Na imprensa de hoje, dois retratos expressivos de um país em crise:
1. Os presidentes da Refer, da CP e de pelo menos mais uma sociedade pública de transportes terão pago com o cartão de crédito da empresa os almoços de 50 gestores públicos daquele ramo, a 23 de Outubro, durante uma homenagem à então secretária de Estado dos Transportes, a socialista Ana Paula Vitorino.
O almoço de apoio e de despedida à governante foi no Hotel Altis Belém, em Lisboa, e juntou meia centena de administradores da CP, Refer, Carris, Metro de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa e STCP, bem como de algumas empresas detidas pela CP e Refer, os quais se quotizaram entre si com um montante de 40 euros do seu próprio bolso para oferecer a Ana Paula Vitorino uma gargantilha de ouro de cerca de 2000 euros.
2. O Fisco já deixou caducar milhares de euros de impostos das empresas de Manuel Godinho, o principal arguido do processo ‘Face Oculta’. Se o empresário não for notificado para pagar até 31 de Dezembro, mais 164 mil euros deixarão de entrar nos cofres do Estado. Estamos a falar de IVA não pago relativo a 2002, 2003 e 2004 da Comércio Sucatas Godinho Lda, detectado durante uma inspecção tributária que durou oito meses e que terminou em Junho de 2006.
Crise, de facto. Mas crise no plano ético, sobretudo. A crise económica só toca a alguns: muitos gestores públicos e uma multidão de empresários caloteiros, vários dos quais considerados ‘beneméritos’ nas comunidades onde residem, sugam o Estado e lesam os contribuintes com total despudor. Num país onde as disparidades na distribuição da riqueza atingem níveis chocantes, este contraste entre o Portugal que se endivida para adquirir bens de primeira necessidade e o Portugal que esbanja ou que não olha a meios para lesar o interesse público é ainda mais inaceitável. E justifica uma atitude de indignação da parte de todos nós.
Sobre…
A realidade pantanosa
zelosamente defendida,
por gentalha luminosa
com a cabeça perdida.
É tal a competência
dos almeidas zelosos,
revelando a latência
de favores dolosos.
A brancura inocente
de um almoço faustoso,
mais um caso indecente
neste regime desditoso.
A utilização indevida dos cartões de crédito é pecha antiga, Pedro, e só me admira que se fale tão pouco disso.
Quanto à caducidade dos impostos, está-se mesmo a ver como é fácil fazê-lo. Não acredito que Mário Pinho seja o único com culpas no Cartório… Já sabemos qe em Portugal a culpa morre solteira e por isso nem me espanto que o MP não “consiga” descobrir os autores das fugas de informação. Se entrassem em alguns locais de repasto de Lisboa e reparassem bem nas mesas dos comensais, era capaz de ser mais fácil.
Só um aparte: rearaste que o Godinho está numa cela com mais 10, enquanto o Vale e Azevedo ou o Oliveira e Costa tiveram direito a celas individuais ( no caso de VA aquilo era um luxo…) .
Há suspeitos mais iguais do que outros. Os Presidentes do SLB ou do BPN não se podem misturar, mas o Godinho , como é sucateiro, que se amanhe.
Pronto, estábem, já sei que estou a ser mauzinho
Pois, Carlos. É tudo uma questão de (in)cultura cívica. E também de (in)cultura jurídica. Tanto quanto me lembre, até hoje só um empresário foi preso em Portugal por fuga aos impostos. Como bem apontas, o princípio constitucional do direito à igualdade é violado em Portugal até nas cadeias. Quanto ao uso e abuso dos cartões de crédito, designadamente nas empresas públicas, isso dá pano para muitas mangas. Voltarei ao assunto um dia destes.
Mas a Ana Paula Vitorino fica tão formosa com a gargantilha de ouro! Bem empregados 2000 euros!
Não se percebe a notícia em 2. É só ver o artigo 45º da Lei Geral Tributária. Esta situação poderá ter acontecido mas não está para acontecer. Os jornais falam sobretudo para desconhecedores da lei e para difamar os serviços fiscais. E aqui, com menos obrigação, deveria informar-se melhor.
Quanto a esta matéria da corrupção, é interessante referir que, como é sabido, a lei está a favor daqueles que prevaricam. Senão vejamos: Em Portugal existem “várias corrupções”. Corrupção activa; corrupção passiva; e destas, nascem mais dois ramos em cada uma: corrupção activa para acto lícito; corrupção activa para acto ilícito; corrupção passiva para acto lícito; corrupção passiva para acto ilícito. Ora isto não mais visa que lançar falta de clareza no sistema, para que os crimes se confundam e, principalmente, para transformar corrupção, activa ou passiva, para acto ilícito, em corrupção, mais uma vez activa ou passiva, para acto lícito, cuja moldura penal e prazo de prescrição são substancialmente (leia-se imensamente!) menores. Entretanto o tempo vai passando e os processos prescrevem mesmo e aí é que é a barrigada de riso dos corruptores, corrompidos, advogados, etc., etc., etc., os quais certamente não deixarão de aproveitar a ocasião para comemorar com um farto jantar, quem sabe, quiçá, pago com dinheiros públicos. Porque não? Resumindo… não é nada de novo, isto é uma república das bananas!!! Afinal, corrupção, seja para o que for, É CORRUPÇÃO E PONTO FINAL!!! Ou não? É também curioso verificar algumas diferenças, quando comparamos o funcionamento da justiça em Portugal e Espanha. No nosso “bananal”, no caso concreto do agora tão badalado processo “Face Oculta”, o corruptor está detido preventivamente. No entanto beneficia de um tratamento VIP quando tem de se deslocar a orgão judicial para prestar declarações, pois pode acompanhar o staff de segurança sem algemas. Não é para todos… Os outros andam todos cá fora! Grandes vidas! Em Espanha “explodiram” vários processos relativos a casos de corrupção e ESTÃO TODOS DENTRO!!!!! Só é corrompido, que aceita! Só é corruptor, quem oferece! Mas se uns não receberem, os outros não oferecem e vice-versa! Logo… corrupção, seja para o que for, é corrupção e, a haver justiça, que a não há, estava tudo “à sombra”, a aproveitar as janelas para jogar ao Jogo do Galo. Sinto cada vez mais tristeza de ser português… tenho, frequentemente, e cada vez mais intensamente, vergonha de ser cidadão deste mundo de ideais e valores putrefactos!
SE CALHAR A MULHER ATÉ MERECIA MAIS POIS ERA DAS POUCAS QUE TRABALHAVAM