Ser ou não ser Europa


lauraramos,

 

Ontem, por mera coincidência na véspera da Cimeira de Bruxelas e do ajuste sobre o futuro financeiro da UE, fui ouvir Eduardo Lourenço numa conferência ao pé da porta. Não sei se me irei lembrar muito deste dia (será um mau sinal). Ou se irei esquecê-lo, porque o filósofo tinha razão.
Seja como for, que bom é distanciar-nos das tecnicalities do euro e dos mercados e, sem deixar de lhes reconhecer a diabólica responsabilidade, voltar a pensar na Europa como Victor Hugo, Dellors ou Otto de Habsburgo: um compromisso possível de unidade. Recentrando a questão nos seus alicerces, que sempre foram, apenas, a nossa vontade colectiva.
Era uma sala pequena e calorosa, que reunia um máximo de 80 pessoas, literalmente levadas num voo de águia sobre esta Europa, o projecto comum europeu, o nosso destino solidário – ou não – e, sempre latente, o fatal -Que faremos ?

Nunca deixei de acreditar no sonho europeu, mas não tenho dotes de Cassandra para adivinhar o que lhe vai acontecer – dizia. A Europa comunitária que faz sentido é a da unidade cultural, mas está parada desde Maastricht. Não soube reagir ao desaparecimento de velhos fantasmas e dar sinais indispensáveis aos novos espaços europeus, como a Rússia (e no entanto é a pátria de Tolstoi e de Dostoyevsky…)  – E a Turquia? A Europa é filha da Ásia e sobretudo da Ásia-menor. E eu estou tão desesperado com a Europa que acho muito bem que esta entre!

Tudo isto dizia sem que, apesar das dúvidas e do fio da navalha, eu lhe tenha encontrado qualquer sinal de desencanto mórbido, como tantos lhe atribuem.
Para ele, a Europa continua indubitavelmente a ser o continente mais rico do mundo, a pátria da filosofia, da ciência, a quem ninguém desafiava até passar uma boa parte do séc. XX, quando a Europa não era a Europa, era o Mundo. A América e a Ásia? Poderão vir a igualar-nos, mas nunca antes do final deste século. O natural não é dividirmo-nos, é impormo-nos como um todo, apesar das  nações que nos têm impedido de construir como uma entidade. Apesar da pulsão messiânica da Alemanha, que lhe vem do seu conflito histórico com a latinidade. Apesar da França – a mais vencida de todas e também a única a achar que todos os povos poderão ser franceses… Apesar da Inglaterra, verdadeiramente a mais avançada de todos os países (como até o afrancesado Eça percebeu) e a única a achar que só os ingleses podem ser ingleses... Apesar de Portugal e dos portugueses, nesta nossa ambígua condição de sermos os primeiros europeus e também os primeiros não europeus, num Oriente ao oriente do Oriente, como dizia Pessoa… Sim, houve momentos de humor destes, ciciado e tecido a bilros, com quentes risadas de fundo.

Eduardo Lourenço nunca sentencia, nunca moraliza. A simplicidade com que se expõe, ao discorrer, bastaria para o tornar único. – Quantas vezes podemos, hoje em dia, ser poupados à exibição gratuita de vaidades, de poses fabricadas, de mitos palradores içados à categoria de fazedores de opinião, tão cheias do seu próprio eu e de nada? A qualidade humana e o génio, ou a superioridade intelectual, como queiram, podem coexistir, sim. E ele ali estava, cristalino e objectivo, ainda que relativize o poder da objectividade. Propenso a esta ou àquela corrente, sem pertencer a nenhuma. Contundente e ágil, sem levantar a voz. De tal forma que me apeteceu dizer, no fim: Meus senhores, falou-vos Eduardo Lourenço, um ‘não-lourenciano’…

16 comentários em “Ser ou não ser Europa”

  1. “Eduardo Lourenço nunca sentencia, nunca moraliza.”

    Isto é o quê?
    “A América e a Ásia? Poderão vir a igualar-nos, mas nunca antes do final deste século.”

    “O natural não é dividirmo-nos, é impormo-nos como um todo”
    Quem diz isto e empregar a palavra “natural” consegue criticar ao mesmo tempo de pulsão messiânica alemã!?
    Se há diferença na Europa o “natural” é estarmos divididos. E é assim que deve ser. Seria bem melhor aliás que houvesse mais divisões. Que a Alemanha não fosse só uma, que a França não fosse só uma.
    Quantos mais países melhor e não só na Europa.

    1. Proposta de difícil entendimento. O meu, que sou estúpido ao ter percorrido o mundo e verificar que a divisão só empobrece. Mas somente a título de exemplo, dizer-lhe que no novel pequeno país Timor-Leste existem 32 dialectos diferentes falados por gente aparentemente desigual. Deveriam existir 32 países?

      1. Não sei onde ficará o limite, João Severino, o equilíbrio é difícil. Mas nação e língua não são sinónimos, se tivéssemos de incluir nela os dialectos. Estou de acordo consigo, a divisão empobrece.

        1. E quando juntamente com os dialectos está a cultura, os hábitos, o artesanato, os ódios tribais, as crenças, etc.?

          1. Por muito que tudo isso sejam pré-existências importantes (e até persistências), não me parece que a evolução civilizacional vá no sentido de lhes dar o sentido de nação. Pelo contrário: retrocederíamos séculos. A História comum é que faz as nações. E então Portugal, o país com as mais velhas fronteiras europeias, não tem ele mesmo tanta e tão profunda diversidade cultural? Compare-se o Minho ao Alentejo ou Trás-os-Montes ao Algarve…já viu as diferenças entre os hábitos, o artesanato, os ódios tribais (leia-se: de paróquia), as crenças, etc?

          2. Ora aqui está a Laura a dar-me razão. A minha primeira intervenção foi mesmo para chegar a este ponto que salienta, quando quis responder ao seu leitor lucky que uma maior divisão não era solução.

      2. A Divisão aumenta a redundância das diferentes partes até certo ponto.
        Por outro lado o aumento da quantidade também pode aumentar a redundância se aumentar a variedade também até certo ponto.
        O aumento da variedade também aumenta os custos de manutenção. Mais diferenças implicam mais regras escritas e diminuição das regras não escritas.
        As regras não escritas são as que custam menos à sociedade.

        Outro aspecto: uma Democracia Mundial Acabaria sempre por ser uma tirania da maioria porque há demasiada diferença de valores entre as comunidades.
        Uma Democracia Europeia: seria menor na variedade da diferença mas ainda assim seria importante.
        Eu concordo com limites ao défice na Constituição pois limita os danos que os políticos podem fazer e limita a compra de votos, mas isso deve vir dos Portugueses não deveria ser imposto.

        A igualdade – todos agirem da mesma maneira -é uma aposta única. Por isso é que quando falha os resultados são desastrosos. veja-se a Educação Publica em Portugal. Domina toda a Educação mesmo a chamada Privada. Ora ao não haver liberdade foi uma aposta única, igualitária, todos apostaram no mesmo.
        É de casino.
        Para começar no mesmo currículo. O resultado disto é não haver redundância, escolha, caminhos, é único.
        A União Europeia leva também a Europa (quase)toda para o mesmo caminho. E se for o errado?

  2. «como até o afrancesado Eça percebeu»
    Como até?
    Eça era um conhecedor e, diria, um propagandista de Inglaterra e da cultura inglesa.

    1. Mas isso está implícito. E não é contraditório, SC. O que não invalida que o Eça e a geração perdida fossem francófilos até à medula, como é afirmado.

  3. Eduardo Lourenço, aos 88 anos, é um dos nossos raros ‘sages’. Como a maioria dos restantes, infelizmente, é uma voz que prega quase no deserto. Prega agora como pregou noutros tempos a propósito de outras questões em que fez gala de vincar a sua heterodoxia, contra as seitas dominantes.
    A crise da Europa confirma entretanto os vaticínios de todos quantos, num passado mais próximo ou mais distante, não queriam confinar Portugal ao espaço europeu: a nossa vocação é mais visionária, é mais universal. Temos o espaço atlântico, temos o espaço lusófono. A nossa identidade mais profunda, sem deixar de ser europeia, é inseparável destas duas dimensões.

    1. Sem dúvida, Pedro: por isso fomos ‘os primeiros europeus’, no sentido em que fomos nós literalmente a ‘pôr a Europa no mapa’, o mapa do mundo que descobrimos, no século XV. E os primeiros ‘não europeus’, porque por lá fomos ficando, nesses outros destinos de que falas. São duas vocações que não podemos trair, uma é genética, outra adquirida… Achei imensa graça quando Eduardo Lourenço, falando do momento (o meio do século XX) em que no mundo aparece o “2º ocidente”, os USA, claro, interrompe para falar daquilo que tinha sido a grande e verdadeira revolução da sua geração. Os presentes da minha (geração) ficaram absolutamente em suspenso, tentando adivinhar. Apetecia-me perguntar-te o que achas que ele respondeu, eheh;)):
      Mas pronto, eu digo: foi o cinema americano, nem mais, nem menos!E lá discorreu sobre o papel dos filmes na civilização e na cultura: foi uma verdadeira delícia.

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