Só com seis meses e já cansado


Pedro Correia,

 

Seis meses depois de ter tomado posse à frente do seu segundo governo, José Sócrates sabe melhor que ninguém que não chegará ao fim da legislatura. A culpa não é dos outros: é dele mesmo. Depois de ter governado quatro anos e meio com maioria absoluta, o primeiro-ministro foi incapaz de perceber que a política é a arte do possível. Ora é impossível governar durante outros quatro anos com a oposição simultânea da esquerda e da direita. E a benevolência do Presidente da República, seja quem for a partir do próximo ano, tem os dias contados.

Faz falta a esta frágil maioria socialista uma cultura de negociação. Uma das originalidades portuguesas é a ausência de uma política clara de alianças no Parlamento. Ter maioria absoluta, no quadro político europeu, não é uma regra – é a excepção. Quase todos os Estados membros da União Europeia são governados por coligações governamentais. Só a intransigência de Sócrates, surdo aos argumentos da esquerda e da direita, possibilitou esta aventura irresponsável: governar num grave cenário de crise sem acautelar apoios prévios no Parlamento.

Poderia e deveria tê-lo feito: a actual aritmética parlamentar permite-lhe isso. Mas o instinto de “animal feroz”, que o incentiva a contínuas fugas em frente, impediu-o de agir como Mário Soares, que noutros momentos de crise não hesitou em aliar-se ao PSD ou ao CDS (então não havia Bloco e o PCP prometeu a São Lenine permanecer até à eternidade na oposição). Todos os grandes políticos europeus fizeram isso – até Winston Churchill, herói dos conservadores, esteve cinco anos coligado com os trabalhistas.

 

Seis meses depois, estamos mais pobres e endividados. Temos menos energia anímica e menos esperança no futuro. O ministro que parecia mais competente, Teixeira dos Santos, está hoje desacreditado depois de ter visto todas as suas previsões desmentidas pelos factos. Vieira da Silva, que foi um bom titular do Trabalho e da Segurança Social, cometeu o erro de ter aceite a transferência para a pasta da Economia. Os truques de retórica de Augusto Santos Silva, que faziam dele um eficaz ministro dos Assuntos Parlamentares, retiram-lhe autoridade de Estado para estar à frente do Ministério da Defesa. E até a antiga ministra-estrela Ana Jorge tem vindo a somar desaires em questões como o fecho das urgências de Valença e o medicamento unidose.

Este Governo chega ao fim do primeiro semestre já cansado – evidência que os dotes mediáticos do primeiro-ministro não consegue ocultar. É demasiado fácil augurar-lhe vida curta. E quanto mais tarde este PS que Sócrates transformou numa massa amorfa perceber isto mais longa será a sua futura travessia na oposição.

 

Ler, a propósito:

– Bolsa de Lisboa fecha com maior queda do ano.

– Portugal com a segunda pior classificação de risco da zona euro.

– Previsâo: economia portuguesa estagna em 2010.

14 comentários em “Só com seis meses e já cansado”

  1. Vejamos com alguma equidistância.

    Como é que o Primeiro-Ministro de Portugal, (não importa agora se é José, Manuel ou António) há-de estar quando:

    – Não tem maioria no Parlamento;
    – Não pode dedicar-se à governação, acossado que está por sucessivos «casos»;
    – O PR não quer eleições e caso estas se realizassem agora provavelmente mais pantanoso seria o resultado, pese embora o PS devesse continuar a ser o Partido mais votado;
    – Os parasitas do Regime (de todas os sectores e quadrantes) gravitam à volta da mesa do Orçamento como abutres;
    – As desigualdades aumentam de dia para dia e a coesão social está seriamente ameaçada;
    – O desemprego atinge níveis assustadores;
    – O País pouco mais consegue exportar mais que umas garrafas de vinho do Porto e uns pares de sapatos;
    – Portugal está à beira do abismo poderá dar em breve um passo em frente (bancarrota);
    – Os portugueses na mais completa das descrenças, a assobiar para o lado como se nada fosse, enquanto aguardam que “isto” rebente.

    Não serão razões de sobra para estar cansado?

    Realmente, com um cenário destes, depois de muito resistir, a “imagem da solução” é o homem atirar-se ao mar.

    PS:
    Um “palpite” – António Mexia parece estar a emergir como «o homem do leme», para futuro Governo de Unidade Nacional… talvez tenha perfil para ser interlocutor e “CEO” do FMI nesta “Ocidental Praia Lusitana”.
    Será?

  2. Pedro, discordo de alguns pontos, apesar de concordar com a ideia principal.

    Em primeiro lugar, concordo quando escreve que este governo (e Sócrates em particular) não tem cultura de negociação. Isso ficou bem demonstrado desde cedo, ainda no primeiro governo Sócrates. Porém, creio que na presente legislatura a Oposição também tem culpas no cartório, no que diz respeito à falta de entendimentos e acordos, mesmo que pontuais ou de princípios. Desce cedo se percebeu que os outros partidos não estavam interessados em coligações ou entendimentos, apesar de, na prática, o PSD ter apoiado o governo em certas ocasiões, nomeadamente na aprovação do Orçamento e do PEC. O PP deixou dúvidas no ar, pois se não aceitou coligações nem entendimentos, fica a sensação que, em determinados momentos, recusa assumir a responsabilidade de chumbar as medidas do governo. Tal como no PSD, isso viu-se em momentos-chave.

    Em segundo lugar, discordo da sua apreciação sobre Teixeira dos Santos. Ok, enganou-se. Mas pergunto: no recente cenário de crise mundial, quem é que acertou? Nem um economista sequer…

    Por último e indo no mesmo sentido da questão anterior, o facto de estarmos mais pobres não se deve – exclusivamente – a este governo. A crise é mundial, afectou todos os países e todos ficaram mais pobres (ou menos ricos), por isso limitar a questão, como o Pedro insiste em fazer há longos meses apesar de os factos o contradizerem, ao cenário interno e aos erros deste governo é limitar a visão global do problema, é ver a árvore e ignorar o resto da floresta.

    Contudo, concordo com tudo o resto, assinando por baixo. Sobretudo sobre o cansaço, que já dura há mais de 6 meses. A anterior legislatura ainda não tinha terminado e o desgaste já era perfeitamente visível, o que era mascarado pela falta de uma oposição série e credível.

    Abraço.

    1. Vamos ao que nos divide. Dois pontos sobretudo.

      1. A oposição é responsável pela falta de cultura de negociação do Governo? Não me parece. Sobretudo esta oposição à direita, que acaba de viabilizar o Orçamento de Estado para 2010 e a resolução parlamentar sobre o PEC.

      2. É óbvio que a crise não afecta todos os países por igual. Pior do que Portugal, na UE, só a Grécia. Será culpa da oposição ou do Governo? Inclino-me a pensar que será do Governo. A menos que cheguemos à conclusão de que este Governo é um holograma.

      1. Pedro, eu não escrevi que a culpa da falta de consensos era da oposição. Pelos vistos, expliquei-me mal sobre esse ponto… Apenas considero que a culpa não é exclusiva do governo, apenas do governo. E sobre a “cultura de negociação” do governo, o Pedro, que costuma ler-me, sabe o que penso sobre isso, que aliás expressei no meu comentário anterior.
        Sobre as outras crises, o défice e as taxas de desemprego estão ao nível de outros países europeus, como Reino Unido, Espanha (esta com uma taxa bem mais alta), Itália, Irlanda. Não é, por isso, justo dizer-se que pior apenas a Grécia. Lá por uma agência de rating, que falhou em toda a linha quando a crise mundial estoirou, descer o rating do nosso país, isso não significa que a avaliação seja justa. Sobre isto, remeto o Pedro para o post que acabei de escrever…
        Abraço.

  3. Nem mais, compadre.
    Estava a ler a segunda parte e ocorreu-me uma coisa que fiquei a saber apenas há dias: durante todo este período em que a inflacção pouco ou nada tem ultrapassado 0%, a despesa pública já aumentou 4%. E nunca foi tão premente diminuir a despesa pública. É revoltante.

    1. O convívio com Sócrates, no Governo, apaga as mais fulgurantes personalidades. Tem vindo a acontecer, por exemplo, com o ministro das Finanças. Teixeira dos Santos, que chegou a ser o mais prestigiado membro do Executivo, tem hoje o seu prestígio ao nível do rés-do-chão.

  4. Cansado? Só se for da campanha eleitoral em que anda metido. Não há dia nenhum que não apareça na televisão a anunciar ou a inaugurar alguma coisa. Ou então em eventos patetas com conversas da treta. Alguém que nos livre deste homem.

  5. Caro Pedro Correia, concordo com tudo o que dizes no post. Mas, infelizmente tenho a dizer-te que parte dos portugueses neste momento tem outras preocupações, como por exemplo pensarem em como comemorar o titulo de futebol.

    Dá me a impressão que parte dos portugueses só vai acordar para a realidade quando a lama lhes chegar à boca…para já ainda só estamos até ao pescoço.

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