António Aleixo, o mais célebre dos nossos poetas populares, morreu faz hoje 60 anos. Em homenagem ao seu talento aqui deixo quatro das suas quadras. Tão actuais hoje como no dia em que as escreveu:
Sem que discurso eu pedisse,
ele falou e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.
P’ra mentira ser segura
e atingir profundidade
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.
Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis,
agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz.
Julgando um dever cumprir,
sem descer no meu critério,
digo verdades a rir
aos que me mentem a sério!
Imagem: estátua de António Aleixo em Loulé


” Uma mosca sem valor,
pousa co’a mesma alegria,
na careca de um doutor,
como em qualquer porcaria… “
São imperdíveis, as quadras do Aleixo, Pedro. Esta e a da mentira citada no post, são as minhas preferidas :)))
Completamente de acordo, Ariel.
Mas, no mesmo rol, também incluo esta:
Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são
São aquilo que eu pareço.
Não sei porquê, mas cheira a actualidade que até dói…
:))))
É verdade Maria do Sol, tinha-me escapado essa, sempre actual sim senhora.
:)))
São quadras que ainda reflectem bem o Portugal contemporâneo, espantosamente 60 anos após a morte do poeta.
Eheheh… O Bom velho Aleixo é uma “escola” que vale a sempre a pena.
Pois vale.
Obrigada, por nos ter recordado um poeta que se mantem vivo, apesar de não ter passado o estatuto de erudito.
Não era erudito, mas as quadras dele ainda andam de boca em boca, o que é a melhor prova de validade da da obra que nos deixou.
A quadra tem pouco espaço
Mas eu fico satisfeito
Quando numa quadra faço
Alguma coisa de jeito.
Boa evocação, Pedro Correia
:))
Aleixo – e os nossos poetas populares, em geral – bem merece ser evocado, Maria do Sol. Ainda bem que gostou.
Eu gostei da evocação
Que tem muito gabarito
Digo-o do coração
A si, PC do Delito …
:))
Nota: PC são as iniciais de Pedro Correia, antes que comecem a tresler.
Este Aleixo é na verdade um grande poeta popular que não teve nenhum outro à sua altura, pelo menos durante as últimas décadas.
Para a nossa classe política, aqui vão mais duas, uma com algum pessimismo, outra com uma mensagem de esperança:
“Descreio dos que me apontem
uma sociedade sã:
isto é hoje o que foi ontem
e o que há-de ser amanhã.”
“Depois de tanta desordem,
depois de tão dura prova,
deve vir a nova ordem,
se vier a ordem nova.”
Um Abraço.
Bem as conheço, Luís. E qualquer delas continua actual, tudo dependendo do nosso ponto de vista.
A escultura é de Lagoa Henriques. Bem melhor que a de Camões, do mesmo autor, junto à Brasileira do Chiado. O que se compreende: a de Aleixo é posterior e o mestre estava “treinado”…
É, de facto, uma excelente estátua. Loulé ganhou com ela.
Muito bem Pedro, muito bem.
Caro Pedro Correia,
Excelente evocação! Aqui fica a minha contribuição com o respectivo “link”, claro.
Um poeta popular
de enorme humildade,
uma obra exemplar
analisando a sociedade.
Distante da elite cultural
e dos palcos majestosos,
de uma erudição natural
atestada em versos ditosos.
Meu caro, vislumbro alguma coisa de Aleixo em si.
Lembrança oportuna, Pedro. Já agora, aqui fica outra quadra
É fácil a qualquer cão
Tirar cordeiros da relva
Tirar a presa ao leão
É difícil nesta selva
Muito boa, também essa.
Gosto imenso das quadras do Aleixo, são de uma acutilância impressionante. Que importa não ter sido um erudito, se as suas palavras chegaram a toda a gente e ainda hoje são actuais? Brilhante, é o que ele era.