
Nikita Krushchev aprovou em 1954 um decreto que transferia a Crimeia, península do Mar Negro, da república soviética russa para a república soviética ucraniana. Mal imaginava o líder da URSS que este gesto simbólico, duas gerações depois, estaria na origem de um conflito que ameaça transformar-se no detonador da III Guerra Mundial. Avancemos 60 anos. Em 2014, a Rússia invadiu a Crimeia e apoderou-se daquele território, que considera crucial para a sua sobrevivência como potência nuclear e império com ambições. Seguiu-se uma guerra civil de oito anos no Donbass, entre Kiev e separatistas. Em 2022, a Rússia invadiu toda a Ucrânia e, para a opinião pública, é como se a história tivesse começado nesse ponto.
Um ano depois da invasão, as baixas ucranianas são superiores ao que se dizia, mobilizam-se velhos e adolescentes, a Ucrânia transforma-se num país de memórias e de viúvas. Fugiram cinco milhões de pessoas para a Europa Ocidental, três milhões para a Rússia.
Khushchev não podia conceber nada disto, ou que a rua Lev Tolstoi, em Kiev, mudaria de nome para rua Pavlo Skoropadsky, general do império russo, cossaco, monárquico, suportado pelos ocupantes alemães numa brevíssima república ucraniana, em 1918. Este general exilou-se na Alemanha, onde morreu, em 1945, vítima de bombardeamento aliado. O líder soviético olharia para o seu contemporâneo Skoropadsky como um inimigo irrelevante, figura trágica e derrotada.
Abril de 2023: as autoridades mudaram o nome de centenas de ruas, retirando todas as estátuas e nomes de pessoas de origem russa. Os sacerdotes e fiéis da igreja ortodoxa russa estão a ser expulsos dos seus locais de culto e milhões de livros escritos em russo foram destruídos. A história começou a ser alterada, a língua e a cultura russa serão apagadas. Khrushchev não podia efabular nada disto, sendo estranha a bênção da UE, que promete a Kiev uma adesão rápida. A oposição e as televisões pró-russas foram suprimidas e a Europa olhou para o lado; agora, intensificam-se detenções e perseguição religiosa, mas os europeus ficam em silêncio.
Russos e ucranianos a matarem-se uns aos outros por causa de um presente simbólico? Khrushchev não podia imaginar, mas deu nisto: quando a guerra terminar, será concretizada uma nova limpeza étnica no espaço europeu, algo de impensável em 1954; os ucranianos russófonos terão de emigrar e haverá na Europa Oriental mais um país puro, de bom nacionalismo.
imagem Night Café, (IA)

o chefe Cruz « Khrushchov nasceu em 1894 na aldeia de Kalinovka, na Rússia ocidental, perto da fronteira atual entre a Rússia e a Ucrânia. Ele foi empregado como metalúrgico durante sua juventude, e foi comissário político durante a Guerra Civil Russa. Com a ajuda de Lazar Kaganovich, ele subiu na hierarquia soviética. Ele apoiou os expurgos contra a velha guarda bolchevique dirigidos por Josef Stalin, e aprovou milhares de prisões. Em 1938, Stalin o enviou para governar a RSS ucraniana, tendo continuado a repressão durante sua administração. »
a ver vamos como dizia o cego
A oposição e as televisões pró-russas foram suprimidas e a Europa olhou para o lado
A Europa não se limitou a olhar para o lado: dolaborou, suprimindo ela própria a estação russa RT. Para a Europa, a liberdade de informação deixa de existir quando quem informa é o inimigo.
Luís Naves, espero não lhe chamem putinista por causa deste seu post esclarecedor, até agora vedado no Delito de Opinião.
Neste blogue nunca existiu qualquer restrição desse tipo, a interpretação não estava vedada, eu é que não escrevi sobre o tema.
“Em 2022, a Rússia invadiu toda a Ucrânia e, para a opinião pública, é como se a história tivesse começado nesse ponto”.
Não concordo com esta frase. É óbvio que tudo começou em 2014. Mas nessa altura a comunidade internacional fechou os olhos, porque as relações com a Rússia eram muito convenientes, e talvez também porque era compreensível que a Rússia quisesse a Crimeia de volta. À segunda invasão já começa a ser difícil fechar os olhos. O que se se seguiria depois? A invasão da Moldávia? E depois da Finlândia?
Percebo que não concorda com as ajudas à Ucrânia, mas não percebo qual é a alternativa que defende. Deixar a Rússia anexar o que aprouver? Isso é uma solução?
Concordo com as ajudas humanitárias à Ucrânia, tenho dúvidas sobre o envio de armas, mas sobretudo acho que é urgente acabar com esta guerra. O ideal seria o cessar-fogo imediato e a paragem dos combates. No processo negocial, a posição russa tem de ser levada em consideração, não há outra maneira. Moscovo não abdica da Crimeia e quer a Ucrânia fora da NATO. Os ucranianos precisam de garantias de segurança. Só com um armistício pode começar a reconstrução. Enfim, tudo isto passa por uma negociação entre as duas maiores potências nucleares, Rússia e Estados Unidos. Sem isso, a tragédia continua. Duvido que Biden esteja em condições (físicas, mentais, políticas) para se sentar à mesa com Putin, que tem o tempo do seu lado.
Concordo 100% com este comentário do Luís Naves.
É óbvio que tudo começou em 2014. Mas nessa altura a comunidade internacional fechou os olhos
Não é isso a que Luís Naves se referia (penso eu). A “comunidade internacional” (isto é, os EUA e os países seus amigos) não fechou os olhos aos acontecimentos de 2014, isto é, à “conquista” pela Rússia de certas regiões da Ucrânia. Aquilo a que a comunidade internacional fechou os olhos, foi à guerra que desde então a Ucrânia (o seu exército) levou a cabo contra as regiões separatistas do Donbass. Havia uma guerra a decorrer, havia bombardeamentos diários, havia mortos e feridos diários, havia uma grande cidade europeia (Donetsk) a ser abandonada pelos seus habitantes por estar constantemente a ser bombardeada, e a comunidade internacional fechava os olhos, a comunidade internacional negava (e continua a negar) que estivesse a haver uma guerra.
Atualmente, a comunidade internacional continua a afirmar, falsamente, que a guerra começou com a invasão russa em 2022, escamoteando o facto de que a Ucrânia estava a levar a cabo uma guerra desde 2014.
O que se se seguiria depois? A invasão da Moldávia? E depois da Finlândia?
Não, de forma nenhuma, uma vez que esses países sempre afirmaram e mantiveram a sua neutralidade e nunca (até 2022) procuraram aderir à NATO. A Finlândia viveu em boa paz com a URSS, e depois com a Rússia, desde 1945, porque sempre respeitou o seu estatuto de neutralidade. A Rússia invadiu a Ucrânia devido à postura agressiva desta última, ao contrário da Finlândia e da Moldávia, que nunca tiveram posturas agressivas.
Essa ideia de que a Rússia deseja invadir um país após o outro, a começar pela Ucrânia, é mais um disparate sem qualquer fundamento posto a circular pelos EUA e seus amigos.
> por causa de um presente simbólico
Meh. Suspeito que “darem” regiões russas à Ucrânia era para fazer lastro, dadas as fortes e fundamentadas suspeitas que tinham sobre a lealdade da região à união soviética.
Claro, digo isto na qualidade de ignorante total dos factos. Mas como diria o camarada Soares, os factos aparecem.
“algo de impensável em 1954”
Como assim, há menos de 10 anos tinham ocorrido milhões em limpezas étnicas.
https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_ North
1 — “Nikita Krushchev aprovou em 1954 um decreto que transferia a Crimeia, península do Mar Negro, da república soviética russa para a república soviética ucraniana.”
Não há certezas sobre os motivos de Krushchev. Alguns dizem que, enfadado com as manifestações de tártaros, decidiu passar o problema à Ucrânia. Outros, creio que mais numerosos, dizem apenas que estava bêbedo.
Já tenho escrito por aí que esta decisão de Krushchev só me faz lembrar a decisão de Salazar que, violando uma aliança “de facto” de inícios do século XVI e um tratado “de jure” em 1885, decidiu “motu proprio” integrar Cabinda como um distrito de Angola.
Evidentemente, conhecedor pela rama, Luís Naves escreve sobre a Crimeia sem uma palavra sobre os tártaros, a população autóctone da Crimeia, expulsa, morta e dispersa por Estaline nos anos 40.
É difícil computar hoje em dia a população tártara da Crimeia. Os seus próprios activistas reclamam-se de 6 milhões, o que será muito exagerado, possivelmente mais do dobro. Mas é certo que os tártaros, todos os tártaros e também os da Crimeia, sempre pretenderam uma autonomia dos russos, com quem não partilham nem cultura, nem língua nem religião.
A Crimeia esteve sob domínio turco e foi recuperada para a Rússia na guerra que deu prestígio ao depois líder turco Kemal Ataturk. Pode assim dizer-se que os turcos são inimigos históricos dos tártaros mas acontece que um enorme número de tártaros da Crimeia escolheu fugir para a Turquia, tal era a violência de Estaline.
A seguir a 1954 os tártaros começaram muito lentamente a regressar à Crimeia, movimento que se acelerou a partir de 1991. Em 2014, logo os russos começaram ou recomeçaram as violências sobre os tártaros – nada de comparável com Estaline – tanto mais que, por azar deles, tinham uma forte concentração perto de Sebastopol. Em menor número, é certo, mas desde 2014 que a população tártara da Crimeia recomeçou a diminuir.. Estimativas actuais – não há censos há imensos anos – calculam que 15% da população da Crimeia sejam tártaros. Considerando o aumento de população russa exógena desde 2014 mas de que muitos sairão se terminar a ocupação russa, e o desejo dos tártaros da Crimeia de regressarem do exílio turco, onde nunca se integraram bem, não é disparate admitir que uma Crimeia com autonomia e garantias de paz possa rapidamente ter uma população tártara de metade ou mais.
Agora o que não é aceitável, é que se equacione o futuro da Crimeia em função de interesses e direitos russos, ignorando os direito históricos da população autótocne.
E os factos são que os tártaros sempre foram reprimidos pelos russos, sob os czares, sob os soviéticos e agora sob Putín, mas que viveram sem problemas de maior, na autonomia da Crimeia sob nacionalidade ucraniana.
não é aceitável que se equacione o futuro da Crimeia ignorando os direitos históricos da população autótone
Essa ideia é muito questionável. Dizer que os descendentes de uma determinada população têm direitos especiais sobre a terra que foi dos seus pais ou avós ou bisavós é muito questionável.
Se se aplicasse essa ideia de forma consistente, então todos os descendentes dos palestinianos que foram reprimidos e expulsos por Israel em 1948 e desde então, teriam direitos históricos especiais sobre a Palestina, com consequências difíceis de imaginar.
E múltiplos outros casos similares em diversos sítios, tipo Ruanda, Jugoslávia, Saara Ocidental, Diego Garcia, etc etc etc.
2 – “Em 2014, a Rússia invadiu a Crimeia e apoderou-se daquele território, que considera crucial para a sua sobrevivência como potência nuclear e império com ambições.”
Ainda estou para ler quem me explique porque é a Crimeia crucial para a Rússia. A Crimeia é uma península com cerca de 2 milhões de habitantes, cuja única ligação terrestre é à Ucrânia.
Sejamos claros. A Crimeia só pode ser crucial para a Rússia na medida em que pretenda atacar a Ucrânia. E, de facto, no plano terrestre nem isso, pois tem muito melhores itinerários para esse fim.
Crucial, sim, é a base naval de Sebastopol, a única grande base naval russa no Mar Negro, a única em águas que não gelam no Inverno e que assim, pelo Bósforo, permite o mais directo acesso ao Mediterrâneo. Sebastopol estava arrendada por 20 anos renováveis e nem o governo de Kiev nem o da região autónoma da Crimeia puseram esse arrendamento em causa.
Dada a sua importância crucial, admite-se que a Rússia pretenda mais e melhores garantias mas o facto é que nunca as pediram e optaram pela ocupação em 2014.
Analisando agora pela perspectiva ucraniana, a ocupação permite à Rússia, a todo o tempo, encerrar o estreito de Kerch e reduzir o Mar de Azov a um mar interior. Isso deixaria a Ucrânia apenas com Odessa, como grande porto exportador mas, sem capacidade para toda a produção cerealífera que se veria encarecida pela necessidade de transporte terrestre (a grande vantagem económica da Ucrânia é o transporte fluvial por rios que não gelam de Inverno, enquanto os rios russos gelam e mantém-se impraticáeis pelos violentos degelos). Assim a Crimeia não ocupada por russos é crucial para a independência económica da Ucrânia.
Não vejo qualquer incompatibilidade inultrapassável nos dois interesses. A Crimeia pode ficar com um estatuto de autonomia – preferencialmente salvaguardando os direitos históricos dos tártaros – e, para tranquilidade dos russos, seria desmilitarizada. Por seu lado a garantia do arrendamento poderia ser extendida a 99 anos prorrogáveis sob patrocínio internacional e contra a garantia que de Sebastopol, nunca se efctuaria o encerramento do estreito de Kerch e muito menos o bloqueio naval de Odessa.
Com alguma criatividade, a Crimeia poderia ser independente sob duplo patrocínio russo e ucraniano e mediação da ONU. Um pouco à maneira de Andorra, acrescentado a ONU.
Agora falar do interesse crucial da Rússia, sem mencionar as consequências para a Ucrânia e para os tártaros, é tudo menos isento.
“(…) gesto simbólico (…)” – foi uma oferta do dirigente russo à esposa que era natural da Crimeia.
No Dombass nasceram alguns dirigentes da URSSS, como Leonid Brejnev.
João Moreira
3 – “Seguiu-se uma guerra civil de oito anos no Donbass, entre Kiev e separatistas.”
Esta é um dos mais bem conseguidos êxitos da propaganda russa. A que, diga-se, nunca faltaram auxiliares em todo o ocidente, uns porque fazem parte da máquina de propaganda – há financiamentos russos para isso – outros por preconceito ideológico quer na forma de saudosismo soviético quer nas mais vulgar forma de anti-americanismo, mas a esmagadora maioria porque simplesmente nunca parou para pensar.
Em 2014 a Ucrânia estava de rastos e teria entre 20 a 30 milícias armadas, sendo a polícia talvez a unidade de defesa mais estruturada. Mas desde aí, com forte auxílio militar norte-americano e algum de outros países ocidentais, o exército ucraniano tomou forma, tinha treino e tinha carros de combate, artilharia e aviões. Depois de uma primeira hesitação devido às acusações de nazismo – sem a menor razão de ser desde 2015 quando foi substituído o líder nazi do batalhão Azov – antes ou em 2017 já tinham sido levantadas as objecções no Congresso norte-americano e as organizações judaicas, na Ucrânia e em Israel, apoiavam abertamente a luta anti-separatista.
Pergunto: Alguém acredita que o exército ucraniano, durante 8 anos de 2014 a 2022 não conseguisse vencer milícias separatistas?
A realidade tem duas faces e ambas obliteradas pela propaganda russa.
Em prmeiro lugar Kiev estava peado pelo acordo de Minsk que impedia o uso de artilharia pesada na zona tampão e que a Ucrânia respeitou, ao contrário do que se diz. De facto houve violações do cessar-fogo de ambas as partes mas não o envolvimento de armamento pesado.
Em segundo lugar, a presença das Forças Especiais Russas. Diferentemente de outros países as Forças Especiais são uma arma separada, com a mesma categoria do Exército da Marinha ou da Força Aérea. E Putín enviou Forças Especiais para o Donbass. Russos sem a farda regulamentar eram inextinguíveis da população de língua e etnia russa.
Putín estava tão convencido que incluiu num discurso o agradecimento especial aos serviços das Forças Especiais. Isto poucos dias depois da invasão, sem qualquer motivo para esse agradecimento especial. Os russos tentaram explicar que o motivo seria o desempenho dessas forças na ligação e acompanhamento das unidades blindadas. Pior a emenda do que o soneto porque pouco depois tornava-se evidente que essa foi uma das grandes falhas na gorada ofensiva sobre Kiev.
4 – “Abril de 2023: as autoridades mudaram o nome de centenas de ruas, retirando todas as estátuas e nomes de pessoas de origem russa.”
“… e milhões de livros escritos em russo foram destruídos. A história começou a ser alterada, a língua e a cultura russa serão apagadas.”
Será uma reacção excessiva e criticável mas, pelo menos para mim, perfeitamente compreensível dadas as barbaridades já conhecidas cometidas pelos russos.
E não acredito que sejam prepotências gratuitas do governo de Zelensky. Acredito, ao invés, que a maioria da população ucraniana não queira ver à frente nada que lhe recorde a Rússia ou os russos.
Será lamentável mas é uma reacção à invasão e aos crimes de guerra já conhecidos. O crime foi a invasão e a condução da guerra, o resto, por deplorável que seja e é, são as consequências.
5 – “Os sacerdotes e fiéis da igreja ortodoxa russa estão a ser expulsos dos seus locais de culto …”
Tal como acima é uma manifestação de desrussificação e também uma consequência da invasão e dos crimes de guerra já conhecidos.
Neste caso, ainda se levanta outra questão. A origem da igreja ortodoxa era Constantinopla e, por motivos que pouco terão a ver com cristianismo, a igreja ortodoxa russa autonomizou-se. Por sua vez os religiosos ucranianos quiseram autonomizar-se da igreja ortodoxa russa e em 2018, voltaram à obediência a Constantinopla, Contudo muitos, os que serviam populações de origem russa, mantiveram a dependência ao Patriarcado de Moscovo, um ramo da Igreja Ortodoxa Russa.
A questão é que o patriarca Cirilo I de Moscovo, antigo KGB tal como Putín, apoia activamente a invasão russa, tendo chegado ao extremo de fazer cerimónias de benção das armas que irão matar ucranianos. Há assim um fortissima probabilidade de alguns desses religiosos, serem de facto espiões de Moscovo e uma probabilidade ainda maior dos ucranianos imaginarem que células de informação funcionem junto dessas igrejas.
6 – “… e haverá na Europa Oriental mais um país puro, de bom nacionalismo.”
Não comento porque interpreto como figura de estilo ou devaneio literário.
Que grande confusão vai por aqui. O leitor nunca ouviu falar de Catarina II nem se preocupa com as várias guerras que se travaram na Crimeia. As elites russas passavam férias na Crimeia (e ainda o fazem), basta ler a literatura. Estaline passava ali longos períodos. A conferência de Ialta (base da ordem mundial vigente) realizou-se na Crimeia. A península é vital para a Rússia? Claro, por causa de Sebastopol, do gás natural nas suas águas, do controlo militar do Mar Negro, prestígio, história. Não faltam motivos. O leitor tem a sua opinião e não discuto, mas incomoda-me um pouco a relativização moral exposta no comentário. Os russófonos são metade da população ucraniana, mas se forem perseguidos não há problema, eles merecem.
A expulsão por Estaline foi anterior a Ialta e à moda das “datchas”. Isto o que eu chamo confusão.
A península é vital “por causa de Sebastopol, do gás natural nas suas águas, do controlo militar do Mar Negro, prestígio, história”.
Deixei claro que Sebastopol é vital Sebastopol é vital mas o controlo militar do Mar Negro faz-se com bases navais, não é necessário a ocupação da península tanto mais que a Rússia não necessita de aérodromos militares na Crimeia para esse controlo.
Ocupações militares já não são toleráveis para adquirir prestígio ou fazer história. O número ridículo e a qualidade dos países que reconheceram a ocupação russa da Crimeia – nem a China reconheceu – é a prova da condenação internacional. E a condenação internacional nem é prestigiante nem faz história. Aqui já é pior do que simples confusão.
Como saberá ou decia saber, a Rússia tem muito mais reservas de gás natural do que as que consegue explorar. De nenhuma forma as da Crimeia serão fulcrais. Mais confusão (deliberada?).
A mim também me incomoda a relativização moral. Por exemplo, realçar as baixas ucranianas sem mencionar quem iniciou a guerra, como se essas baixas se devessem ao “crime” da Ucrânia não se ter rendido logo em Fevereiro de 2022. Por exemplo, referir os interesses fulcrais da Rússia, sem uma palavra para os interesses vitais da Ucrânia; nem para os direitos históricos das populações autóctones.
(a continuar)
“Os russófonos são metade da população ucraniana, mas se forem perseguidos não há problema, eles merecem.”
Não são. Os últimos dados conhecidos são de 2001 e eram inferiores a 30% . E, para contextualizar este número, há que recorrer à história. Podemos situar as medidas supressivas da língua ucraniana na segunda metade do séc. XIX culminando com a proibição total do uso sob Alexandre II. No início do séc. XX os russófonos na Ucrânia eram menos de 10%. Depois de 1918 as políticas foram flutuantes mas, com Estaline, voltaram as proibições e a obrigatoriedade do uso do russo. Assim, quem quisesse um emprego público ou numa empresa com dimensão, tinha de saber russo e de o utilizar. Isto aplica-se a todos os imigrantes de pequenas minorias, búlgaros, polacos, etc., etc.. É toda esta gente que perfaz os tais menos de 30% e, sintomaticamente, concentrados nas cidades, das quais cerca de meia dúzia têm mais de 50% de russófonos. Foras das cidades e da região do Donbass, a percentagem de russófonos é irrisória e semelhante à de outras minorias.
Quer isto dizer que apenas alguns – não tenho dados para quantificar – desses russófonos serão russófilos e outros até serão anti-Rússia.
Pessoalmente, considero lamentável a desrussificação praticada pela Ucrânia, pelo menos mais acentuadamente desde 2017/2018 mas, considerando o que se passou com a invasão e os crimes de guerra, receio bem que russófilos sejam perseguidos e até pior do que isso; e que, na confusão, violências populares sobre russófonos possam ocorrer. Tudo consequências da invasão e do ódio gerado pelos crimes de guerra
Não vale a pena estar aqui a discutir números com um leitor que julga saber tudo sobre um assunto complexo. Grande parte do atual território da Ucrânia (sul e leste) estava praticamente vazio no final do século XVII, quando o império russo derrotou os suecos. Os mapas da época são claros sobre isto. A parte ocidental estava ligada à confederação polaco-lituana e a população era um misto de rutenos (ucranianos), judeus e polacos. Os dois últimos foram massacrados ou expulsos nos diversos conflitos que se seguiram até ao século XX; centenas de milhares de polacos acabaram perseguidos pelos nacionalistas ucranianos, numa vasta limpeza étnica. Os nacionalistas ucranianos participaram com entusiasmo no holocausto dos judeus (confesso que não entendo Zelenski ou Varsóvia), embora se possa dizer que a Polónia sonha com o território entre Báltico e Mar Negro, já havendo projetos para ligar Odessa a Gdansk, para onde irão os fundos europeus do futuro. O ponto é o seguinte: a parte leste e sul foi povoada por russos nos séculos XVIII e XIX, corresponde à Crimeia e ao Donbass, mas também à margem esquerda do rio Dniepre. Depois de 1945, muitos russos emigraram para a Ucrânia, pois ali as oportunidades de trabalho eram melhores. Donetsk e Kharkiv eram cidades russófonas, enquanto Lviv (outrora com maioria polaca e judaica) ficou de língua ucraniana. Antes de 2004, não havia qualquer problema entre as comunidades de língua russa e ucraniana, as pessoas eram bilingues e casavam entre si. O facciosismo é recente. É algo que os portugueses têm dificuldade em entender: os ressentimentos são mitos inventados, histórias contadas de determinada maneira, que visam diabolizar o outro para facilitar a divisão das imensas riquezas. O alvo, obviamente, é enfraquecer a Rússia, tirando-a dos assuntos europeus, expulsando-a para a Ásia. Isto vem tudo na literatura. Lev Tolstoi combateu na guerra da Crimeia, humilhante derrota russa em 1856. O problema da Rússia como potência é um velho tema, que já vem em Dostoiévski. Se não acredita nos turistas russos na Crimeia, pode ler Tchékhov.
Pois tem razão. Vou deixar a história para quem “sabe” assuntos tão complexos. Fico-me então pela modernidade.
A Ucrânia, como Republica Socialista Soviética da Ucrânia, nasce e é admitida na ONU por vontade exclusiva da União Soviética.
Em 1954 Krushchev anexa a Crimeia à Ucrânia, sem oposição internacional.
Em 1991, na sequênca da dissolução da União Soviética, a Ucrânia muda de designação mas mantém a qualidade de país independente reconhecido pela ONU e sem oposição, designadamente da Rússia, depois Federação Russa, que manteve o assento permanente no Conselho de Segurança.
Em 1994, no contexto da desnuclearização, são assinados os Memorandos de Budapeste em que a Ucrânia devolve a Moscovo as ogivas nucleares (1/3 do total soviético) e desmantela e renuncia à capacidade do seu fabrico. Nesses memorandos, salvo erro assinado por Lavrov, a Federação Russa reconhece a integralidade territorial da Ucrânia, que incluía a Crimeia.
Em 2014 a Federação Russa, sem declaração de guerra, envia militares descaracterizados para o Donbass e para Crimeia, consumando a integração da Crimeia e mantendo uma situação dúbia no Donbass, por interpostas milícias separatistas.
Em 2015, os conflitos entre as milícias separatistas e milícias anti-separatistas é congelado pelos Acordos de Minsk, criando-se uma situação de impasse militar que, sem evitar o prosseguimento de combates, mantém eficazmente uma zona-tampão que “de facto” impede a Ucrânia de preencher a defesa das suas fronteiras, como fôra acordado.
Em 2022 os separatistas do Donbass auto-proclamam as Repúblicas Populares de Lugansk e de Donetsk. Sob proposta do partido Comunista a Duma (Câmara Baixa da Federação Russa) passa uma lei reconhecendo essas repúblicas e Putín assina-a em 21 ou 22 de Fevereiro.
Em 24 de Fevereiro forças da Federação Russa invadem a Ucrânia sem declaração de guerra. A principal coluna militar dirige-se a Kiev, nem sequer ao Donbass.
Quase nenhuns países e nenhum significativo reconheceu a anexação da Crimeia. Tanto quanto julgo saber (pode ter-me escapado) só a Federação Russa reconheceu as repúblicas populares do Donbass.
Nada vejo de complexo. É uma claríssima agressão imperialista muito agravada pela integralidade do território ucraniano ter sido reconhecida pela potência agressora, sob o mesmo regime político e até pelo mesmo ministro dos Negócios Estrangeiros. E pelo facto de repetidas vezes Putín ter enganado a comunidade internacional, garantindo serem apenas manobras militares, sem intenção de invadir.
Em tempo algum, 1991, 1994 e até 2015 em Minsk, a Federação Russa impôs ou pediu garantias de neutralidade ou de não adesão da Ucrânia a pactos económicos.
São factos e o direito internacional subjacente é cristalino.
Cristalino. Ficamos a saber que existe um império russo e (imagino) um império americano e que isto é uma guerra imperialista. Só existe uma hipótese: rendição e derrota, a Rússia tem de ser punida, julgamento internacional dos líderes russos e pagamento de indemnizações. Eles vão render-se, claro, ou serão copiosamente derrotados pelo outro império. Os exércitos ocidentais chegam a Moscovo, recebidos em festa pela população oprimida. O império russo é desmantelado, obviamente, pois é o império mau, em oposição ao império bom. A Ucrânia deixa de ser um estado multiétnico e passa a ser um Estado exclusivamente ucraniano. As minorias mereceram a sua sorte. A confederação-de-estados-após-a-Rússia (CEAR) entrega todas as armas nucleares (deixe-me ver, por exemplo, aos americanos). A CEAR alinha com o ocidente, cujas empresas exploram os vastos recursos agora disponíveis, com boas oportunidades de emprego para os mujiques. Fica cercada a China. Na Crimeia, a população pode amochar, como amochou no Donbass. Quem não quiser pode emigrar para a Sibéria, para reforçar o cerco aos chineses. Claro que neste cenário os russos não vão usar armas nucleares nem haverá III Guerra Mundial. Não, será tudo pacífico. O direito internacional subjacente é cristalino, não há impérios nucleares e as intenções do Ocidente são todas cristãs e esta guerra da Ucrânia não será combatida até à última gota de sangue do último ucraniano. As fronteiras são sacrossantas, como são em Chipre, na Palestina, no Kosovo, no Sudão, no Sara Ocidental e em mais duas dúzias de territórios onde o direito internacional cristalino não respeita o princípio da autodeterminação, mas apenas o poder dos impérios. Enfim, deixemos isto para advogados, vai correr bem.
Caiu a máscara.
Não tenho paciência para provocações. O senhor reconhece que existe uma guerra imperialista, mas só menciona a existência de um império. Para mim, há dois impérios neste conflito e a Ucrânia tem o azar de ser o campo de batalha. Não aceita a minha opinião, tudo bem, mas respeite essa opinião. Acho que há riscos de Terceira Guerra Mundial e fim de civilização. O senhor não concorda e acha que o direito internacional é mais importante. OK, que a guerra continue. Dito isto, não entendo o seu comentário. Que máscara é que caiu? A minha opinião é claríssima e a minha assinatura também. Nunca precisei de máscaras, nunca escondi as minhas opiniões. Não admito a ninguém a insinuação de que me estou a esconder atrás de alguma sonsice ou hipocrisia. O que escrevi é transparente. Acredito na paz, acho que é urgente um acordo de cessar-fogo. Não concorda, tudo bem; mas tem o dever de respeitar.
Nos meus comentários deste tópico computei “Rússia” 9 ocorrências; “Federação Russa” 6 ocorrências; “russo, russa, russos, russas” 18 ocorrências.
A palavra imperialista surge uma única vez e cito a frase total:
“É uma claríssima agressão imperialista muito agravada pela integralidade do território ucraniano ter sido reconhecida pela potência agressora, sob o mesmo regime político e até pelo mesmo ministro dos Negócios Estrangeiros.
Imperialista é aqui claramente um qualificativo da agressão – é opinião que posso defender – e referi a potência agressora. Agressora porque o foi de facto, mas em nenhuma ocasião a adjectivação de imperial ou a palavra império foi por mim utilizada.
Vejamos agora como começa a reacção do autor do postal.
“Cristalino. Ficamos a saber que existe um império russo e (imagino) um império americano e que isto é uma guerra imperialista.”
E insiste a seguir:
“…[o senhor] só menciona a existência de um império. Para mim, há dois impérios …”
Isto é linear. Chama-se a falácia do homem de palha (uma tradução demasiado literal de “strawman” que é bem espantalho). E não é bonito. De facto as falácias são vícios de raciocínio e a sua utilização como argumento caem na categoria da desonestidade intelectual.
Falando claramente, falácias são típicas de quem não quer discutir os argumentos ou factos apresentados e recorre processos de intenção que possam ser rebatidos ou contrariados.
Assim, nada tenho a corrigir ou a desculpar-me, porque quem assim procede desmascara-se.
Podia, se tivesse tempo e paciência desmontar quase tudo, a começar pela ideia absurda que a paz deve ser defendida fora do direito internacional. Absurda ou talvez não, porque quando se ouve Lula ou o PCP a declararem que são pela paz, percebe-se muitissimo bem para onde e a quem se querem dirigir.
Não entendo as pessoas que gostam de ler textos com os quais não concordam e que insultam o mensageiro. Foi insultuoso, mas nem deu por nada. Os seus comentários centraram-se em detalhes absolutamente inúteis para a compreensão do problema. Foi como discutir o ovo estrelado mas só mencionar a borda ligeiramente queimada e muito saborosa da clara. Este último texto é todo um tratado de como fugir à gema, coisa muito portuguesa: “a ideia absurda de que a paz deve ser defendida fora do direito internacional”. Mas qual paz? Qual é a parte que ainda não entendeu sobre esta guerra? que a Ucrânia está a ser destruída por 40 anos? que estão a morrer centenas de pessoas por dia? que um simples erro dos beligerantes pode levar a um conflito nuclear? e preocupa-se com a falácia do homem de palha? Estamos em desacordo. Muito bem, qual é o problema? Leia outras coisas.