Em Novembro de 2018, por ocasião do centenário do fim da Grande Guerra, o Município de Porto de Mós editou um livro de homenagem aos 214 portomosenses identificados até essa data como tendo estado nela envolvidos como combatentes. O lançamento do livro coincidiu com a inauguração de um memorial junto aos Paços do Concelho.
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No prefácio, pela pena do actual Presidente da Câmara Jorge Vala, o concelho descreve-se como “Um município de paz, que não esquece os que lutaram por ela”.
Cada um destes combatentes mereceu uma página inteira deste livro onde consta toda a informação que foi possível reunir. A recolha de dados foi extensa. No arquivo militar existe bastante informação, como o nome, data de nascimento, filiação, data de incorporação e de regresso, teatro de operações, ramo das Forças Armadas, posto, eventuais baixas hospitalares, condecorações entre outros detalhes. A estes dados acrescentaram-se algumas fotos cedidas pelos descendentes, postais enviados à família, alguns com fotos de corpo inteiro e escritos com caneta de aparo.
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No verso desta foto está escrito: “Mando esta fotografia junto a este grupo de moços vizinhos e meus amigos para as nossas famílias ver a nossas caras retratadas neste cartão.”
Pegando no livro encontram-se pequenos relatos como o de um louvor a alguém que durante um raid inimigo terá comandado um pelotão e, pela coragem e sangue frio terá incutido valentia aos subordinados suficiente para que o inimigo fosse repelido. Noutra página conta-se uma história de um combate marítimo que se fosse passada noutras latitudes daria um filme. Há também o registo de pelo menos uma deserção.
A maioria dos homenageados não têm fotografia, e de alguns conseguiu-se apenas a foto da respectiva lápide no cemitério militar em França. De outros conseguiu-se a cópia do assento do campo onde foram feitos prisioneiros.
De uma forma bastante ligeira tive oportunidade de colaborar na identificação dos descendentes de alguns destes soldados. Passou-me pela mão uma caderneta militar de um conterrâneo meu com o registo de dois castigos aplicados por ter sido apanhado a jogar às cartas.
Os números mecanográficos dos arquivos militares quase que esvaziam a humanidade de cada um destes nossos compatriotas. São 214 universos de vivências, de expectativas, de sujeição, de sacrifício e de vontade de sobreviver, de quem, tal como nós, não escolheu o país ou a época que lhes foi dada a viver. O entendimento que hoje temos da história é diferente do de há algumas décadas atrás, mas é uma tremenda perda que não se tenham registado relatos contados na primeira pessoa feitos por estes portugueses que, quase anonimamente, vestiram as ásperas fardas que lhes foram entregues e que reduziu cada um deles a um número.
É fácil de concluir que a falta de memória que caracteriza o nosso país é já um mal antigo. Recordo-me que na apresentação do livro, José Conteiro, o obreiro maior da recolha de dados na qual assentou a edição deste livro, acertadamente citou o Padre António Vieira: “Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”
Mas se já não é possível entrevistar estes combatentes, ainda é possível fazê-lo aos soldados que serviram na Guerra do Ultramar, e que foram muitos mais. Já existem alguns documentários mas é urgente registar os relatos dos combatentes ainda vivos do último grande conflito armado em que o nosso país esteve envolvido.
É comum que cada regime faça por esquecer o anterior, mas se nada for feito, a cada dia que passa, serão cada vez menos os que podem relatar o que foi para eles estar envolvido nesse enorme esforço feito pelo país e pelos seus cidadãos, sem juízos de valor sobre a justeza da guerra à luz dos dias de hoje. Qualquer telefone ou computador pode gravar uma conversa, mais ou menos formal, com ou sem guião, a cada um destes seres humanos que voluntariamente ou contra a sua vontade por lá andaram. O que viram, o que comiam, onde dormiam, o que lhes foi dado a fazer, o que se lembram das paisagens, das pessoas, da natureza, das deslocações, o que aprenderam?
Segundo o Talmude, quem salva uma vida, salva o mundo inteiro. Na mesma linha atrevo-me a acrescentar que quem salvar as memórias de uma vida, salva a memória do mundo inteiro.
Quem puder que o faça.

Como esta obra versa sobre a I grande guerra, não há problema nenhum… agora, se fosse a guerra colonial, era caso para uma queima de livros.
Exactamente por isso é que importa registar relatos para a historiografia do futuro.
Dou uma sugestão… Sou da opinião que se deve fazer essa recolha de testemunhos sobre a Guerra Colonial. Todavia a grande maioria dos combatentes estiveram integrados no sistema designado por “QUADRÍCULA” cuja missão era encarada como policial, marcando a presença e interagindo com as populações conhecida por “Psico”. Muito importante seria recolher testemunhos das forças de elite, fuzileiros, pára-quedistas e comandos, e das operações que fizeram. Houve três operações marcantes. Operação “Viriato” em Angola, Operação “Tridente” na Guiné e operação “Nó Górdio” em Moçambique. Sobre a operação Viriato sei que o combatente Mário Gomes Bento, natural de Chão da Feira, tomou parte nela. Pode começar-se por aí.