Não deve ter mais que 18 anos. Suponho que concluiu o 12º ano e não quis continuar os estudos. Também não trabalha, é claro. Isso já todos no prédio perceberam, porque de manhã à noite ele está no meio de nós. Não se pense, porém, que é um desocupado. Ele não tem emprego mas tem um sonho e com a energia própria da idade batalha muito para alcançá-lo, arrastando-nos a todos nessa perseguição animal.
Os pais, já me contaram, apoiam-no incondicionalmente, seguindo com convicção a cartilha popularizada pelas televisões e revistas cor-de-rosa dos “Pais que Apoiam Incondicionalmente os Filhos que Lutam pelo Sonho”.
Dia pós dia, incluindo fins-de-semana e dias santos o meu jovem vizinho não poupa uma fibra do corpo, antecipando os momentos de glória que hão-de chegar, ele seja ceguinho, porque querer é poder e a sorte constrói-se e quem tem unhas é que toca guitarra. Ele não toca, mas canta. E dança. E também coreografa. O prédio vibra constantemente com pulos e fífias. Shakiras, Pearl Jams, Robbies Williams, Cold Plays, Ladies Gagas, sucedem-se indistintos e nervosos enquanto ele lhes berra por cima, batendo o punho, batendo o punho e batendo o punho.
Podia ter sonhado ser futebolista, ou actor, ou manequim, ou empreendedor numa área de negócio muito cool. Azar, o sonho dele ouve-se! E a sua “proactividade” também. Na verdade, o que mais me incomoda nem são as fífias, mas a patética cegueira deste mitómano de chuveiro. Tão mas tão dos nossos dias.


“…ele está no meio de nós…”
Boa, tem Jesus Cristo no prédio !!

E como são bíblicas as fúrias que inspira, Fernando 😉
É o tal caso de “empreendedorismo” que eu não desejo ao meu pior inimigo… (até gaguejo só de imaginar). Mas não se admire, Teresa, que isto é subproduto de três décadas de programação vomitiva. Que já começou nos pais. Uma falta de cultura generalizada, aliada a uma educação medíocre só podia dar nisto. Basta olhar à nossa volta, o que não falta são exemplares destes.
Estamos entregues!
Ogora a sério: o texto está delicioso!
:)))
(e não há baldes de água, para o acordar do sonho?)
Ele mora em cima, Luís. As leis da física não estão a meu favor
– Remédio 1 : E a Teresa não conhece nenhum agente a quem possa apresentar o rapaz ?
– Remédio 2 : e não haverá maneira de o ” despertar ” desse pesadelo, porque isso já não é sonho.
– Remédio 3 : Alguém sabe o número de telefone da Teresa Guilherme para dar á Teresa ?
(pelo que conta não auguro nada de bom para o moço, nem para quem o escuta, na verdade…)
O remédio é a realidade que um dia vai ter de engolir, cr. O pior é que entretanto ficaremos todos surdos.
Obrigada, Fátima.
Pois, nascem em progressão geométrica, convencidos que tudo se resume a uma questão de atitude. E o pior é que se multiplicam em todas as áreas de actividade. Estamos entregues aos “verdadeiros artistas”.
Palavra que detesto: ‘proactividade’. E não só a palavra: alguns ‘proactivos’ também.
Já somos dois, Pedro.
Os vizinhos podiam mas era fazer uma vaquinha e oferecer-lhe uma maquineta de venda de pipocas.
Quem sabe não se descobriria uma verdadeira vocação 🙂
Responda com musica clássica, piano
Não aconselho, o que eu fiz ao meu vizinho de cima (há uns bons anos) foi responder ao seu estilo de música entre heavy metal e rock foi uma série de concertos de orquestras sinfónicas. Descobri que com umas boas colunas faz muito mais barulho. Resultou, ele começou a pôr a música a níveis que só se ouvem na casa dele.
Uso essa técnica de guerrilha há uns tempos. Não resolve, mas alivia muito 🙂
Acho que somos vizinhos.
Descreveu na perfeição o jovem que vive no apartamento debaixo do meu.
Eles andem aí