Pluralismo? Qual pluralismo? Os canais televisivos portugueses especializados em informação contínua vão-se plagiando mutuamente, concedendo cada vez mais espaço e cada vez mais tempo a um só tema. O desporto. Melhor dizendo, a uma só modalidade desportiva. O futebol. Melhor dizendo, apenas a três clubes de futebol. Benfica, Porto e Sporting.
Tudo gira em função disto. Nada sabemos do que se passa no mundo vendo estes canais. Mas sabemos tudo – mesmo tudo – do que decorre em redor de três estádios de futebol. Haja ou não haja jogo.
Não adianta mudar de canal. Porque todos mostram o mesmo. Mais do mesmo, sempre mais do mesmo, sempre mais do mesmo.
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Os canais televisivos portugueses especializados em informação contínua
Refere-se aos canais por cabo (TVI-24, SIC-Notícias, RTP-Informação)? É que nos canais generalistas (os únicos que vejo) o panorama não é muito distinto. Eu julgava que no cabo fosse melhor…
É pior. Porque há muito mais espaço “noticioso” a preencher com pseudo-informação sobre futebol – antes, durante, depois. O equivalente às telenovelas nos canais generalistas.
Totalmente de acordo: ontem à noite foram 20 m (todos) para a “tempestade”! sobre futebol são dezenas de horas semanais de benfica/porto/sporting – que país:(
Estes conteúdos “informativos”, meu caro, são o sonho de qualquer aspirante a ditador. Pode acontecer seja o que for: nada prevalece sobre os interesses dos três clubes que monopolizam praticamente a bola nacional. Com a diferença de que não é preciso instaurar nenhuma ditadura para que isso aconteça: a “democracia” televisiva encarrega-se, ela própria, de instaurar a censura aos conteúdos extra-futebol.
E o mais extraordinário é que quase ninguém debate isto. Como se fosse tabu. Como se fosse pecado.
E nem sequer nos dão um cheirinho dos Jogos Olímpicos, isto mantendo-me na onda desportiva que nem falo do resto.
Joana
Certíssimo, Joana. E neste caso o chamado “serviço público” devia fazer a diferença. Precisamente em nome do pluralismo de conteúdos informativos a que o cidadão/contribuinte tem todo o direito. Mas não. Espreito de momento quatro ecrãs sintonizados em canais diferentes: a SIC Notícias dá… paleio sobre futebol, a TVI24 mostra-nos… paleio sobre futebol, a RTPi exibe… paleio sobre futebol.
Já era assim há uma hora, já era assim há duas horas.
Resta-me a CNN onde acompanho uma ninharia: a conferência de imprensa em directo, na Casa Branca, dada por Obama e Hollande. Algo que não interessa nada: nenhum deles é jogador de futebol.
O serviço público é feito na RTP2, que transmite regularmente eventos de outras modalidades desportival que não o futebol.
Aliás, seria ridículo que o serviço público fosse feito num canal por cabo, ao qual boa parte da população não tem acesso.
Se o serviço público é feito pela RTP2, como escreve, então só há uma coisa a fazer com a RTP1: acabar com ela. Porque raio há-de o estado manter uma operação de carácter comercial (mal algum, no facto em si mesmo, entenda-se) e apostada na programação imbecilizante pura e dura? Mais ainda quando manifestamente se mete nessa guerra, sorve milhões de euros de dinheiros publicos – em nome desse tal serviço público (que envolve, está visto o metóico embrutecimento das massas) -, e perde-a perante as estações privadas.
Ah, sim, claro: dá muito jeito ao poder. Seja qual for a sua cor.
Costa
só há uma coisa a fazer com a RTP1: acabar com ela
Estou plenamente de acordo consigo. Para serviço público o canal 2 chega e sobeja.
Os Jogos Olímpicos foram comprados em exclusivo pela SportTv. Por isso nenhuma outra estação os transmite.
De resto, como é sabido, os desportos de inverno têm em Portugal pouca adesão, pelo que não me parece estranho que não sejam transmitidos.
Em geral, o pluralismo em televisão é na prática uma mentira, pois, mesmo quando há dezenas ou centenas de canais por cabo, na prática só meia-dúzia deles é que têm audiências que justifiquem uma programação ativa e diferenciada, os restantes transmitem enlatados e têm audiências residuais. A experiência mostra isto em múltiplos países.
Mais quantidade não implica maior diversidade, como temos visto.
Como escrevia há dias o Joaquim Vieira, não houve jogo e eles até conseguem ficar a discutir e a opinar como se tivesse havido jogo…
Fizeste bem em trazer aqui a opinião do Joaquim Vieira, personalidade de referência no jornalismo português, Sérgio. Poucos, muito poucos, sabem reflectir de forma tão acertada sobre estas questões. Que não se circunscrevem aos jornalistas pois são questões de cidadania também.
É verdade. E é impressionante!
Não há democracia saudável sem uma opinião pública esclarecida. E não existe opinião pública esclarecida sem bom jornalismo. E não há bom jornalismo enquanto os ‘media’ continuarem a bombardear as pessoas, a todo o momento, com “notícias” alusivas a três clubes de futebol, que ocupam mais tempo e mais espaço do que tudo o resto somado neste país.
Agora o que está a dar é directos da Costa da Caparica, à noite, e mesmo que a maré esteja baixa e nada aconteça, para lá de ser hora em que pouco ou nada as câmaras conseguem mostrar (salvo o restaurante “O Barbas”) e os repórteres no local fazem figuras de parvos chapados.
Mostrarem o restaurante do ‘Barbas’ é, no fundo, outra maneira de continuarem a falar de futebol.
Até hoje nem uma imagem/reportagem dos Jogos Olímpicos de Inverno..!
Devem ter congelado.
Caro Pedro Correia,
E a rádio é igual – tanto Antena 1 como TSF passam metade do dia a falar de futebol.
Eu – mesmo sabendo que eu não tenho o direito de exigir nada – como cidadão (e contribuinte) “agradecia” que o Serviço Público de Televisão e Rádio se LIMITASSE a dar os resultados dos jogos de futebol (eventualmente destacando feitos de relevo, como ganhar uma competição). Mais nada.
No domingo, quando nada aconteceu (havia um jogo que foi anulado), houve horas e horas e horas e horas de emissão em directo, sempre em directo, sobre esse nada.
Esta tarde está a acontecer o mesmo. Longas horas antes do suposto desafio, rádios e televisões instalam tenda nas imediações do estádio discorrendo sobre o nada. O suposto jogo só começará depois das 20 horas, mas não se tem ouvido mais coisa nenhuma durante o tempo todo.
Vejo neste momento a CNN a transmitir em directo a conferência de imprensa Obama-Hollande. Que é isso comparado com o nada? Os canais portugueses permanecem todos fixados no nada sob a metáfora de uma bola de futebol imobilizada. No domingo, o temporal afectou grande parte do País, mas o que interessava era a re-re-re-re-reportagem sobre o jo-jo-jo-jo-jogo que não houve.
Nunca o nada teve tanto tempo de antena, meu caro. Claro que o chamado “serviço público” podia ser diferente. Mas não é. A diferença reside apenas no facto de ser pago por todos nós. Mesmo os que odeiam futebol.
Caro Pedro Correia,
O problema radica, e muito, no conceito de “informar”. Que os privados “informem” o que as pessoas querem ouvir (“bola” e “faca e alguidar”), acho mal, mas é lá com eles e os seus anunciantes.
Agora, esperava que o serviço público de televisão (e rádio) se dedicasse a informar na verdadeira acepção do termo, a dar informação a quem não a tem, a dizer o que se passa no país e no mundo. E, se não for pedir muito, apresentar a informação de maneira a suscitar o debate e o pensamento. Apostar nas reportagens que mostram os dois lados da questão, evitando tomar partes (compete a quem vê e ouve fazer isso – não ao jornalista, salvo em sede de editorial ou coluna de opinião).
Infelizmente digo-lhe, e fugindo ao assunto futebol, que tenho cada vez mais dificuldade em comprar e ler um jornal, porque são quase uniformemente maus, ou de assistir a um telejornal (pelo mesmo motivo e sei, logo à partida, que apenas me vale a pena assistir à primeira metade). Da mesma forma desisti de ver o “Prós e Prós”, perdão, Prós e Contras, pela mediana e fraca participação dos intervenientes. E já estou saturado do comentário político, normalmente pouco profundo (insightful?), rígido e monocórdico. E, para terminar, assistir a entrevistas cá costuma ser penoso – os entrevistadores oscilam entre uma falta de acutilância (os “deixe-me começar por dizer” deviam ser terminantemente proibidos – não deixem nada) e a inpreparação.
Quando vivi em Inglaterra dava gosto ver as entrevistas na BBC com políticos, que suavam (literalmente) sob as perguntas dos jornalistas, dava gosto ouvir rádios que discutiam assuntos mais ou menos polémicos com profundidade, o dia todo (e sem futebol!), dava gosto ler (alguns) jornais, com reportagens de fundo, com investigação a sério, sem medos e falsos “respeitos”.
Cá, sobram alguns bons blogues (e parabéns mais uma vez ao Delito), algumas colunas de opinião e o ocasional fogacho na televisão e rádio. Fora isso, panis et circenses.
Partilho boa parte da sua reflexão, meu caro. Sobretudo relativamente às responsabilidades que temos o direito de exigir ao serviço público. Os privados prestam contas apenas aos seus accionistas. Mas o serviço público deve prestar contas a todos nós. Se for apenas para imitar o que fazem os privados por que motivo continuará a ser pago com o dinheiro dos nossos impostos?
É verdade. Até enjoa. Infelizmente, não parece haver ninguém interessado em preencher esse espaço. E ainda dizem que os portugueses são inovadores e empreendedores e tal…
Mas há opções: ver um canal noticioso estrangeiro, ou um filmezito, ou um ou outro documentário…
Ou desligar a televisão…
Qualquer delas é uma boa opção, na verdade. Mas o problema de fundo permanece.
Pluralismo?! Vade retro. Mas então como os jornalistas mudavam de jornal se por acaso o jornal não tiver a mesma ideologia?
Só se forem todos iguais é que os jornalistas prosperam e fica fácil ser jornalista.