Percebo na saudade e na nostalgia contornos diferentes. Sinto que não se sobrepõem. Tocar-se-ão, talvez. Faltam-me, admito, certezas. Dessas que os linguistas nos propõem em troca dos nossos sentimentos. Sem que percebam que os sentimentos transbordam exactamente ali onde nos são escassas as palavras. Tenho apenas conclusões provisórias. Toscas e imperfeitas. Como são sempre as palavras e as conclusões. Umas eternamente aquém dos sentimentos, outras incompletas de pressupostos. Saudade e nostalgia estão escritas, isso parece-me certo, no capítulo das ausências. Mas, há ausências que desaguam na saudade e outras que se refugiam na nostalgia. A saudade vai bem, parece-me, com as ruínas e os alicerces. Se não me engano, é do signo do ter. Para se ter saudade tem de se ter. Ou de se ter tido. Se ainda temos algo ou alguém que momentaneamente está ausente temos saudade. Há algo em construção, alicerces de uma obra maior que queremos continuar a erigir. Se tivemos e já não temos, temos saudade construída sobre as ruínas que ficaram. Se for assim, descubro na saudade uma esperança que deve ter andado sempre por ali, mas de que nunca me tinha apercebido. Há tanta esperança como angústia quando se tem algo ou alguém que não temos connosco. Esperança no reencontro. Hoje, amanhã. Numa manhã. E a angústia de perder. De não reencontrar. E, quando se teve e já não se tem, há ainda aí uma outra forma de esperança. A esperança do passado. A que também chamamos memória quando esta nos aquece e reconforta. E a angústia do passado que, sendo também memória, melhor dizemos dor. Não há saudade sem ter ou sem se ter tido. Mas, pode haver nostalgia. Porque esta é do signo do ser. A nostalgia é, antes de mais, a ressaca das grandes ausências. Do que nunca foi ou do que, tendo sido, se ausentou de forma irreversível, não deixando sequer ruínas, uma fachada se não for pedir muito, onde possamos ancorar uma possibilidade, ainda que remota, de reconstrução. A saudade que sinto vive da memória do abraço do meu pai. A nostalgia, essa pressinto-a nos grandes espaços desertos dos momentos que nunca fomos e que, como pai e filho, devíamos ter sido.
Saudade e nostalgia
Rui Rocha,

Um tom adorável de pensar na vida. Gostei muito.
Obrigado, Louise.
Do fundo do coração…em empatia Rui.
Tocar-se-ão por vezes no tempo mas não no momento.
Obrigado pelo post.
Fique bem..sempre.
David
Um abraço, Outside.
Concordo plenamente. Saudade por não ter, mas por já ter tido. Nostalgia pelo passado que não tive. Eis a mágoa da nossa vida, muitas vezes.
De vez em quando, dou comigo a pairar no vazio.
– Bolas, a vida prega-nos verdadeiras partidas, perante as quais não podemos fazer absolutamente nada, senão ficarmos a assistir como meros espetadores, penso cá para mim. Passam semanas, passam meses, passam anos… E continuamos a ter momentos em que nos prendemos a um passado que nos marcou e marcará até ao fim dos nossos dias. A perda é estúpida e simplesmente não se explica.
Obrigada pelo post, Rui.
Cristina Silva
Eu e que agradeço a leitura, Cristina.
(a escrever sem acentos)
Rui,
as relações entre pais e filhos são sentimentos muito profundos. O meu pai que ainda vive é um grande homem e eu nunca tive a coragem de lhe dizer o que penso dele. Talvez um destes dias…
Quanto aos meus filhos são já dois homens ainda à procura de caminhos (que esta crise não ajuda!!!) mas já pude dizer-lhes quanto os admiro e amo e quanto me orgulho deles. Cada um à sua maneira obviamente! Não quero ser para eles apenas um pai mas um amigo, cúmplice e companheiro.
Belíssimo texto, Rui.
Ha muitas palavras que nao devemos adiar, Jose. Devemos isso a nos proprios. Um abraço.
(a escrever sem acentos)
Excelente, Rui. Agora percebo por que razão a letra não é “a nostalgia que eu já tinha da minha alegre casinha”.
Obrigado, Jaa.