fui muito à bola com ele), tenho ouvido dizer que há autoestradas onde quase não existe trânsito. Pode ser mentira, não fui verificar. Mas é a primeira vez que falo sobre. Também não sei se o caso dos submarinos é igual ao de José Sócrates. Ou o de Cristas. Ou de Outros. E, embora também não simpatize especialmente com António Costa penso ser cedo para os comparar. Mas isto sou eu. Agora que apreciei a sua descrição, é verdadinha.

    1. tenho ouvido dizer que há autoestradas onde quase não existe trânsito

      É o que menos falta.

      Há um mês espraiei-me na A17 entre Figueira da Foz e Leiria. Três faixas de rodagem sem um único carro num domingo ao meio dia. Fazíamos as curvas sempre pelo raio mais pequeno, passado de uma faixa para a outra sem pôr o pisca. A 160 à hora.

    2. Autoestradas pagas (algumas bem pagas, como a A14) são porreiras, mas não num país de pobretanas.
      A A8 foi durante algum tempo uma boa alternativa à A1, mas a partir do momento em que puseram uma portagem na CREL, lá se foi o tráfego.

  4. Entao o alcatrão não era o legado do Cavaco?
    As autoestradas foram um grande desenvolvimento, ainda me lembro do que era passar pelo Alto da Serra na N1.
    Mas também há algumas que só servem mesmo para uma almoçarada dominical quando o rei faz anos.

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