Sessenta anos sem Aleixo


Pedro Correia,

 

António Aleixo, o mais célebre dos nossos poetas populares, morreu faz hoje 60 anos. Em homenagem ao seu talento aqui deixo quatro das suas quadras. Tão actuais hoje como no dia em que as escreveu:

 

Sem que discurso eu pedisse,

ele falou e eu escutei.

Gostei do que ele não disse;

do que disse não gostei.

 

P’ra mentira ser segura

e atingir profundidade

tem de trazer à mistura

qualquer coisa de verdade.

 

Mentiu com habilidade,

fez quantas mentiras quis,

agora fala verdade,

ninguém crê no que ele diz.

 

Julgando um dever cumprir,

sem descer no meu critério,

digo verdades a rir

aos que me mentem a sério!

 

Imagem: estátua de António Aleixo em Loulé

21 comentários em “Sessenta anos sem Aleixo”

  1. ” Uma mosca sem valor,
    pousa co’a mesma alegria,
    na careca de um doutor,
    como em qualquer porcaria… “

    São imperdíveis, as quadras do Aleixo, Pedro. Esta e a da mentira citada no post, são as minhas preferidas :)))

    1. Completamente de acordo, Ariel.
      Mas, no mesmo rol, também incluo esta:

      Sei que pareço um ladrão
      Mas há muitos que eu conheço
      Que não parecendo o que são
      São aquilo que eu pareço.

      Não sei porquê, mas cheira a actualidade que até dói…

      :))))

      1. Eu gostei da evocação
        Que tem muito gabarito
        Digo-o do coração
        A si, PC do Delito …

        :))

        Nota: PC são as iniciais de Pedro Correia, antes que comecem a tresler.

  2. Este Aleixo é na verdade um grande poeta popular que não teve nenhum outro à sua altura, pelo menos durante as últimas décadas.
    Para a nossa classe política, aqui vão mais duas, uma com algum pessimismo, outra com uma mensagem de esperança:

    “Descreio dos que me apontem
    uma sociedade sã:
    isto é hoje o que foi ontem
    e o que há-de ser amanhã.”

    “Depois de tanta desordem,
    depois de tão dura prova,
    deve vir a nova ordem,
    se vier a ordem nova.”

    Um Abraço.

  3. A escultura é de Lagoa Henriques. Bem melhor que a de Camões, do mesmo autor, junto à Brasileira do Chiado. O que se compreende: a de Aleixo é posterior e o mestre estava “treinado”…

  4. Caro Pedro Correia,

    Excelente evocação! Aqui fica a minha contribuição com o respectivo “link”, claro.

    Um poeta popular
    de enorme humildade,
    uma obra exemplar
    analisando a sociedade.

    Distante da elite cultural
    e dos palcos majestosos,
    de uma erudição natural
    atestada em versos ditosos.

  5. Gosto imenso das quadras do Aleixo, são de uma acutilância impressionante. Que importa não ter sido um erudito, se as suas palavras chegaram a toda a gente e ainda hoje são actuais? Brilhante, é o que ele era.

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