Há alguns anos, num alfarrabista, tropecei neste “breviário de cultura”, o décimo quarto da coleção da escritora Gabrielle Froment-Meurice, dedicado à Vida Soviética e publicado no nosso país em 1976.
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A palavra “breviário” só a associava aos livros de orações diárias e por isso, por aparecer ali ao lado da foice e do matelo, despertou-me uma atenção especial.
A autora começa por descrever a grandeza do território da URSS. Para sobrevoar os seus 60.000 km de fronteiras seriam necessários três dias e três noite de voo num Tupolev 800 km/h. O clima é “sadio e tónico”, acrescentado que “os Russos veem nisso o segredo da sua robustez proverbial (“Aí onde um alemão morreria três vezes, o Russo nem sequer adoece”). O “a” minúsculo reservado para o gentílico da Alemanha é substituído por um decidido “R” maiúsculo para o congénere russo, o que também faz parte da mensagem.
Sobre os meios de transporte anotei duas passagens. “Contrariamente ao que se passa nos EUA, a aviação privada não existe na URSS” e ainda “As vias-férreas têm o afastamento de 1,52m (na Europa 1,44m) o que permite comboios mais pesados, mas reduz a velocidade.”
Sobre a população é referido que “o regime soviético procura reunir em torno de um ideal colectivo e de um trabalho comum conducente à homogeneidade social de grupos humanos pouco homogéneos por todas as suas características”. Esta passagem poderia alimentar uma extensa dissertação para quem estivesse interessado em desenvolver a temática do identitarísmo, o que não é o meu caso, mas não deixa de ser interessante.
No que respeita à urbanização o optimismo está sempre presente. É apontado o exemplo de Katchkanar no norte dos Urais “onde há dez anos se arroteava taiga, ergue-se hoje uma cidade de 35 000 habitantes, prevendo-se que dentro de poucos anos tenha 100 000. (ver link)” E continua dizendo que “Estas novas cidades não se criam por acaso, mas são inscritas no Plano.”
Depois de descrito o maior país do mundo, o assunto passa a ser o socialismo. No seu primeiro ponto “Fins e resultados” replica-se a sinopse da contra-capa.
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Não pretendo trazer para aqui todo o livro, que ainda apresenta uma extensa lista de estatísticas onde se incluem máquinas de costura produzidas, frigoríficos, aspiradores, rádios reparados e pares de calçado consertados, mas retenho um excerto da conclusão: “Ainda se está longe de resultados que satisfaçam uma sociedade à qual é cada vez mais difícil impor sacrifícios.”
Em 1976, este tipo de literatura podia condicionar escolhas políticas, era aliás esse o seu objectivo. Tal e qual como acontece em algumas religiões, o comunismo pratica um proselitismo quase agressivo e publicações como esta faziam parte do esforço de propaganda do país e do regime que aspirava a “mostrar o caminho para todo o Universo”.
Simultaneamente decorria a chamada corrida espacial que, se não servisse para mais nada, pelo menos servia para mostrar ao mundo a capacidade científica e tecnológica da URSS.
Pouco se sabia relativamente ao dia-a-dia efectivo do povo soviético. Era difícil confirmar a informação que chegava ao ocidente e os vazios que daí resultavam eram preenchidos pela imaginação dos apoiantes assim como dos opositores. O que se passou em Budapeste, e mais tarde em Praga, bastou para afastar alguns defensores do comunismo, mas nunca faltou quem continuasse a acreditar nos amanhãs que cantam.
Dúvidas relativas às falhas do capitalismo assim como das democracias liberais, eram alimentadas pela propaganda que garantia as vantagens da previsibilidade do Plano. Qual seria o desenlace deste confronto? Venceria o rigor do socialismo científico ou, pelo contrário, seria o caótico sistema liberal a perdurar no tempo? Quais os resultados da justaposição de uma infinidade de escolhas ditadas pelo livre arbítrio dos indivíduos e das empresas em concorrência, quando confrontados com o rigor da economia planificada?
O que aconteceu no virar da década de 80 para 90 já sabemos, mas enquanto que agora quando ouvimos tanta balela podemos esboçar um sorriso condescendente, nos anos 70 e 80 as dúvidas sobre a comparação dos dois modelos eram reais e o cenário de um possível holocausto nuclear era tudo menos animador.
No entanto, o confronto entre o sistema liberal e o autoritarismo socialista está longe de estar resolvido.
O que temos visto acontecer na China nas últimas duas décadas pode alimentar dúvidas similares. Que hipóteses têm os países democráticos, por muita criatividade e capacidade científica que tenham, perante um colosso industrial e económico dirigido a uma só voz, com uma visão de longo prazo, que não perde tempo na contagem de votos nem receia levar a cabo reformas repentinas? A URSS caiu devido às suas debilidades económicas, dirão alguns, mas o modelo chinês, além de parecer ter encontrado forma de que isso não lhe aconteça, lidera algumas áreas do conhecimento e da tecnologia e ousa desafiar a hegemonia dos EUA, e consegue-o mesmo sem ter um único aliado.
Encontram-se explicações para todos os gostos. Para uns o segredo estará na respectiva matriz cultural confucionista, que define a lealdade do indivíduo, para com os seus próximos e para com o seu governante, como uma das grandes virtudes humanas. Por oposição, a matriz judaico-cristã, da qual emana a essência cultural do ocidente, dá uma importância muito superior ao indivíduo. Numa conversa de café pouco preocupada com o rigor da terminologia, isto podia ser resumido como se os chineses e outros povos orientais vivessem numa lógica de formigueiro, em que os indivíduos não hesitam sem se sacrificar pela comunidade, o que nunca seria tão linear no mundo individualista do ocidente.
Os defensores da China argumentam que o Império do Meio já foi na antiguidade, e durante muitos séculos, o país com a maior economia e o mais poderoso do mundo, estando agora apenas a regressar ao estatuto que já teve, e de caminho aproveita para acertar contas das humilhações sofridas nos séc. XIX e XX.
Quem se identifica com este regime autoritário explica que o perverso sistema dos créditos sociais é muito querido entre os cidadãos chineses, e que apesar de até obrigar à leitura diária de algumas passagens do pensamento do Sr. Xi Jinping, é uma excelente medida para que todos se motivem a fazer parte do que descreveu num artigo de opinião no Diário de Notícias como sendo a Comunidade de Destino Comum da Humanidade.
Os que não aplaudem este Grande Irmão Orwelliano não têm sequer oportunidade de se manifestar, sendo-lhes reservado assim o papel das formiguinhas sacrificadas pelo bem da comunidade.
Será a dimensão da economia chinesa e a sua capacidade científica e tecnológica o seguro de vida deste regime autoritário? Até que ponto o seu sucesso constitui uma ameaça para os regimes liberais?
Jaime Nogueira Pinto, num dos excelentes podcasts em que participa, Radicais Livres e Conversas à Quinta, referindo-se ao fim da URSS, acrescenta um ponto que merece ser destacado. Segundo ele, mesmo com a baixa de preço do petróleo orquestrada pelos EUA e pelos sauditas nos anos 80, que conseguiu abalar irremediavelmente as finanças soviéticas, o que realmente desencadeou o seu colapso foi o fim do medo. A abertura do sistema iniciada pela Glasnost e seguida pela Perestroika levou ao fim do medo e, esse sim, era o cimento do regime.
A mais alta nomenclatura do PC Chinês sabe isso e não abre a mão do controlo férreo sobre os eventuais dissidentes. Alguns alertas sobre a solidez da economia do Sr. Xi Jinping mostram que o capitalismo de estado não está livre de erros nem das respectivas correcções, e correcções significam sempre crises. Mas, como disse acima, os donos da China sabem que mais importante que do manter o crescimento económico a um ritmo regular, o que precisam mesmo é de mostrar aos espíritos rebeldes, àqueles que aspiram a uma “liberdade” diferente, que se não seguirem ordeiramente dentro dos curros colocados pelo PCC, então têm tudo a perder. Os casos do desaparecimento temporário do empresário Jack Ma, ou mais recentemente da tenista Peng Shuai, são bem exemplificativos da forma como o regime chinês lida com quem internamente o afronte ou pense estar fora da sua alçada.
Não podemos esquecer também a forma como a minoria uígure é tratada. Apesar das poucas informações que conseguem cruzar a fronteira, o que sabemos é suficiente para a podermos designar como sendo o Gulag comunista do sec. XXI.
Tudo isto para enquadrar a questão que dá título ao postal. Do confronto entre os regimes liberais e o comunismo soviético, já sabemos o resultado. Qual será então o desenlace da competição estratégica em curso? Estará o mundo livre condenado a recuar naquilo que o define e, pouco a pouco, a aceitar o escrutínio de pensamentos idêntico ao do regime do Sr. Xi Jinping, ou poderão de facto todos os seres humanos aspirar a decidir sobre as suas vidas, a exprimir-se livremente e até a criticar os seus líderes se assim o entenderem?
Passarão muitos anos até que esta questão possa ser respondida, talvez tantos que muitos de nós não assistirão a esse dia. O trajecto até lá não será rectilíneo, mas não duvido que a aspiração pela liberdade é algo partilhado por todos os seres humanos, onde os chineses estão obviamente incluídos. Por isso, o comunismo voltará a ser derrotado.

disponível na Net
Dos visiones de la Unión Soviética: Stefan Zweig y Manuel Chaves Nogales
Stefan Zweig and Manuel Chaves Nogales: Two looks about USRR
JAVIER SÁNCHEZ ZAPATERO
Gostei muito de ler, Paulo.
Até arrepia ler frases como estas, inscritas na propaganda totalitária que tantos passaram décadas a debitar aqui:
«Trabalho comum conducente à homogeneidade social de grupos humanos pouco homogéneos por todas as suas características.»
«Estas novas cidades não se criam por acaso, mas são inscritas no Plano.»
Felizmente os “amanhãs que cantam” estão sepultados no caixote do lixo da História.
Olhe que não, olhe que não.
Existem muitas elaborações filosóficas sobre a relação entre o indivíduo e o grupo a que pertence, Pedro.
É um debate que deve ser reservado aos entendidos e quanto muito espreitado pelos curiosos, mas não deixa de ter piada que são os defensores destas mesmas tretas que hoje se arrogam defensores e representantes exactamente dos que não pertencem à maioria.
Então mas os que pertencem à maioria precisam de ter defensores?
para perceber a China terá de estudar muito bem a corrente filosófica chinesa “legalismo” .
https://pt.wikipedia.org/wiki/Legalismo_(f ilosofia_chinesa)
Vou espreitar. Mas por oposição o ilegalismo agrada-me.
Na China só o ilegalismo é revolucionário.
é muito curioso , mesmo , vai gostar. tm
aqui o resumo é bem bom
http://www.applet-magic.com/legalismsp.h
“Pouco se sabia relativamente ao dia-a-dia efectivo do povo soviético.”
Sempre se soube e sempre houve maneiras de saber. Era só contactar o pessoal diplomático e os poucos jornalistas não engajados que visitavam, mais os espiões .. Os regime Comunistas só duraram décadas por causa da censura do jornalismo ocidental, de boa parte dos artistas e da academia que sempre foram favoráveis ao Comunismo.
Não é por acaso que muitos poucos filmes foram realizados sobre a vitória do Ocidente sobre o Bloco de Leste após a sua queda. História varrida para debaixo do tapete.
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A China já não é Comunista. O PCC não anda a dizer às empresas quantas máquinas de lavar devem produzir, empresas podem ser criadas por quem quer que seja que não tenha caído em desgraça. Logo a riqueza pode crescer e pagar a ditadura. É um regime autoritário com acções totalitárias quando necessário. Se dermos uma grande pincelada é um regime Fascista, que o PCP defende…
Comunismo ali é só branding.
Não me parece que boa parte das pessoas no ocidente queiram Liberdade. Veja-se como não se importam que a UE defina uma data de regras para as suas vidas, que regras idiotas sobre o Covid sejam implementadas, etc. Mas já saem à rua porque o George Floyd foi morto por um idiota inconsciente nos EUA e convinha aos jornalistas aproveitar o caso para derrotar o Trump.
A China já não é Comunista. […] Comunismo ali é só branding. […] Não me parece que boa parte das pessoas no ocidente queiram Liberdade. Veja-se como não se importam […] que regras idiotas sobre o Covid sejam implementadas
Estou de acordo.
A China já não é comunista?
Bom, eles copiam tudo calhando a foice e o martelo da bandeira do partido é uma imitação e esqueceram-se da estrela-
E todas as empresas do país pertencerem ao Estado, será o que em tempos por cá chamava-mos “capitalismo monopolista de Estado’ ?
Pronto, então se já não é comunista nã há q’havera receio.
A liberdade já venceu, por isso é tão maltratada.
O que não seria para a economia mundial as grandes empresas capitalistas ou liberais , para não assustar as criancinhas, poderem expandir-se para milhões de chineses.
O problema está nas grandes empresas chineses não haver capitais dos poderosos capitalistas americanos, se assim acontece-se queriam lá saber do regime político, como aconteceu durante décadas nas repúblicas das bananas.
Um idoso comunista aqui da terra um dia desabafou que o comunismo ruiu porque havia interesses americanos em que isso acontecesse. Ele saiu-se com isto num tom de quem se queixa de que alguém faz batota, mas sem dar por ela fez uma análise bem certeira.
A General Motors desde há uns anos vende mais veículos na China que nos EUA… 67/vehicle-sales-of-general-motors-by-co untry/
https://www.statista.com/statistics/3043