– E para beber, o que deseja?
– Uma cola.
– Não temos. Só Pepsi. Pode ser?
– Pode. Pepsi também é cola.
– Como disse?
– Nada…
– E deseja a Pepsi fresca?
– Claro.
– Gelo e limão?
– Limão, não. Só gelo.
– Não deseja limão?
– Não. Só gelo.
– E quantas pedras?
– Duas ou três.
– Uma palhinha?
– Não é preciso. Detesto palhinhas.
– Como disse?
– Nada…

Uma tarde ao balcão da Brasileira
-Uma bica e uma garrafa de água por favor
tudo normal a bica meia fria e sem copo para a água
– se não é pedir muito agradecia um copo por favor
a criatura olhou para mim de uma forma que detesto
e qual não foi o meu espanto trouxe um copo cheio de água
da torneira e afastou-se para o fundo do balcão.
Nesse dia até tinha tempo para confusões. Pedi ao empregado que
tinha à frente para chamar a menina que me serviu.
– agradecia que me explicasse o que significa tudo isto
a arrogância da criatura foi tal que muito calmamente levou o
arrepiu da vida dela.
Normalmente não perco tempo com confusões… mas uma vez mais
se tivesse feito o pedido em Inglês o olhar teria sido diferente .
Ser discriminada no meu país obriga-me a andar com os arrepios na mão .
Triste mas usual .
Espanto-me com as dificuldades de comunicação existentes nas mais vulgares situações do quotidiano. Como se não vivêssemos no mesmo país, como se não partilhássemos a mesma cultura, como se não falássemos a mesma língua.
Acho que o problema pode estar na língua, talvez na bica meia fria. É que os advérbios em português são invariáveis, não se põem no feminino. Pode haver dificuldades de compreensão quando o português não é escorreito. Daí por vezes ser preferível tentar o inglês.
Deve ser essa a razão de não ter conseguido um
copo para beber a minha água. Uma questão de
advérbios. Agradeço a explicação e a sugestão de
falar em inglês, é sem dúvida bem mais simples que
o português . Deixe-me dizer-lhe que a sua superioridade
não me deixa indiferente.
Mesmo não vivendo no país,partilho a mesma cultura
e se bem que a minha linguagem escrita seja dramática
a minha linguagem oral é bem mais elaborada e não reflete
quanto a mim quem sou.
São de facto terríveis estas dificuldades . Qual a explicação? Ignoro e
lamento.
( arrepio e não arrepiu )
Uma linguagem que sempre me fascinou.
Eu também, Kika. Por vezes apetece até pôr fim a uma conversa mais chata com o recurso precisamente a isso. À linguagem gestual.
O funcionário pode não ser muito esclarecido, mas é prestável e pretende ser simpático, coitado…
De quando em vez, podemos experimentar pôr-nos no lugar deles, funcionários, quando por exemplo uma chusma de brasileiros deslumbrados lhes entra porta dentro e a primeira coisa que perguntam é “fálá porrtugueich”?
Nunca apanhei uma chusma dessas, Dulce. Apanhei já vezes sem conta, isto sim, situações como a que relato aqui. Esta até foi das menos problemáticas: só envolveu nove perguntas, nada mais.