Sir Humphrey Appleby – Bernard, o ministro ainda não veio?
Bernard Woolley – Não. Está em reunião, no gabinete.
Sir Humphrey – Que reunião é essa?
Bernard – Nada de especial.
Sir Humphrey – Estou a ver… E que reunião foi aquela de ontem?
Bernard – O ministro esteve a rever as respostas que dará às perguntas que lhe chegam do Parlamento.
Sir Humphrey – Mas nessa reunião estiveram secretários-adjuntos e outros subalternos.
Bernard – Só aqueles que lhe fornecem informações.
Sir Humphrey – Bernard, isso tem que acabar já!
Bernard – Porquê?
Sir Humphrey – Acha que o ministro deve começar a dirigir o ministério?!
Bernard – Sim. Por acaso nessa matéria as coisas até estão a correr bastante bem.
Sir Humphrey – Não, Bernard. Quando um ministro começa a dirigir o ministério as coisas não correm nada bem. Pelo contrário, começam a correr mal.
Bernard – Mas não cabe ao ministro dirigir o ministério?
Sir Humphrey – Não. Essa é a nossa função. Ou melhor: é a minha função após 25 anos de experiência na administração pública. Já imaginou o que aconteceria aqui se deixássemos de ser nós a dirigir o ministério?
Bernard – Não. O que é que aconteceria?
Sir Humphrey – Para começar, instalava-se o caos. Depois acontecia algo muito mais grave: haveria inovações, mudanças, discussão pública.
Bernard – Mas o que deve ele fazer então?
Sir Humphrey – Bernard, um ministro tem três funções. Primeira: tornar os nossos actos plausíveis aos olhos do público e do Parlamento – ele é o homem encarregado das relações públicas. Segunda: é o nosso homem no Parlamento, encarregado de fazer passar a nossa legislação. Terceiro: é o nosso ganha-pão – tem de bater-se no Governo pelo dinheiro necessário para fazermos frente às despesas que temos no ministério. O que ele não tem é de reunir-se com secretários-adjuntos!
Bernard – Mas se ele tem tempo disponível…
Sir Humphrey – Se tem, não devia. A culpa é sua: você tem de conseguir que ele não disponha de tempo. Preencha-lhe a agenda: ele devia fazer discursos, fazer visitas, viajar ao estrangeiro, enfrentar crises, emergências, momentos de pânico. Você permite que ele disponha de tempo livre!
Bernard – Ele é que consegue…
Sir Humphrey – Insista em preencher-lhe a agenda.
Bernard – Ele não me deixa.
Sir Humphrey – Não lhe pergunte: faça! Obrigue-o a passar mais tempo num local onde não possa estorvar-nos.
Bernard – Mas onde?
Sir Humphrey – Na Câmara dos Comuns, por exemplo.

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Só os ingleses (seja, os britânicos) saberiam tão bem não se levar excessivamente a sério e ridicularizar como merecido “os políticos”.
Que diferença para este nosso país do arrogante “uso da palavra” e da vácua “sessão solene”, coisas que subsistem viçosamente e por estes dias manifestadas abundantemente por srs. deputados (e sras. deputadas) tão cheios de si e da sua messiânica importância, devidamente caracterizados pelas bem rígidas e afinal tão conservadoras (diria, verdadeiramente reaccionárias) regras de indumentária, barba e penteado da esquerda-caviar.
E onde a comédia que sobre a política e os políticos se tente fazer, desconhece a inteligência e é fatalmente reles, estúpida e ordinária.
Costa (Rui)
Tantos anos depois, continuo a achar delicioso este humor tão britânico e aparentemente tão difícil de exportar. Imagine-se uma série destas em Portugal…
A melhor destas é a que surge no Yes, Prime Minister:
Sir Humphrey: Afinal o quer o Primeiro-Ministro?
Bernard: Penso que o que ele quer é governar a Grã-Bretanha.
Sir Humphrey: Temos que o impedir. Não tem habilitações para tal!