Imagino-a a chegar a casa, abrir o computador, estender as mãos para o teclado e despejar o que a rua lhe trouxe. A mãe preocupada não é sobre uma personagem. É um universo, uma constelação de vidas, famílias, dramas que se cruzam e ganham ordem e sentido nos posts deste blogue. Fiquem a conhecer, desde já, os Pereira:
O que verdadeiramente desgosta o senhor Pereira é que o neto tenha sido nomeado como um lavrador. A Joaquim, diz, falta nobreza e estilo, há de trazer sempre à lembrança a ideia de couves, galochas, tratores, bosta de vaca, se me desculpa a indelicadeza da linguagem. Está acocorado junto do mercedes e tira as medidas ao risco que descobriu ainda agora na lateral traseira, perto da roda. E se dá na cabeça de alguém chamar-lhe Quim? Ou Quinzinho? Nem pense nisso, sou eu a tranquilizar o senhor Pereira, que leva o dedo indicador à língua e, com uma entrega comovente, quase terna, tenta devolver a perfeição à chapa metalizada do automóvel. Garanto-lhe: na zona da cidade onde são arquitetadas as regras da boa figura que, por imitação, vão alastrando até à ala oriental e aos subúrbios, têm nascido Joaquins. E nos colégios que monopolizam o topo dos rankings há cada vez mais assim chamados. Alguns brilham no quadro de honra, não só pela prova quantificada dos seus dotes intelectuais como pela obediência. Dê-lhes tempo, senhor Pereira, e os Joaquins hão de substituir a dinastia de salvadores e santiagos que destronaram a dos lourenços e bernardos, depois de estes terem acabado com a dos martins e tomás, esses implacáveis exterminadores de afonsos. Ele não me ouve. Esfrega ainda, e cada vez mais freneticamente, o risco na pintura. Com o esforço posto no vaivém do dedo, as feições dele crispam-se e os modos exaltam-se, até lhe sai um palavrão sem se dar conta nem pedir as desculpas de costume. Mas um risco destes não é coisa que se limpe ou disfarce com saliva. Uma aparência impecável exige um investimento muito mais trabalhoso.

Um blogue que não aceita comentários não merece a distinção.
Muito bem.
E se não aceita comentários anónimos, idem. Há quem não goste que o contradigam. O que importa é o argumento, não o autor.
Vejo-o como um diário. Era isso que nos diziam que os blogues seriam, não era?
Os comentários valorizam as publicações nos blogues de discussão. Ali é diferente. Contam-se histórias. Não me incomoda nada não poder comentar.
Respeito a sua opinião, mas como é que um blogue pode melhorar se não tiver um ” feedback” dos seus leitores?
É essa interacção que incentiva a sua maior ou menor visibilidade. E é o número de visitantes e participantes que conferem essa distinção. O blogue pode ter histórias muito bonitas e ser muito bem escrito mas se não tiver visitas porque é que publica?
Boa escolha, Zélia.
Adorei o que li.
Também gosto muito.
Dei uma diagonal, apressada, “olha um blog de escrita, óptimo, já é raro”. Obrigado pareceu-me mesmo interessante. É mesmo para seguir, já coloquei na minha conta feedly
Ainda bem. Abraço!
Achei a mãe preocupada muito cheia de certezas.
“Homem bonito e infeliz é quase sempre uma trapaça”
Trapaça?
Se um homem escrevesse:”mulher bonita e infeliz é uma trapaça”, ui, o que não se diria sobre o indivíduo que afirmasse tal coisa.
Dito isto, escrita leve, descontraída e sem sacrificar árvores.
Ui, ui!
Haha!
“…e os Joaquins hão de substituir a dinastia de salvadores e santiagos que destronaram a dos lourenços e bernardos, depois de estes terem acabado com a dos martins e tomás…”
Todos os comentários acima nos parecem acertados e até gostamos do blogue citado. O problema reside em que todos os membros desta associação adoram a discussão e e a comparação de ideias contraditórias. A falta destas qualidades deixa-nos uma certa frustração e desencanto. Sem isso passamos mal.