Não conto pelos dedos as vezes que me disseram que “isso já se está a tornar cansativo”. Não conto pelos dedos por não os ter em número suficiente. Confesso que o meu feminismo não é pop, nem fundamentalista, é talvez básico, mas atento. A minha luta, e a de muitas mulheres e homens de boa vontade, é pela paridade, pelo tratamento equiparado, pelo ordenado igual.
Uma coisa é certa: se eu fosse homem teria feito uma carreira no jornalismo – e na literatura! – com maior ligeireza e sem tantas provas de esforço. Não podem dizer que peco por excesso, podem apenas dizer que falo por mim, tendo em conta os meus 30 anos de vida profissional. Seja, falo de mote próprio, afinal é o meu nome no cabeçalho, a minha fotografia aqui especada. Se quiserem cingir o que vos escrevo à minha pessoa e vidinha, pois estão apenas a enganar-se, mas vamos lá a isto.
Em 2017, José Luís Peixoto, num encontro na feira do livro do Porto, disse: “A minha vida é mais fácil do que a vida da Patrícia, não sou mulher”. Sorri e comecei a pensar nas histórias que tenho acumulado ao longo da vida: a Maria Teresa Horta a dizer que coloca um alarme quando está a cozinhar para ter a certeza de que não deixa queimar nada, ela a tentar escrever poesia e a fazer comida para a casa; a Sophia de Mello Breyner que terá dito que escreveu muitos poemas enquanto fazia bacalhau com batatas; a Agustina Bessa-Luís a rir, os homens não são para levar a sério; a Inês Pedrosa a explicar que, como reivindicou Virginia Woolf (leiam o livro Um Quarto Só Para Si, edições Relógio d’Água, é maravilhoso), é preciso ter liberdade financeira e um quarto só nosso, um escritório como têm tantos homens.
A estes grandes vultos da literatura posso juntar quase todas as escritoras com quem me cruzei em Portugal e fora de portas. A nossa vida não é fácil. Ser escritora mulher significa ser uma mulher de sete ofícios, pela simples razão de termos inúmeros afazeres que, por uma razão quase estranha e maléfica, nos impedem de fechar a porta do escritório e dizer: vou escrever, não me perturbem, não me interrompam.
Não. É certo que a porta do “quarto só nosso” mantém-se aberta e corremos o risco de ter um filho a berrar lá ao fundo da casa: Mãeeeeee, preciso de papel higiénico! Tens 50 cêntimos? O que é o jantar? Ou outra coisa qualquer, porque a uma mulher não passa pela cabeça fechar a porta e dizer que vai escrever e está desligada para o resto do mundo. Sim, teria sido mais fácil ser homem enquanto criava os meus filhos, decerto que teria conseguido ir a festivais literários e sessões em bibliotecas com maior frequência.
Hoje sou uma privilegiada, sou uma mãe-livre, no sentido em que os meus filhos são adultos e, portanto, posso escrever e ouvir músicas estranhas, posso fugir para dentro de casa sem ter de me preocupar com escolas e actividades. E ainda tenho, cereja no topo do bolo actual, um marido que me diz: vai, vai escrever, eu trato. Ah, de que me queixo eu?
Se tivesse nascido rapaz e me chamasse João ou Manuel ou Francisco ou António ou Xavier, eu seria uma escritora com pergaminhos. Podia manter uma dose de mistério, mas os meus livros venderiam muito mais. Sim, está provado que os melhores compradores de livros são as mulheres e está igualmente provado que compram maioritariamente livros escritos por homens. E, lá está, peço desculpa pela repetição, mas é já um fetiche: se uma mulher escreve uma história que tenha um enredo amoroso, é somente uma história de amor; se um homem escreve uma história de amor, ah, é sobre a condição humana.
Mas há mais: se eu fosse um homem e escrevesse umas coisas lamechas, quem sabe?, podia vender mais livros e atingir o céu em termos de números de fãs (ou devo dizer, adeptos? fiéis?). Não, nada disso. Se estivesse numa televisão a apresentar qualquer coisa e fosse um rapaz garboso de fato azul escuro e bela gravata grená, podia escrever mistérios e até episódios eróticos de mau gosto, ninguém se importaria, sobretudo a minha conta bancária.
Sim, bem sei que estou a ser irónica e mazinha, mas o que querem? Parece que este é o nosso dia, o da mulher, porque o dos homens será todos os outros e nós, criaturas frágeis a precisar de protecção, temos de aproveitar este dia para falar alto e bom som das nossas dores tamanhas.
Ora, nós não precisamos de protecção, o que não significa que não possamos apreciar os gestos cavalheirescos, precisamos que nos encarem com a mesma seriedade com que encaram o sexo oposto, reconheçam o nosso valor, nos paguem os mesmos salários, nos dêem oportunidade de chegar aos mesmos cargos. Precisamos ainda que nos oiçam e percebam que o que se fez anos a fio, práticas seculares, não justificam o que continua a passar-se.
São vários os movimentos que tentam chamar a atenção para a causa feminina, já se sabe. Infelizmente, não são suficientes e, por isso, eu, cansativamente feminista, repito e volto a repetir as informações que cansam tantas mentes estafadas de ouvir estas mulheres que não sabem senão queixar-se. Um estudo da Deloitte demonstra que apenas 13% dos cargos de direção no nosso país são ocupados por mulheres. E quantas mulheres detêm e lideram conselhos de administração? Apenas 2%.
Portanto, pergunta para queijo: acham que nos temos queixado o suficiente? Olhe que não, caro colega, olhe que não.

Gostei muito. 🙂
“A minha vida é mais fácil do que a vida da Patrícia, não sou mulher” Altamente discutível (não sei é se alguém quer discutir) e tudo depende d definição de vida fácil!!!!
Relativamente ao título deste post, eu conheço pelo menos uma mulher que acha que, se fosse homem, isso seria não somente mais fácil mas também melhor. Uma mulher que se me mostrou claramente enojada pelo infeliz facto de menstruar e de ter umas mamas que são, em grande parte, constituídas por gordura.
Ouça lá, já deu algum linguado? Aquilo é só cuspe….e sexo oral, já praticou? Só fluídos vaginais…
Não me leve a mal, se me engano, mas para mim o Luís é gay. A unica parte anatómica pela qual revela alguma deferência é o pénis
“Um estudo da Deloitte demonstra que apenas 13% dos cargos de direção no nosso país são ocupados por mulheres. E quantas mulheres detêm e lideram conselhos de administração? Apenas 2%.”
E então? quantas mulheres querem ser directores ou querem ( fazer o esforço para começar cultural) ser directores.
Construam empresas, criem, façam.
Já foi ver quem está nos cargos de direcção de associações e outras organizações não empresariais – ou seja onde a competição não é tão acentuada?
As mulheres não são iguais aos homens.
> As mulheres não são iguais aos homens
Heresia. Pior, blasfémia contra o progresso iluminista. Fogueira ou degredo.
Mas vai ser divertido quando os cães também forem iguais. Já faltou mais.
Béu béu.
Eu como homem tenho “inveja” das mulheres só numa coisa: não posso passar pelas alegrias da maternidade. Não sei porquê, as mulheres desvalorizam a maternidade, sobretudo as feministas. Quando deviam considerar isso uma superioridade em relação aos homens, acho eu.
Sim, e provavelmente seria melhor (para mim!)…
Isto para dizer que, a meu ver, o que facilita ascensões de carreira e cargos de CEO e coisas que tais, é ser-se egoísta (vulgo: filho/a-da-puta)…
Que as “boas pessoas”, ao que parece, têm mais é que se ir desemerdando com as migalhas de terra que vão caindo das botas dos cabrões e cabronas que, pensando sempre no seu indivíduo antes de pensar no conjunto, os vão espezinhando na impetuosidade do seu bailarico!…
Não quero com isto negar a existência histórica das desigualdades de género, mas parece-me redutor que se expliquem todas as desigualdades pelo género, quando muitas podem resultar de diferenças de personalidade que não emanam necessariamente do género do portador…
Concordo com José Luís Peixoto e com o texto em geral. No caso das mulheres tudo é prova de esforço. Têm sempre de fazer várias coisas em simultâneo e a cadeia parece ininterrupta. No caso da escrita há quem consiga, pelo menos aos bocados, um quarto à prova de bala e escreva, pinte, vá poemando (normalmente também porque encontra e tem algumas ajudas, coisa que também se comercializa).
Mas, fora da escrita como profissão, as mulheres vivem assoberbadas e, infelizmente, quase sozinhas na labuta. Salvo raras excepções, acorrem a todos os fogos. Não sei se será assim em todo o mundo. Verdadeiramente étonné, um inglês disse-me ter verificado que as mulheres portuguesas trabalham muito mais que as inglesas.
Importante , importante é que tenha ensinado os seus filhos homens a serem independentes dos serviços de uma “criada” : foram ensinados a cozinhar , lavar a roupa , passar a ferro , aspirar , limpar a casa , mudar a fralda ? ou são os reizinhos da casa ?
E já agora, para sermos completos, ensinou-os a dar á luz e a amamentar?