Sobressalente


Cristina Torrão,

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Apesar de me interessar por famílias da realeza, não tinha intenção de escrever sobre o livro do príncipe Harry, porque não o li, nem penso que lerei. Mas deparei com uma descrição interessante no blogue Entre Parêntesis, que me fez aumentar a empatia já por mim sentida pela pretensa ovelha negra dos “royals”. No fundo, sabia que isso iria acontecer.

Na nossa cultura, há um grande preconceito em relação a “queixinhas”. Porém, pergunto-me porque não há-de uma pessoa revelar que se sentiu, ou sente, tratada com injustiça, ou com indiferença? No fundo, sinto admiração por quem se deixa de fingimentos e ousa revelar o que lhe vai na alma, descobrindo os podres debaixo de uma fachada de glamour. Pode não dar boa impressão, causa inclusive repulsa. Mas, bem vistas as coisas, trata-se de um acto de coragem.

Carolina, a autora do Entre Parêntesis, classifica este como um livro triste – escrito por alguém perdido; alguém deixado num limbo, sem saber onde pertencia e como se posicionar interna e publicamente. Uma situação destas não é eternamente suportável. A não ser que se encontre um escape, normalmente, uma vida promíscua e escandalosa, aliás, com exemplos nesta família, uma vida na qual o próprio príncipe Harry embarcou, na sua juventude.

A Carolina também refere o caso da mãe – um trauma claramente mal resolvido. Deixem-me falar claro: isto revolta-me! Porquê? Como é que uma família com tantos recursos financeiros não procura ajuda psicológica para um rapazinho que não completou ainda 13 anos e perde a mãe de maneira tão trágica? Com medo que se descubra? Ou não admite que alguém no seu seio precise desse tipo de ajuda? O acompanhamento psicológico, numa determinada fase da vida, não resolve os problemas, mas pode ajudar (e muito) a lidar com eles.

Quando vi o filme A Rainha, com Helen Mirren, uma das coisas que mais me impressionou foi como os dois príncipes eram deixados isolados, quase escondidos. Nem pareciam pertencer à família! Claro, trata-se apenas de um filme. Porém, se, na realidade, tivesse havido inclusão dos dois jovens nas discussões familiares e mais naturalidade no tratamento do assunto, a película não teria deixado de o reflectir. Na verdade, a própria rainha sua avó, o avô Philip (totalmente alheio à tragédia) e também o pai Charles não sabiam lidar com o caso. E, depois de terem pretensamente protegido os dois rapazes, pegam neles e colocam-nos, a frio, no meio desse turbilhão que foi o enterro da princesa Diana. Naquela marcha de martírio, os rapazes apenas serviram para polir a própria imagem da avó, que todos sabiam não morrer de amores pela ex-nora. E o próprio Harry já disse que fez aquela caminhada como que em transe, alheio da realidade e sem fazer ideia de como a aguentou até ao fim.

Podem dizer-me: mas o William passou pelo mesmo e lidou melhor com o trauma. O problema é que nunca é igual. Por mais que os pais se esforcem por tratar os irmãos da mesma maneira, nunca o conseguem (alguns nem se esforçam, mas isso seria outra história). Para já, todos temos características inatas que nos diferenciam uns dos outros. E o simples facto de um ser mais velho já torna tudo diferente – nunca, mas nunca, se lida com um filho mais velho da mesma maneira como com o mais novo. Com vantagens ou desvantagens, conforme os casos e as pessoas envolvidas. Neste caso, penso ter sido fatal. William tem, desde o nascimento, uma função fundamental na família. Não digo que seja fácil ser sucessor de um trono, pode mesmo ser um fardo. Mas é algo concreto, definido. Ele sabe qual o seu lugar, sabe da sua importância. Harry, não. É o pneu sobressalente, apenas existe para o caso de as coisas correrem mal. É a peça mantida guardada, a quem ninguém dá importância.

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Spare – a tradução portuguesa é Na Sombra. Prefiro sobressalente, como o spare tyre. Expressa melhor o vazio a que foi votado o príncipe. Um sentimento de não pertença que ele descreve (e que se sente) ao longo do livro. A sua válvula de escape não passa por coleccionar escândalos, ou manifestar comportamentos excêntricos. Passa por dar voz à sua revolta. Ele apenas deseja que o ouçam. Mas a família parece insistir em ser surda. Como, aliás, costumam agir as famílias em relação à sua “ovelha negra”.

25 comentários em “Sobressalente”

  1. é cada vez mais difícil distinguir o que se considera desinformação, contra informação e teoria da conspiração nesta sociedade líquida e sem rumo

    1. Faz tanto sentido gastar “tinta” com este personagem altamente treinado e bem pago como com qualquer outro actor que entretém o público.

      Ele actua, o público reage, a transacção completa-se a contento de todos. Catarse, penso que lhe chamam os profissionais, já há muitos séculos.

  2. As monarquias são uma aberração.
    E o tratamento privilegiado que nelas – e não só – é dado ao filho primogénito relativamente aos outros filhos, é outra aberração.
    Felizmente cá em Portugal acabaram os morgadios, embora ainda haja alguns malucos que desejam restaurá-los.

    1. Há maneiras de lidar com essa situação. Quando não se consegue através de meios próprios, deve-se solicitar ajuda profissional. Já é altura de as monarquias se livrarem de hábitos medievais. Algumas já o conseguiram (as escandinavas, por exemplo), mas os ingleses, como sabemos, são muito conservadores e fechados, em certos aspectos.

      1. Parece-me disparatado “solicitar ajuda profissional” para reparar uma injustiça e um trauma que nós próprios criámos: tratar de forma desigual dois filhos.
        Se fomos nós quem criou a injustiça e o trauma, somos nós quem os deve reparar, eliminando essa injustiça e esse trauma que praticamos. Não é através de ajuda profissional.
        Uma coisa é solicitar ajuda psicológica para um adolescente que ficou órfão, o que é muito adequado. Outra coisa é solicitar ajuda psicológica para um jovem que se sente tratado de forma desfavorecida em relação ao irmão, o que é desadequado – a cura para isso é passar a tratá-los de forma igual, não é solicitar ajuda psicológica para o que é tratado de forma inferior.
        Note-se que há muitas, muitíssimas famílias em que um dos filhos se sente traumatizado por ser tratado de forma desfavorável em relação a um irmão. Isso não acontece somente em monarquias, nem nada que se pareça.

        1. Também nesse caso pode dar jeito.
          Repare: eu não estou a dizer que se deva procurar essa ajuda por ninharias. Só quando se torna um verdadeiro problema, quando há alguém que se sente inferiorizado a tal ponto, que condiciona toda a sua vida.

    2. “As monarquias são um desvio da norma”
      Desvio da norma é assassinar.
      A república portuguesa tem a sua origem mais remota num duplo assassinato em 1908 e no golpe de estado citadino dois anos depois.
      Será isso a norma?

  3. Será que o Harry se fosse filho da Maria Balbina também tinha direito a todo este circo mediático?
    Quantos Harris há no mundo que têm de viver o seu dia a dia com a crueldade real da sua existência?
    Coitadinho foi injustiçado e é uma pena porque era uma peça decorativa vistosa e ficava bem em qualquer canto do palácio.

    1. O Harry ou o filho da Maria Balbina – todos têm direito a expressar a sua revolta.
      Claro, alguns têm impacto mediático. Mas o mais importante é que isso os ajude a encontrar algum equilíbrio.

  4. Este só se revoltou depois de casar. Quando viajava pelo mundo com tudo pago não se sentia vítima nem revolta. Agora descobriu que era uma vítima e que a familia era racista. Go woke go broke

  5. Lembro-me de Harry ter comparecido numa festa desbragada dos amigos pouco recomendáveis que patronizava, mascarado a rigor de oficial alemão da época nazi (não sei/não recordo se com insígnias da Wehrmacht se das S.S.).
    O acompanhamento que ele precisava era um de bom par de chapadas no focinho.
    Hoje hesito em classificá-lo de foca amestrada ou de cachorrinho amestrado. Em qualquer caso a mestra, foi cedo identificada pela própria irmã como uma “soclial climber”. depois de um curto período a contracenar no papel de duquesa suburbana, sucumbiu ao confronto com a cunhada. Só que não tem uma família grande não reconhece o padrão.

    1. Já foi com certeza há mais de 20 anos. Salvo erro, ele não era ainda maior de idade.
      Insere-se no que eu escrevi. Ao chegar à idade adulta, e até meados dos vinte, ele provocou alguns escândalos, é verdade. Mostrava que algo não estava bem com ele.

  6. “Passa por dar voz à sua revolta. Ele apenas deseja que o ouçam. Mas a família parece insistir em ser surda. Como, aliás, costumam agir as famílias em relação à sua “ovelha negra”.
    Absolutamente certo, Cristina. Não apenas surda, como cega, depreciadora e condescendente. E com isto não quero dizer que o príncipe tem razão no que pretende asseverar.

  7. tambem eu, nao simpatizando com o ladrao, incomoda-me ver o dito espancado pelo policia.
    A autora (com coragem para admitir que nao lerá o livro ) explica até direitinho.
    Porém, é isso mesmo : um rapaz desmiolado, nada a ver com coragem. A classificar-se é de irresponsabilidade. Mesmo estupidez, pois alem de estar a colocar mal os familiares. lógicamente está a fazer a cama para si proprio.
    O desnorte significa exatamente que está mentalmente afastado do mundo e sem noçao.

  8. Lembro me de ler, não sei onde, nem quando que os dois foram acompanhados por psicólogos. Terão feito o seu melhor, mas no final dos anos 90/2000 acho que todo este tema do trauma estava ainda por desenvolver.
    E aquela marcha fúnebre foi sinistra e de uma violência atroz.

    1. Pode bem ter sido, Marta. Realmente, é difícil de acreditar que eles não tenham recebido auxílio nenhum. Mas, como vemos, ou não foi suficiente, ou ele a terapia não foi a mais adequada. Enfim, não acredito que ele faça isto de ânimo leve.

      Não sei se ele escreveu isto no livro, ou se o revelou numa entrevista: lembro-me de ler, há tempos, que ele percebeu, em criança, haver gente a aconselhar o pai Charles a fazer um teste de paternidade em relação a ele. Nunca chegou a ser feito, mas, se a criança chegou a perceber isso, algo corria mesmo muito mal.

      1. Eu também não acredito que faça de ânimo leve. Há muitas coisas no livro e na exposição pública mais recente que parecem, para usar um termo bem típico da psicoterapia “desreguladas”: a necessidade de contar todos os pormenores, o excesso de exposição da intimidade da família, até alguma ingenuidade são típicas de uma pessoa que precisa desesperadamente de ser ouvida.

        No fundo, é o miúdo de 12 anos a saltar cá para fora aos 38 anos, é como se o desenvolvimento emocional tivesse “congelado” a dada altura e continuamos meios presos nos esquemas que encontramos para nos proteger nessa altura para lidar com a vida. Uma espécie de Groundhog day emocional. Ha um livro maravilhoso de um psiquiatra holandês que explica isto muito bem: the body keeps the score, Bessel van Der Kolk (em português “o corpo não esquece”). O livro também ajuda a perceber os limites da terapia convencional.

        E muito provavelmente, terá percebido o que diziam ao pai. Os miúdos topam tudo e mais alguma coisa, e esse tema fez rodar muita tinta na altura. E, príncipes ou não, deviam apanhar tudo do ar como os outros miúdos daquela idade.

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