Se Deus Quiser


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Tabu de Marcelo: diz que não faz mais campanhas “se Deus quiser”; e recandidatura “está nas mãos de Deus”. 

 

A forma como os locutores da tv estatal se dirigem aos “caros telespectadores” é algo relevante e passível de crítica. Não só pela disseminação do sotaque televisivo (a potenciação do canibalismo fonético da classe média lisboeta) que muito obsta à nossa compreensão pelos outros falantes de português – que é algo relevante quando se discute o AO90, ainda que os especialistas lusocentrados, mesmo quando oponentes daquela tralha, nunca notam. Ouçam com atenção António Costa a falar (o qual, de facto, fala só um bocadinho pior do que eu) para atentar neste “linguacídio” (diz-se glotocício, mas enfim, há quem esqueça o termo) em marcha …

Mas há outros detalhes. Há anos muito me irritava, por descabido, o piscar de olho com que JRS se despedia no final do telejornal (“quem é este gajo para nos piscar o olho?”). E, mais do que tudo, irritava-me, e cheguei a blogar sobre isso, logo no início da minha blogomania, em Dezembro de 2003, a descabida expressão de José Alberto Carvalho que costumava anunciar, impante, ser o telejornal transmitido para “todo o mundo português”. Saberia o tipo sabia que passava em directo na RTP-África? Não haveria alguém que lhe dissesse (e não havia mesmo) o bafiento tom colonial que isso transmitia?

 

Mas enfim, leio agora que uma conhecida jornalista critica uma colega por se despedir com o tão usual “se Deus quiser”. Como ateu e defensor da laicidade dos serviços estatais também concordo, “não havia necessidade” como dizia o grande humorista …

 

E lembro-me de tempos muito recuados, quando vigorava o “compromisso histórico”, como se diz geringonça em italiano, no português arcaico erudito dito “bloco central”, quando as instituições se congregavam para trancar as investigações sobre as aleivosias dos políticos, em suma quando do PR se esperava que ajudasse a correr com a procuradora-geral da República, para Sócrates, sua “entourage“, a elite socialista, e os “clientes” do grande banco privado brindassem, suspirando de alívio. Nesses tão recuados tempos as prestigiadas jornalistas, alimentadoras e apoiantes de blogs anónimos e remunerados (quais Steve Bannions avant la lettre, ainda que artesanais) não se incomodavam com as figuras estatais a invocarem deus. Nem mesmo que fosse o PR.

 

Mas agora, nesta nova era? Resolvida a tarefa? Calafetado o caminho? Ofendem-se muito com as alusões às divindades … Deus Nosso Senhor nos valha, que vem aí borrasca. Lá dentro do bloco central.

 

36 comentários em “Se Deus Quiser”

  1. A expressão não passa disso mesmo e exprime um desejo importante.
    Por isso, não se trata de Deus, mas de deus.
    O equívoco reside aí mesmo e só aí: escrever com maiúscula.
    João de Brito

  2. Na democracia mais antiga do mundo ainda se jura a Constituição com mão direita sobre a Biblia e jurando por Deus!

    1. Está a referir-se aos EUA? Sendo essa serão as particularidades do país, do seu fluir. Ao que julgo, e escrevo de memória, não é cerimonial obrigatório, foi introduzido durante XIX e depende da vontade do eleito – sendo que nas últimas décadas, talvez pela radiodifusão, nenhuma abdica do item. Mas o relevante é que os EUA nunca tiveram a tradição laica que alguns países europeus, a reboque francês, assumiram

  3. Como se despedia ela do “namorado”?
    Talvez:
    … ” Até amanhã se o Carlinhos” quizer”….

    Amendes

  4. Para um devoto católico, como o próprio se apresenta, Marcelo é célere a invocar os nomes divinos em vão. Diz que a recandidatura é “se Deus quiser” – como se nós não soubéssemos que ele está desertinho para tal. Há mais anos, dizia alto e bom som que não se candidatava à liderança do PSD “nem que Cristo descesse à Terra” – um mês antes de ser eleito presidente do PSD.

    1. magnífica memória, esta que partilha. (e não é pecado, isso de invocar a divindade em vão? Marcelo que se cuide …Ou chegar-lhe-á, como a tantos, o arrependimento interesseiro?)

        1. Marcelo nunca faria algo contrário ao que afirmou! Assim, perante a afirmação de não se candidatar “nem que Cristo descesse à Terra”, apenas posso depreender que em vez de Cristo falava do Jesus, então treinador do Felgueiras e que viria a treinar o “seu”-dele Braga (o meu Benfica e o seu Sporting) e que finalmente se dirigiu em cruzada ao Oriente.

          Marcelo não mentiu nem enganou ninguém, apenas foi ultrapassado pela circunstância de a profecia ter sido várias vezes contrariada – Jesus subiu aos céus e desceu à terra várias vezes. Ter-lhe chamado Cristo foi engano comum nos crentes.

          1. Portanto, na sua óptica, na próxima época (quinquénio) o homem avança lá para as Arábias? Oxalá

  5. Lamento estas preocupações tão comezinhas! Se isto vos dá dores de cabeça que dores não teriam se tivessem como eu, um golpe na barriga de 20 cms.
    Que raio de causas!
    Cumps.

      1. Nunca percebi estas gentes que, nada tendo para comentar sobre os assuntos abordados, se entretêm a comentar o interesse que os outros demonstram.
        O golpe na barriga terá sido para lá tentar enfiar o rei e assim justificar tais dislates?

        1. Ainda num recente postal contra-comentei sobre isso … Se o leitor visitante não tem interesse num tema abordado num texto de um blog porque protesta com a abordagem? Pagou para aceder, para ler? Contratualizou um conjunto temático? O bloguista tem “ToR”s para cumprir na sua lenga-lenga? Os leitores realizaram (votanto, contratualizando) uma lista hierárquica de temas que os bloguistas devem seguir? De facto, a diferença entre comentar “em meu entender essa questão não é muito relevante” (ultrapassado o mero silêncio) e “ó seu parvo que interesse tem isso” não é de educação ou de humores ou de simpatia/antipatia para com o bloguista/blog. É mesmo de pertinência, é de incompreender onde se está. E, já agora, de incompreender a sua própria posição.

          A do rei da barriga não está mal metida …

  6. O PR aparenta cansaço.
    Por uma lado conseguiu o que muito desejava, alcançar um dos cumes disponíveis para uma carreira política, nacional.
    (A par do outro, na sua carreira académica.)
    Agora são as agruras da realidade. Um PM hábil e demadia, os militares intrencheirados, uma AR a fingir, Juízes sindicalizados, ou não….
    O muito querido melhor do mundo em sarilhos de (e sem) sais.
    Abraços e selfies esgotam indiscriminadamente todos os carentes.
    Esgotaram-se, exauriram-se as motivações?-
    Há cansaço no olhar, e na voz, do PR.

  7. Da septicémia parece que já me livrei, mas vou seguir o seu conselho. Gosto do que escreve mas posso nem sempre estar de acordo.
    Cumps.

  8. Até amanhã se Deus quiser
    Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher
    De ti gosto mais que outra qualquer
    Não vou por gosto, o destino é quem quer.

    Do imortal
    Noel Rosa
    Saravá.

    Um Sportinguista lixado
    5ª feira tou lá

  9. O Português que se ouve falar nas televisões actualmente, dos noticiários à novelas, é horrível.
    Com uma sucessão de sons sibilantes intercaladas de vogais abafadas, a compreensão torna-se quase difícil, ouve-se um balbuciar semi-compreensível.
    Compare-se com a clareza de sons que os locutores e actores proferiam há não muitos anos sequer. Vejam um pouco da RTP memória e ouçam!

    1. Sem ser um purista penso (e não é preciso grande esforço para isso) que tem razão. Aulas de dicção – e até de português básico – deveriam ser obrigatórias, pelo menos no serviço público.

  10. À laia de epílogo.

    Oxalá (do arábico wašāʾa llāh, “assim Deus queira”), cuja carga teológica é por estes tempos quase inexistente, exprimindo antes um sentimento de esperança.

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