O modelo pode ser criticável, o tempo limitado e as divergências nem sempre perceptíveis. Contudo, os debates têm servido para que em termos ideológicos seja feita a separação das águas. O de ontem entre Sócrates e Louçã foi exemplo. Depois de mortas e enterradas, as ideologias ressuscitaram em toda a sua pujança. Isso já tinha sido bastante evidente na discussão Jerónimo vs. Portas. A camuflagem ideológica não irá dar votos, mas com toda a certeza há-de vir a tirá-los. Louçã partiu à frente, teve oportunidade de lançar as primeiras farpas. Errou o alvo. Sócrates, com manifesta oportunidade e visível preparação, respondeu-lhe onde dói mais. Na ideologia. No ataque ao programa de nacionalizações do Bloco, no confronto com a política do Bloco em relação aos PPR, na forma como desmontou o irrealismo das teses do BE em matéria fiscal. O discurso tornou-se menos denso e Louçã veio então com a ideia da simplificação, trouxe o argumento do quanto mais simples melhor, quanto mais simples mais justo. O problema estava na eliminação das “armadilhas”. Ora, simplificação foi o que Estaline fez, foi o que Fidel Castro impôs em Cuba, foi o modelo da extinta RDA e é o que Chávez está a tentar fazer na Venezuela. Ao querer tratar todos por igual, através de uma anacrónica e insensata simplificação do sistema fiscal, com eliminação de escalões e de benefícios, Louçã está afinal a fazer reviver o mito da igualdade na sua pior forma. Uma coisa é simplificar, outra é clarificar. Louçã errou de novo o alvo. Ficou claro que o objectivo do Bloco é a polarização da sociedade, a radicalização do confronto a qualquer preço, a eliminação do que resta da classe média e dos remediados. Ficou claro que para o Bloco de Esquerda o direito à diferença, o direito a escolher, o direito a tratar de maneira diferente o que não pode ser tratado de forma igual, só faz sentido em matéria de costumes. Ridículo e insensato. Sócrates não perdoou. E Louçã acusou o toque quando aquele lhe disse que a escolha era entre Manuela Ferreira Leite e ele próprio, José Sócrates. Nessa altura, finalmente, Louçã desceu à terra. Sentiu então o peso da realidade como um tiro. A sua expressão foi a de quem percebeu que estava a ser desnecessariamente humilhado. Sócrates atacou Louçã no seu terreno com as armas que este mais utilizou durante quatro anos. De nada valeu a Louçã, à semelhança de um náufrago, apelar desesperadamente por Manuel Alegre ou agitar a bandeira dos votos do Bloco nas últimas eleições. A bóia não apareceu. Sócrates poderá não ser um modelo de liderança exemplar, poderá revelar fragilidade nalgumas matérias, mas chegou e sobrou para Louçã. Ferido na ideologia, Louçã ainda tentou voltar à Mota-Engil, ainda quis falar de adjudicações inexistentes, quis atirar números para a fogueira, num exercício puramente charlatanesco. De nada lhe valeu. Já era tarde. Mesmo para quem não lê os programas dos partidos e se limita a acompanhar os debates pela televisão, as escolhas começam a ficar mais claras. À direita temos um CDS berlusconiano, que se habituou a surfar a onda, a cair e a apanhar a seguinte, e um PSD aznarista, que procura manter os cacos unidos, esconder os fantasmas no roupeiro e desesperadamente chegar ao poder para sobreviver. À esquerda surge-nos um Sócrates estranhamente sarkoziano, em especial na sua relação com os media, claramente desgastado mas ainda com genica e aprumo suficientes para liderar. Louçã mostrou já não poder iludir por mais tempo a natureza chavista do seu discurso. Quanto a Jerónimo de Sousa corre sozinho. As suas eleições são outras e jogam-se internamente. O discurso de que quer retirar a maioria absoluta ao PS ou impedir uma vitória da direita serve apenas para o posicionar internamente. Atirar areia para os olhos das pessoas deixou de dar votos. A crise não engana. A eleição decidir-se-á não nos votos que se conquistarem, mas nos votos que não se perderem. Quem perder menos votos a favor dos adversários e da abstenção será o vencedor.

Concordo em grande parte com o que escreves, Sérgio. E, como se percebe pelo que já ontem escrevi, no rescaldo imediato do frente-a-frente, também considero que Sócrates venceu Louçã ao fazer com ele o que o coordenador do BE fizera na antevéspera com Ferreira Leite: argumentar politicamente recorrendo ao progama eleitoral do adversário.
Chamo-te no entanto a atenção para um ponto: ao salientar que “só existem duas opções (o PS e o PSD)”, Sócrates está também ele a simplificar. Não há só duas opções: à partida todas são válidas. E que a coisa não é assim tão simples demonstram-no as sucessivas proclamações, por parte de socialistas e de sociaisdemocratas, a favor do Bloco Central. Caricaturando, as “duas opções” de Sócrates ficariam assim reduzidas a… uma.
Sim, Pedro, bem te entendo, à partida todas são válidas, é certo, mas à chegada só duas. As outras fazem ondas, agitam, criam problemas acrescidos, nada mais.
Não subscrevendo integralmente um ou outro detalhe, acabo de ler aqui uma excelente análise bem delineada sobre o panorama político-partidário que se apresenta a eleições. Com ponto de partida (e muito bem visto) no truculento debate de ontem.
Uma boa análise ao que se passou ontem e o que está em jogo daqui para a frente, principalmente no sábado entre Sócrates e MFL.
Leio sempre os seus textos de fio a pavio. Não comento, mas leio.
:))))
Convenhamos que nem sempre é fácil, a menos que se coleccionem para as leituras de Verão. Hehe…
Não seja mauzinho.
Entretanto, bea
:)))