Separação das águas


Sérgio de Almeida Correia,

 

O modelo pode ser criticável, o tempo limitado e as divergências nem sempre perceptíveis. Contudo, os debates têm servido para que em termos ideológicos seja feita a separação das águas. O de ontem entre Sócrates e Louçã foi exemplo. Depois de mortas e enterradas, as ideologias ressuscitaram em toda a sua pujança. Isso já tinha sido bastante evidente na discussão Jerónimo vs. Portas. A camuflagem ideológica não irá dar votos, mas com toda a certeza há-de vir a tirá-los. Louçã partiu à frente, teve oportunidade de lançar as primeiras farpas. Errou o alvo. Sócrates, com manifesta oportunidade e visível preparação, respondeu-lhe onde dói mais. Na ideologia. No ataque ao programa de nacionalizações do Bloco, no confronto com a política do Bloco em relação aos PPR, na forma como desmontou o irrealismo das teses do BE em matéria fiscal. O discurso tornou-se menos denso e Louçã veio então com a ideia da simplificação, trouxe o argumento do quanto mais simples melhor, quanto mais simples mais justo. O problema estava na eliminação das “armadilhas”. Ora, simplificação foi o que Estaline fez, foi o que Fidel Castro impôs em Cuba, foi o modelo da extinta RDA e é o que Chávez está a tentar fazer na Venezuela. Ao querer tratar todos por igual, através de uma anacrónica e insensata simplificação do sistema fiscal, com eliminação de escalões e de benefícios, Louçã está afinal a fazer reviver o mito da igualdade na sua pior forma. Uma coisa é simplificar, outra é clarificar. Louçã errou de novo o alvo. Ficou claro que o objectivo do Bloco é a polarização da sociedade, a radicalização do confronto a qualquer preço, a eliminação do que resta da classe média e dos remediados. Ficou claro que para o Bloco de Esquerda o direito à diferença, o direito a escolher, o direito a tratar de maneira diferente o que não pode ser tratado de forma igual, só faz sentido em matéria de costumes. Ridículo e insensato. Sócrates não perdoou. E Louçã acusou o toque quando aquele lhe disse que a escolha era entre Manuela Ferreira Leite e ele próprio, José Sócrates. Nessa altura, finalmente,  Louçã desceu à terra. Sentiu então o peso da realidade como um tiro. A sua expressão foi a de quem percebeu que estava a ser desnecessariamente humilhado. Sócrates atacou Louçã no seu terreno com as armas que este mais utilizou durante quatro anos. De nada valeu a Louçã, à semelhança de um náufrago, apelar desesperadamente por Manuel Alegre ou agitar a bandeira dos votos do Bloco nas últimas eleições. A bóia não apareceu. Sócrates poderá não ser um modelo de liderança exemplar, poderá revelar fragilidade nalgumas matérias, mas chegou e sobrou para Louçã. Ferido na ideologia, Louçã ainda tentou voltar à Mota-Engil, ainda quis falar de adjudicações inexistentes, quis atirar números para a fogueira, num exercício puramente charlatanesco. De nada lhe valeu. Já era tarde. Mesmo para quem não lê os programas dos partidos e se limita a acompanhar os debates pela televisão, as escolhas começam a ficar mais claras. À direita temos um CDS berlusconiano, que se habituou a surfar a onda, a cair e a apanhar a seguinte, e um PSD aznarista, que procura manter os cacos unidos, esconder os fantasmas no roupeiro e desesperadamente chegar ao poder para sobreviver. À esquerda surge-nos um Sócrates estranhamente sarkoziano, em especial na sua relação com os media, claramente desgastado mas ainda com genica e aprumo suficientes para liderar. Louçã mostrou já não poder iludir por mais tempo a natureza chavista do seu discurso. Quanto a Jerónimo de Sousa corre sozinho. As suas eleições são outras e jogam-se internamente. O discurso de que quer retirar a maioria absoluta ao PS ou impedir uma vitória da direita serve apenas para o posicionar internamente. Atirar areia para os olhos das pessoas deixou de dar votos. A crise não engana. A eleição decidir-se-á não nos votos que se conquistarem, mas nos votos que não se perderem. Quem perder menos votos a favor dos adversários e da abstenção será o vencedor. 

7 comentários em “Separação das águas”

  1. Concordo em grande parte com o que escreves, Sérgio. E, como se percebe pelo que já ontem escrevi, no rescaldo imediato do frente-a-frente, também considero que Sócrates venceu Louçã ao fazer com ele o que o coordenador do BE fizera na antevéspera com Ferreira Leite: argumentar politicamente recorrendo ao progama eleitoral do adversário.
    Chamo-te no entanto a atenção para um ponto: ao salientar que “só existem duas opções (o PS e o PSD)”, Sócrates está também ele a simplificar. Não há só duas opções: à partida todas são válidas. E que a coisa não é assim tão simples demonstram-no as sucessivas proclamações, por parte de socialistas e de sociaisdemocratas, a favor do Bloco Central. Caricaturando, as “duas opções” de Sócrates ficariam assim reduzidas a… uma.

  2. Não subscrevendo integralmente um ou outro detalhe, acabo de ler aqui uma excelente análise bem delineada sobre o panorama político-partidário que se apresenta a eleições. Com ponto de partida (e muito bem visto) no truculento debate de ontem.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *