O jornal espanhol Público, que aparecera em Setembro de 2007 com uma grande campanha publicitária, bom aspecto gráfico e uma conceituada equipa de jornalistas, acaba de encerrar a sua edição em papel, crivado de dívidas, mantendo apenas a versão digital. Tentou um objectivo impossível: destronar o El País como o mais influente diário lido pelos espanhóis que se consideram de esquerda. Era um desígnio impossível de atingir, como rapidamente se viu, apesar da fase menos boa que o El País atravessa. Os responsáveis do Público apontam a crise económica como principal motivo para o insucesso do jornal, que se revelou incapaz de fixar um núcleo de leitores fiéis em número suficiente para assegurar a sua manutenção nas bancas. Esta é uma das causas, mas nem todos os periódicos espanhóis se ressentem disso: vários, aliás, têm crescido em vendas e audiência.
Outro motivo invocado foi a crescente procura do suporte digital para a leitura de jornais, o que tem divorciado a geração mais jovem do papel. Este é um problema real que exige engenho e competência dos responsáveis pelas empresas de comunicação social praticamente no mundo inteiro (Índia e Japão são as excepções mais notórias). Mas a principal causa da falência do Público foi a excessiva colagem do jornal ao Governo socialista, impiedosamente castigado nas urnas pelos eleitores espanhóis a 20 de Novembro. Desde o início, a concorrência chamava-lhe “o diário de Zapatero” – e com razão. Este é um pecado mortal num jornal generalista: a excessiva colagem a uma facção política torna-os irrelevantes. As suas colunas servem apenas para pregar aos convertidos.
A outra razão para o fracasso deste título – de tal forma conotado com o socialismo espanhol que acompanhou José Luis Rodríguez Zapatero na sua queda – foi a ausência de grandes investigações. É outro pecado mortal, que em parte se liga com o primeiro: um jornal demasiado comprometido com o poder político tende a acomodar-se de tal forma que prefere ver as notícias incómodas publicadas na concorrência. Resultado: as grandes cachas jornalísticas da imprensa espanhola em 2011, como os múltiplos casos de corrupção em comunidades autónomas e autarquias ou as alegadas ligações de membros da polícia à organização terrorista ETA surgiram noutros títulos da imprensa. Curiosamente, a mais relevante de todas, relacionada com o eventual desvio de fundos públicos por Iñaki Urdangarin, genro do Rei Juan Carlos, resultou de uma investigação do El Mundo, jornal liberal de centro-direita, e não do Público, apesar das convicções republicanas deste último.
É um caso que justifica meditação: como afundar um título promissor por excesso de compromissos políticos e défice de vocação jornalística. E não tenhamos dúvidas: este é um problema que não ocorre só em Espanha.


Boa reflexão, compadre. Não sei como não assistimos a casos semelhantes por cá.
O ‘Público’ espanhol é um caso de estudo. Uma espécie de manual do que não se deve fazer enquanto estratégia jornalística.
Não é mesmo, sabemo-lo por experiencia própria, SE sabemos
É isso mesmo, Zé Manel. Um abraço.