Silêncio, mata-se


Pedro Correia,

 

O título, infelizmente, não podia ter sido mais bem escolhido. Silêncio, mata-se. Foi desta maneira que a mais prestigiada organização internacional de jornalistas, Repórteres sem Fronteiras, salientou a dramática situação que se vive no Irão, onde nos últimos dois dias foram mortas pelo menos oito pessoas e 300 acabaram encarceradas – incluindo destacados membros da oposição, jornalistas e activistas de direitos humanos. Prisão e censura são dois termos de grande actualidade em Teerão nos dias que correm: "A violência das forças da ordem tem vindo a ser acompanhada de uma nova vaga de ciberataques" que tolhe a actividade dos correspondentes estrangeiros e a própria comunicação dos iranianos através da Internet. Na sua página na Rede, os RSF mencionam casos concretos. Emadoldin Baghi, jornalista e figura emblemática da defesa dos direitos do homem no Irão e fervoroso militante contra a pena de morte, "detido no seu domicílio em Teerão, a 28 de Dezembro, por indivíduos trajando à civil e levado para local desconhecido". Alireza Behshtipour Shirazi, director do sítio oficial do principal candidato da oposição nas presidenciais de 12 de Junho, Mir Hussein Moussavi, "detido no seu domicílio em Teerão e levado para local desconhecido". Shiva Nazar Ahari, conhecida bloguista e activista dos direitos humanos, "encarcerada desde 20 de Dezembro na secção 209 da prisão de Evin".

Este é o Irão de Ahmadinejad, recentemente recebido no Palácio de Miraflores, em Caracas, por um Hugo Chávez em êxtase. "Exemplo de firmeza e constância pela liberdade de seu povo, pela grandeza da pátria persa, a pátria iraniana", chamou-lhe o Presidente venezuelano, um dos raros dirigentes internacionais capazes de dizer frases destas sem corar de vergonha. Este é um regime que chama aos membros da oposição "agitadores ao serviço de potências estrangeiras", com eco imediato no deslumbrado Avante!, porventura vislumbrando algum resquício de comunismo na ditadura xiita de Teerão. Salazar dizia o mesmo dos opositores – alguns dos quais comunistas. Mas nem isso confere hoje algum decoro ao jornal dos mais ortodoxos membros do PCP, cego e surdo à repressão quando se pratica nos países ‘amigos’ – por acaso alguns dos menos recomendáveis do planeta.

8 comentários em “Silêncio, mata-se”

  1. Se aplicarmos às relações internacionais a conhecida propriedade associativa da matemática: se o governo português é amigo do governo venezuelano que por sua vez é amigo do iraniano logo, o governo português é amigo do governo iraniano.
    é muito mau.
    um bom ano, meu caro.

  2. Chegou a hora dos iranianos, lutarem por um mundo aberto e democrático, dentro do seu próprio País.
    As repressões para que tal não aconteça são ferozes e sem contemplações.
    Hoje as cargas policiais comandadas por um sistema a rebentar pelas costuras, podem surtir efeito momentâneo, mas de alcance sem frutos.
    O povo vencerá!
    É tudo uma questão de tempo e infelizmente de vitimas.
    O mundo em que vivemos já não tem espaço para ditaduras ancestrais que mancham a evolução necessária de um povo, farto de mentiras e fanatismos que embora teimem em criar raízes, elas depressa serão abafadas e arrancadas do fundo da escuridão onde se resguardam.
    O novo ano trará definitivamente a alegria aos iranianos e valerá a pena todo o sofrimento que neste momento lhe é infligido.

    1. Este comentário parece um editorial do Avante requentado…

      Como se os desgraçados não tivessem suficiente retórica para aturar…

  3. É impressão minha ou os dias que correm estão perigosos para os jornalistas?
    O que aconteceu ao João Miguel Tavares?

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