
Jeanne Moreau em La Baie des Anges, de Jacques Demy
O nosso João Campos deu-me uma boa notícia: o cinema sem pipocas vai resistindo como pode no circuito de exibição em Lisboa, mesmo em tempo de pandemia.
Eu há sete meses que não o frequento.
Desde o ciclo Carta Branca 2020 a Jorge Silva Melo, na Cinemateca, no início de Março.
Ainda o aproveitei como pude.
No dia 2, revi a fabulosa Carmen Jones (1954), de Otto Preminger.
No dia 5, vi pela primeira vez um interessantíssimo filme de Carol Reed passado em Belfast, com o conflito anglo-irlandês em fundo: Odd Man Out (de 1947, com James Mason), já com muitos elementos estéticos que prenunciavam o magnífico O Terceiro Homem, rodado em Viena dois anos depois.
Vi ainda La Baie des Anges (1963), de Jacques Demy, com a magnética presença de Jeanne Moreau. Extraordinária actriz que sempre me fascinou.
Foi a 9 de Março, uma segunda-feira. Na véspera, tinha ido ao futebol, no estádio do meu clube, ver o Sporting-Aves – estreia do treinador Rúben Amorim em Alvalade.
As escolhas de Silva Melo pareciam excelentes, o ciclo prometia muito: infelizmente, ficou amputado pela pandemia.
Deixei de frequentar salas de cinema, até agora. E continuo impedido de frequentar estádios de futebol.
Tanta coisa tem mudado nas nossas vidas desde então. Também isto. Parecem detalhes, mas não são.

Por que não frequenta cinemas? Que eu saiba, são locais pouco frequentados e onde o distanciamento social é grande.
Tenho o maior receio. Posso lá encontrá-lo a si.
O São Jorge ainda funciona ou está reservado para festivais?
Dêem-se por satisfeitos, na grande maioria das santas terrinhas há cinema de Centro Comercial (com pipoca e telemóvel), e vai que chuta…
É todo um negócio que ameaça ruir de vez. Seja em Lisboa, seja onde for.
Julgo que o São Jorge está reservado para festivais e alguns eventos ocasionais, mas não estou 100% certo disto.
Em Lisboa, cinema alternativo e sem pipocas provavelmente só na Cinemateca, no Nimas, no Cinema Ideal (péssimas cadeiras) e em alguma sessão ocasional do El Corte Inglés, das Amoreiras ou do CinemaCity de Alvalade, talvez…
Claro que não são detalhes. Ser obrigada a ver um filme de máscara, ou assistir a qualquer espectáculo de cara tapada, não é um detalhe. A mim incomoda-me. É razão suficiente para me levar a desistir. Este ano fui à Feira do Livro e odiei a experiência. Retira todo o prazer, impede-nos de relaxar.
Concordo totalmente. Eu também não vou a espetáculos, porque não estou para estar mascarado o tempo todo.
Mas você anda mascarado o tempo todo, Lavoura.
Anda mascarado de “balio”.
Também detestei essa experiência, Teresa. O calor era tanto que me vi forçado a mudar duas vezes de máscara, por terem ficado empapadas de suor. Às tantas já confundia a Lolita com a Rosa do Adro…
Dizem-me que as máscaras de cortiça são bastante frescas. Arranje uma. A minha custou-me sete euros, mas ainda nunca a usei…
Hei-de tratar disso. Quando for ao Alentejo.
De máscara não há pipocas nem sorver refrigerantes. Nem tudo é mau
Ainda hão-de inventar máscara com buraco precisamente para se enfiar a palhinha para sorver o refrigerante. Salvo seja.
Nem mais, Teresa. O cinema, para mim, é um local para relaxar, independentemente do filme. O escuro e o espaço da sala são elementos que convidam a isso. A máscara tira totalmente qualquer hipótese de relaxar. Na feira do livro, apesar de tudo, uma pessoa sempre se pode afastar um pouco, estando ao arlivre (falo da do Porto). Numa sala mais interior é absolutamente impossível. E eu que sempre vi os cinemas como refúgios…
Este assunto é pertinente – por exemplo, ainda agora com o anunciado novo adiamento da estreia do “007-No time to die” para Março, uma das maiores cadeias de cinema do Mundo, ameaçou fechar portas ( o que não admira depois de um semestre com 1.5 mil milhões de prejuízo).
Será que há uma justificação racional para as medidas adoptadas para o futebol e para o cinema? Eu já tenho a cabeça à roda com tanta contradição e tanta teoria falhada.
Já não sei em quem acreditar, e no que acreditar.
Já no Conselho de Estado pode-se comparecer, mesmo infectado, e ninguém ficar de quarentena – excepto a única estrangeira que lá se encontrava.
Dois pesos, duas medidas. Tem sido assim desde que a pandemia chegou cá.
Ao contrário dos estádios de futebol, as salas de cinema podem receber público. Mais do que isso: precisam de público. Agora, com tanta estreia adiada… mencionou o mais recente 007; também o “Dune” de Denis Villeneuve, previsto para este ano, viu entretanto a sua estreia adiada por mais… um ano. O que não augura nada de bom.
(não frequentava estádios antes da pandemia nem tenciono fazê-lo agora, mas a restrição também me parece arbitrária)
Sem cinema e sem futebol, valha-nos o humor destas “fake news” em que se pode confiar.
O presidente dos EUA encontra-se impossibilitado de disseminar o vírus e contagiar quem quer seja, uma vez que passou a vestir cuecas com a inscrição “Black Lives Matter”, a mesma que figurava no veículo em que agradeceu aos apoiantes no exterior do hospital onde se encontrava. Como é bem sabido, aquele slogan impede a propagação do vírus.
Para tornar a medida mais eficaz, também todos os funcionários e jornalistas afectos à Casa Branca se encontram obrigados a participar em dois protestos pacíficos diários enpunhando cartazes com aquela inscrição, concedendo-lhes que possam partir e incendiar tudo à sua frente, desde que pacificamente. Não há vírus que lhes resista.
O governador de Nova Iorque, aquele estado que conta com 1800 óbitos por milhão de habitantes, a maior parte dos quais ocorridos em lares de idosos, colocou à disposição do presidente uma magnífica suite num desses lares para uma mais rápida convalescença, realçando a grande experiência que os lares do estado de Nova Iorque têm no tratamento de doentes com COVID-19.
“Now we’ve got plenty of space, and it’s really quiet around here – honestly, it’s to die for”, terá afirmado o governador Cuomo.
Em caso de conflito com a agenda do presidente, o governador terá oferecido como alternativa o envio de doentes com COVID-19 para a Casa Branca.
Se não me engano, o último filme que vi no grande ecrã terá sido o “J´Accuse”, de Polansky. Andei a adiar com um amigo o “1917” até ser tarde demais. Curiosamente este até tem sido um ano de de ver todo o tipo de filmes (desde estapafúrdias comédias americanas da actualidade, como “The Hangover”, até aos clássicos que ainda me faltavam, como “A Janela Indiscreta”, “O Dia do Chacal” (de que um dos protagonistas é Michael Lonsdale, desaparecido há dias) ou “Blade Runner”. Mas lá está, tudo no pequeno ecrã. Por vezes é bom, embora eu tenh o mau hábito de parar os filmes e de os ver em dias separados, mas confesso que sinto a falta dos cinemas e também temo pelo seu futuro. Pena que não se tenham proporcionado mais drive-ins por cá…
Aliás, temo por imensas coisas da vida normal se isto durar para lá do razoável. O desporto amador, aquele que não tem a vigilância que o futebol profissional tem, é outra coisa ameaçada. E tantas outras coisas. O “distanciamento social” é mesmo uma coisa anti-humana.
Pena não teres visto “1917” no cinema, João Pedro: é daqueles filmes que exigem mesmo ser vistos em ecrã grande – aqui o tamanho importa.
Um filme com imenso impacto visual graças a um prodígio técnico: decorre quase todo num longuíssimo plano-sequência, sem cortes. Algo que Hitchcock experimentou no seu clássico “A Corda”, mas tinha de “inventar” cortes de dez em dez minutos para haver mudança de bobinas – o que hoje não é necessário. Ou que Robert Altman levou à prática nos dez ou doze minutos iniciais dessa obra-prima da década de 90 que é “O Jogador”.
Concordo em absoluto contigo: «Temo por imensas coisas da vida normal se isto durar para lá do razoável. O desporto amador, aquele que não tem a vigilância que o futebol profissional tem, é outra coisa ameaçada. E tantas outras coisas. O “distanciamento social” é mesmo uma coisa anti-humana.»
O vírus lesa-liberdade é tão preocupante como a progressão da pandemia. Começando pelas noções que nos andam a ser incutidas, como essa do “distanciamento social”.