Sci-Fi: os meus filmes (15)


eventhorizon,

 

1. 2001: A Space Odyssey (Stanley Kubrick, 1968)

De todos os comentários que tenho escrito aos filmes desta lista, este foi o mais difícil. Se 2001: A Space Odyssey é, para mim, o melhor filme de sempre, é também um filme difícil de descrever, ou mesmo de sobre ele escrever. Começa-se por onde? Pela maior e mais fantástica elipse da história do cinema? Pelo silêncio que pauta a narrativa, mostrando o espaço com um realismo ainda insuperado, e interrompido, a espaços, por uma banda sonora fabulosa? Pela angústia da cena – sem dúvida os mais longos cinco minutos que vivi em cinema – em que Bowman deixa a nave no módulo para salvar o seu companheiro no abissal vazio do espaço, ou mesmo pela angústia de uma difusa sensação de solidão permanente que o filme transmite? Ou por Hal, o computador da nave e um dos mais famosos vilões que já apareceram em filme (apesar de, na prática, Hal nunca aparecer) a despedir-se de Dave com a mesma frieza com que desliga o suporte de vida dos astronautas? Podíamos também notar a atenção ao detalhe, imagem de marca de Kubrick e neste filme levada ao extremo, tornando-o, e digo-o novamente, no filme “espacial” mais realista feito até ao presente. Ou poderíamos divagar, e entrar nas discussões que começaram em 1968, ano de estreia do filme (há 42 anos): qual a origem dos monólitos? O que acontece aos astronautas na Lua quando o “alarme” dispara? Qual o significado da trip que ocupa o longo final do filme? O que acontece a Dave? Ascende a uma outra condição? A qual? Perguntas ainda hoje sem resposta, pelo menos para quem apenas viu o filme (há sequelas, e há os romances escritos por Arthur C. Clarke): mais uma prova da longevidade de 2001, filme que após quatro décadas continua a suscitar debate. A frase de Dave, “open the pod bay doors, Hal”, ficou gravada na história do cinema. Com razão: naquele momento, e independentemente de quando vimos o filme, todos estávamos a sair para o espaço com Bowman.

19 comentários em “Sci-Fi: os meus filmes (15)”

    1. Muitos amigos meus, fãs de ficção científica também, diziam-me que o filme era “uma seca”. Quando vi o filme tive um longo, mas longo debate com eles….

  1. Cá está, uma excelente escolha, a culminar uma lista muito interessante 🙂

    Concordo com tudo o que o João disse, e não há qualquer dúvida de que se trata de uma obra prima.

    Uma curiosidade (não podia ser um post meu sem um apontamento do género “sabia que…” ehehehe): o filme foi “concebido” mais ou menos em paralelo com o livro, num projecto de colaboração entre Kubrik e Clarke. Em vez de ser escrito um “screenplay” para o filme, foi criada a base da “novel”, e cada uma das obras foi influenciada pela outra, com alterações ao livro com base nas filmagens do filme, e vice versa.

    A “semente” foi uma “short story” de Clarke, intitulada “The Sentinel”, de 1948. Essa “short story” estabelece o ponto de partida do filme, um “artefacto” misterioso, antigo e extra-terrestre encontrado na Lua pelo Homem.

    A colaboração entre os dois génios (cada um na sua respectiva arte) não correu da melhor forma. Consta que Clarke, ao ver pela primeira vez o filme, saiu depois do primeiro intervalo, em lágrimas, pela maneira como a história foi retratada no filme. Não deixa de ser curioso, dado que tanto o livro como o filme têm críticas extrema e unanimemente positivas.

    João, um excelente primeiro lugar 🙂 Pessoalmente, provavelmente teria colocado “Blade Runner” em primeiro, mas o Blade Runner é um dos filmes da minha vida 🙂

    E fico a aguardar novos posts sobre ficção científica, seja em forma de filme, livro, pastilha ou xarope 😉 Senão, temos sempre o email para ir trocando umas ideias. Ou quem sabe até formar um grupo de apreciadores de sci-fi portugueses (desconheço se já existe alguma coisa do género).

    Um grande abraço, extensível a todos os restantes comentadores desta interessante série de posts do João 🙂

    1. Bom, o Kubrick era especialista em fazer as suas próprias “adaptações”… mas conhecia essa história, sim.

      Escreverei mais sobre ficção científica, certamente – ou antes, sobre o que é normalmente designado por “sf&f” (Science Fiction & Fantasy). É um dos meus temas preferidos. Por acaso ando há algum tempo a preparar um post sobre uma grande escritora do género, que considero ter sido revolucionária num aspecto muito particular do género. Vamos ver quando consigo ter isso pronto.

      Sobre sf&f em Portugal, existe a Associação Épica, que costuma organizar algumas conferências anualmente, assim como o Fórum Fantástico, quando há meios para isso (no ano passado não se realizou por falta de patrocínios). Em 2008, trouxeram cá o escritor Richard Morgan, que deu duas conferências muito boas; e houve um tipo que a falar de Firefly/Serenity conseguiu adormecer o auditório da Faculdade de Belas Artes. Mas normalmente costuma valer a pena assistir. Havia também a Simetria, uma associação dedicada à ficção científica, mas creio que já desapareceu.

      A si, meu caro, agradeço-lhe o seu interesse e as suas excelentes contribuições para esta minha série. Continuaremos a falar sobre o assunto, certamente!

  2. Boa escolha, mas não estaria no meu top5. De qualquer modo, é um filme notável, que permite dezenas de leituras e levanta várias questões. No próximo jantar (ceia?) conto-te como um professor meu de Filosofia da Religião deu uma aula a partir do filme! 🙂

  3. Vi maravilhado o filme em Leiria, na minha adolescência, por entre os comentários parvos dos magalas que, aparentemente, só iam ao cinema para impedir que alguém pudesse ver um filme com atenção. Creio que em ecrã gigante. Concordo inteiramente com a escolha. Não perdeu actualidade.

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