S. Vicente (8)


Sérgio de Almeida Correia,

O Centro Cultural do Mindelo funciona na antiga Alfândega, fundada no reinado de D. Pedro V,  “sendo ministro do Mar e do Ultramar o Visconde de Sá da Bandeira e Govr. Gªl da Provª de Cabo Verde o Conselhº Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes”. Foi aí que teve lugar a Feira do Livro Lusófono.

O marquês de Sá da Bandeira, combatente da Guerra Peninsular e herói do cerco do Porto, um dos “bravos do Mindelo”, conhecido pela sua tenacidade e coerência, qualidades cada vez mais em desuso entre nós, e um dos primeiros a lutar contra a escravatura e a promover o desenvolvimento dos territórios africanos em prol das suas populações, chegando a ser referido por Alexandre Herculano como o “português mais ilustre do século”, certamente que ficaria satisfeito por saber do sucesso gerado por esta pequena feira do livro lusófono entre as gentes da terra.

Poucos minutos bastaram, após a sua abertura, para eu comprovar o interesse que os 1500 títulos distribuídos por 8000 exemplares desencadearam entre os visitantes. Os livros técnicos – Direito, Arquitectura, Ambiente, Engenharia – infanto-juvenis, e a literatura cabo-verdiana (Baltazar Lopes e Teixeira de Sousa), eram dos mais manuseados. Não deu para perceber se todos os potenciais adquirentes acabaram por comprar os livros, nem se possuíam os meios para tal. Porém, o interesse com que se acercavam das bancas, logo a seguir à abertura, e o desvelo com que acariciavam os livros eram de tal forma evidentes que tive vontade de me tornar num ser invisível e oferecer livros àquela gente toda.

Pelo que me disseram a feira teve o apoio do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento e é o resultado de uma parceria com o Instituto Nacional da Biblioteca e do Livro de Cabo Verde. Espero que esteja para durar e que seja possível promover idênticas iniciativas noutros locais da lusofonia.

Se há investimento com retorno é todo aquele que possa ser feito em prol da língua, da cultura e do desenvolvimento. Bem sei que não serve para pagar os ordenados de homens como Zeinal Bava ou António Mexia, mas é uma aposta reprodutiva de geração em geração. E que é capaz de uni-las sem que para isso seja necessário vender a alma aos vizinhos.

Ficam então explicadas as razões para que este breve apontamento de viagem seja ilustrado com a imagem de uma acácia rubra – que com a oliveira constituem as minhas árvores de eleição, talvez simbolizando a ponte entre a identidade cultural e a dimensão espacial da língua – defronte da Alliance Française, no Mindelo. Não foi possível “encaixar” a acácia no passeio. Ela teve de ficar na rua, junto à berma. Mas ela está lá, florida, lindíssima, numa ilha semi-desértica, mostrando toda a sua pujança e resistência. Oxalá haja gente em Lisboa que seja capaz de entendê-la.

7 comentários em “S. Vicente (8)”

  1. Dá gosto ler-te, Sérgio. Sempre, mas em especial neste texto. Concordo inteiramente contigo: a grande força de um povo está na solidez da sua identidade cultural, e as melhores pontes – neste caso especial, entre países lusófonos – são as que se constroem a partir de dela. É bom saber que constataste isso em Cabo Verde, e esta acácia simboliza muito poeticamente essa vitória.

      1. A Ana disse tudo, Sérgio.
        (Desculpa lá, meu caro, mas é a terceira ou quarta vez que te vou aos títulos para trocar VIcente por Vicente. Espero que seja efeito das férias e não intencional. Eheh…)

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