Incêndios: um Estado cobrador


jmmcc,

Há tempos que a PJ faz formação em investigação das causas criminosas dos incêndios florestais — em especial, de interesse económico e aproveitamento de madeiras ao desbarato — sem detectar um único caso. Todos os anos os governos anunciam sucessivamente o reforço dos meios de combate aos incêndios e até arrepia pensar quanto custa esse reforço e esse combate. Promovem-se campanhas e estipulam-se multas para os proprietários de florestas e terras arborizadas que não cuidem da limpeza. No fim, em cada situação de fogo, aparecem sempre pessoas a apontar a atenção que deram às suas terras e que são vítimas dos dramas por uma única razão: são pessoas cujo azar é possuírem bens (imóveis e móveis) envolvidos por florestas e baldios do Estado que as autoridades públicas simplesmente ignoraram.

Limpar florestas e desmatar silvados? Isso é para os privados. Gastar em formação e investir em dispositivos? A gente paga. Somam-se os prejuízos e ficamos mais pobres? Paciência. O Estado é pessoa de bem? Claro. As autoridades só servem para cobrar? Assim parece.

20 comentários em “Incêndios: um Estado cobrador”

  1. Aparentemente o Estado só serve para cobrar impostos. É verdade ! Nós pagamos tudo e mais alguma coisa. Mas poderá o Estado explicar para que servem os militares ? Principalmente os ligados à especialidade de engenharia e os atiradores . Guerra não temos. Mas temos atiradores. Então estas especialidades juntas, não poderiam limpar os terrenos que pertencem ao estado ? Fogos ? Reduzidos a menos de metade. Além de limparem serviam de vigias. Ah ! Esqueço-me sempre…..há o Kosovo, a Bosnia e sei lá que mais…!!!???? Limpar mato ? Não ! Nós pagamos e os militares descansam. O OGE não prevê a limpeza do mato…..sai mais barato deixar queimar.

    1. Agradeço-lhe em nome de todos os que fazem este blogue, meu caro amigo. Ficamos muito satisfeitos por saber que está a estudar Português e que isso está a correr bem.
      Vá aparecendo por aqui e comentando.
      Um abraço para si.

  2. Uma das profissões que mais admiro é a profissão de bombeiro.
    Como dizia Jay Leno, depois dos ataques de 11 de Setembro, em choro convulsivo, citando o pai, também ele bombeiro – “They are out there fighting the good fight”.
    Infelizmente, em Portugal, deve ser uma luta frustrante.
    A afirmação do ministro Rui Pereira, com uma postura misto de resignação e incapacidade, de que há incêndios a deflagrarem à noite, contribuirá muito para esse sentimento de frustração.
    Será uma inevitabilidade assistirmos a este espectáculo dantesco todos os anos?
    Estava agora a ver imagens do incêndio no Parque Nacional Peneda – Gerês.
    Ver aquelas imagens, aqui tão longe, faz doer o coração.
    E causa uma revolta imensa.
    Porque é que não se limpam e ordenam as florestas?
    Onde é que estão os vigilantes?
    Que meios lhes são entregues?
    Sou um amante da Mata Nacional do Buçaco, a qual me traz à memória momentos muito bonitos da minha juventude, da minha adolescência.
    Tremo só de pensar que poderá ser também alvo de uma acção criminosa como estas que vemos demasiadas vezes.
    Estes espaços são tudo isso – um enorme pulmão, quadros de rara beleza, repositório de memórias para muitas pessoas.
    Vê-los arder é horroroso.
    A minha sentida homenagem aos homens e mulheres que ali andam, arriscando a vida, “fighting the good fight”.

  3. “envolvidos por florestas e baldios do Estado”

    Devem ser bem poucos os casos pois, segundo já li por diversas vezes, o Estado é proprietário de apenas 3% da área florestal do país. Sobre os baldios não sei mas, ao que julgo, a maior parte deles está sob gestão privada, ou seja, não são da responsabilidade do Estado.

    (A título de comparação, o Estado sueco é dono de 14% das florestas do país.)

    1. Eu creio, Luís, que não é bem assim. A grande parte das florestas e baldios são públicos por exclusão de partes: não têm proprietários. O problema é que não estão todos contabilizados e definidos. Mas fala-se ciclicamente na necessidade de o fazer…

      1. Esse conceito “público por exclusão de partes” não existe, que eu saiba. Tudo tem um proprietário – mesmo que esse proprietário não esteja bem definido (por desatualização ou incorreções nos registos de propriedade), ou mesmo que esse proprietário tenha a sua propriedade abandonada.

        Não se pode dizer que, lá porque uma determinada propriedade se encontra descuidada pelo seu proprietário privado, essa propriedade passa a poder ser considerada pública e – muito menos – que o Estado tem a obrigação de gastar dinheiro a tratar dela.

        1. Acredito que o Luís seja defensor do Estado. Se por um lado ser defensor do Estado é ser defensor de menos despesa, por outro, será o aumento de impostos, porque aos militares pagamos sempre ( para estarem grande parte do tempo, no descanso ) Defendo que os militares devem ocupar o tempo ( pago por nós ), na vigília das florestas e na limpeza das mesmas, o resultado seria menos fogos e mais respeito por parte de quem põe o fogo.

        2. Não disse nada do que V. está a dizer, Luís. Disse que a grande parte da floresta nacional não tem proprietários e que, por exclusão de partes, ela pertence ao Estado. Falta defini-la, como as autoridades passam o tempo a lembrar sem concretizar.

          1. É falso que grande parte da floresta nacional não tenha proprietário. Ela pode ter proprietário desconhecido (pelo Estado – os vizinhos geralmente conhecem o proprietário) ou incerto (por os registos de propriedade não estarem feitos ou atualizados), mas tem proprietário. Lá por uma terra estar abandonada pelo seu proprietário, este não deixa de o ser.

            Mal estaríamos se, quando uma terra estivesse abandonada pelo seu legítimo proprietário, ela automaticamente passasse a pertencer ao Estado. Por uma razão muito simples – os proprietários abandonam as suas terras quando elas não têm valor, são difíceis ou trabalhosas de gerir. Na prática, significaria que todas as propriedades sem valor e difíceis de gerir iriam onerar os contribuintes.

          2. Não é fácil lidar consigo. Já lhe disse que não estou a falar de terras que têm proprietário, abandonadas ou não. Estou a dizer que a grande parte da floresta e dos baldios são do Estado. Qual foi a palavra que não entendeu?

            Se recuar aos primórdios, sabe que D. Afonso Henriques correu com os mouros do centro para o sul. Metade do País ficou logo a pertencer ao Estado, representado pelo Rei. Certo? Agora vou repetir pela enésima vez: a grande parte da floresta e dos baldios nacionais são do Estado porque não têm (talvez nunca tivessem tido) outro proprietário. Conseguiu entender?

          3. Consegui entender e já lhe disse que é falso: apenas 3% da floresta portuguesa pertence ao Estado. O resto é de propriedade privada (ocasionalmente são baldios comunitários). Só 3%, repito. Já o tinha dito no meu primeiro comentário.

          4. Já lhe expliquei que não é isso que dizem as autoridades oficiais. Deduzo, portanto, que haverá três por cento de propriedade pública reconhecida e que falta fazer o levantamento de resto.

  4. Duas coisinhas sobre incêndios:

    ” Apesar da quantidade de fogos, são muito menos que em 2003″ Vasco Franco / secretario Estado dos braseiros….

    Uma das coisas mais caricatas é ver “Comandantes de Bombeiros” fardados de camuflado… será para não serem vistos ?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *